Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 76
M ais tarde Natasha, William e eu fomos para a área de jogos para encontrar os outros e assistir às crianças numa partida de futebol. Quando chegamos, o campo de terra está imerso numa luz dourada e encontramos um lugar a uma distância segura das bolas perdidas. Natasha puxa uma cadeira e senta, estica as pernas com seu short claro e os pés bronzeados espiam de dentro de uma sandália de couro.
Noto logo que William está ao lado do campo e meio inquieto, vendo as pessoas chegando.
– Vamos lá, tropa. Parece até que estou pastoreando gatos!
Becky e seu clã surgem da floresta daquele jeito de sempre quando se locomovem em grupo: barulhentos, desgarrados – um filho na frente e dois atrás, enquanto os pais tentam mantê-los andando mais ou menos na mesma direção. Poppy nos vê e, com uma explosão de energia, corre para meus braços e senta no meu colo.
William cutuca meu ombro.
– Acho que vou nadar em vez de jogar.
Solto um gemido.
– Viemos a pé essa distância toda e você deixou suas coisas de piscina na cabana.
– Tudo bem, então acho que vou jogar no meu iPad e...
– Mas James e Rufus vieram jogar também. Você não vai ficar aqui sentado com o seu... meu iPad agora.
William começa a morder o lábio e James aparece ao lado dele.
– Eu também não quero jogar futebol.
Cai a ficha.
– São aqueles meninos malvados de novo? Posso ir até lá e falar com eles, se vocês quiserem.
– NÃO! – respondem os dois, tão assustados que daria para imaginar que eu estava ameaçando distraí-los correndo nua pelo campo.
Os dois voltam para perto dos outros meninos resmungando que podem resolver isso, e vão para o jogo. O resto de nós chega para frente para deixar clara nossa presença impositiva olhando atentamente para eles.
– Não está com Ben hoje? – Becky pergunta para Natasha.
– Só quando terminar o trabalho dele. Ele resolveu que quer cozinhar para mim, por isso nós...
Ouvimos uma berraria e aplausos e, quando olho para o campo, William está correndo de braços levantados, aquela pose de messias típica do gol marcado no último minuto da final da Copa do Mundo.
– Que gol lindo! – Seb sorri de orelha a orelha.
Levanto e olho furiosa, desejando ter um botão para rebobinar o filme.
– Foi o William?
Ele engasga de tanto rir.
– Não me diga que você perdeu.
– Você viu, mamãe?
O rosto do meu filho é uma visão de felicidade infinita.
Levanto de um pulo e bato palmas com tanta força que minhas mãos ardem.
– INCRÍVEL, filho. Lindo!
Afundo na cadeira e Becky debocha de mim:
– Nunca se candidate ao curso de teatro com um desempenho desses...
– Não diga isso, talvez eu me safe dessa – respondo pelo canto da boca.
– O que diabo está acontecendo agora?
Olho rápido para o campo para o caso de perder outro exemplo milagroso de desempenho esportivo do meu filho. Mas Becky não está olhando para William. É um dos meninos maiores que está dizendo alguma coisa desagradável para James.
– Meu Deus... aquele é o menino que implicou com eles outro dia? Pensei que tivesse acabado...
– Parece que não.
Becky levanta furiosa. Mas não consegue chegar lá em tempo. Antes de se aproximar, alguém já tinha tomado a iniciativa.
– NÃO MEXA COM MEU IRMÃO, SENÃO...
A ameaça de Rufus pode ser vaga, mas o que falta de definição é compensado pela força. Que praticamente sai como fumaça das orelhas dele. Infelizmente, Rufus tem uns trinta centímetros a menos de altura e é alguns quilos mais leve do que o adversário.
O menino reage empurrando Rufus com as mãos no peito dele, com tanta força que ele cambaleia para trás e acaba caindo sentado no chão.
– RUFUS! – grita Becky.
Mas Rufus levanta imediatamente e retalia com um soco na barriga que faz os olhos do garoto saltarem das órbitas.
– Droga, não briguem! Isso não é o faroeste! – berra Becky, puxando Rufus para trás.
Rufus se liberta e sai correndo. Ela segura a mão do filho e o traz de volta para perto de nós.
– Que diabo foi aquilo? – ela pergunta para ele.
– Estavam sendo cruéis com James e eu disse para calarem a boca.
James vem para perto de nós, ofegante.
– Ele disse mesmo, mamãe. Ficou do meu lado. Não brigue com ele.
Becky olha bem para os dois.
– Olha, Rufus, fez bem em defender seu irmão. Mas da próxima vez, não bata em ninguém, ouviu?
Os meninos voltam correndo para o campo de futebol e Becky fala com Seb.
– É nessas horas que penso que nossos filhos podem ser boas pessoas.
– Claro que podem. Mas lembre-se disso quando eles começarem a brigar de novo em dez minutos.
Becky pega a mão de Seb e beija os dedos dele.
– Para que isso? – ele pergunta.
– Só espalhando meu batom.
– Você não está de batom.
Ela olha para ele e sorri.
– Então deve ser porque eu amo você.