Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 2
E sse é um dos pequenos milagres do meu mundo: mesmo em face da maior tensão, meu pai inteiro sorri quando o neto está por perto.
– Vocês estão preparados, William?
– Estamos. De malas prontas e a caminho, vovô.
Papai embaraça o cabelo cheio e encaracolado de William e recua um passo para examiná-lo.
– Eu podia ter levado você para cortar esse cabelo antes da viagem.
– Mas eu gosto dele comprido.
– Você parece uma almofada rasgada.
William ri, apesar de ter ouvido essa brincadeira mais vezes do que consegue contar.
– Quantos minutos têm quatro horas e meia? – papai o desafia.
– Humm... Duzentos e... setenta.
– Bom menino. – Ele puxa William para um rápido abraço.
O fato do meu filho estar matriculado numa turma de Dotados e Talentosos em matemática não é crédito meu. Aritmética definitivamente não é o meu forte, e os únicos números que Adam domina são do tipo copo/hora.
Mas meu pai, contador, sempre foi mais pai para William do que o Adam. A casa geminada dos meus pais fica apenas a dez minutos de onde nós moramos e foi um segundo lar para William antes de ele entrar para a escola, o lugar onde ele resolvia quebra-cabeças com meu pai e fazia bolinhos com mamãe.
Mesmo mais tarde era papai que o esperava nos portões da escola e levava William para a casa deles para supervisionar o dever de casa ou para ir com ele, de barca, para a aula de caratê enquanto eu terminava o trabalho.
Tudo havia mudado nos últimos dois anos.
Minha mãe não é mais a avó que foi um dia, alguém que sete ou oito anos atrás era a primeira da fila para descer no enorme escorrega cheio de curvas no nosso parquinho coberto, com William no colo. Ela nunca se preocupou de parecer uma criança grande. Simplesmente tirava os sapatos e entrava no tubo, enquanto William gritava de prazer e as outras mulheres da idade dela, que não tinham recebido o diagnóstico que mamãe já tinha naquela época, ficavam de fora, bebendo seus cafés latte.
– Vou te dar uns trocados – diz papai, procurando no bolso da calça.
– Não precisa – murmura William sem convicção, e meu pai põe uma nota de vinte libras na mão dele.
– Compre um gibi na barca.
– Posso comprar uma Coca?
– Claro – responde papai, antes de eu poder dizer terminantemente que não.
– Obrigado, vovô. Agradeço muito.
William vai saltitando para a sala de jantar à procura da avó e eu fico lá para conversar com papai.
– Você devia ter ido direto para a barca, querida – diz ele para mim. – Não precisava parar aqui no caminho.
– Claro que precisava. Eu queria dar o almoço para mamãe antes de ir.
– Eu faço isso. Só ia sair para comprar o jornal.
– Não, eu gostaria de dar o almoço para ela, se você não se incomodar.
Ele meneia a cabeça e respira lentamente.
– Bem, então preste atenção. Procure relaxar na França. Você precisa de umas férias.
Sorrio desconfiada.
– É assim que você chama isso?
– Você vai curtir se permitir-se fazê-lo. E trate de se dar essa permissão. Pelo bem da sua mãe, se assim se sentir melhor. Ela realmente quer isso, você sabe.
– Eu ainda acho que é tempo demais para ficar longe.
– Nós já estamos vivendo com isso há dez anos, Jess. Absolutamente nada vai acontecer em cinco semanas.
Mamãe está no outro lado da sala de jantar, perto da janela do pátio aberto, com William sentado ao seu lado, falando sem parar. É a melhor hora do dia, quando o sol está alto e ela pode sentir uma brisa fresca de verão na pele.
Ela está na cadeira de rodas, com o vestido turquesa que comprei para ela na Boden alguns meses atrás, numa posição que se pode chamar de sentada, só que implica ficar imóvel.
Mas mamãe raramente fica quieta ultimamente. Porém, graças ao remédio que toma, não tem mais espasmos violentos como antes.
Ainda assim as drogas não produzem milagres, e infelizmente tenho consciência disso.
Então ela se remexe e se revira, as feições, braços e pernas ossudos se contorcem em movimentos improváveis. Ela agora está magra, as juntas dos cotovelos e joelhos proeminentes, as maçãs do rosto tão pronunciadas que às vezes olho para ela e penso que os olhos parecem grandes demais para o rosto. As mãos estão disformes também, retorcidas além da idade. Ela já pareceu mais jovem do que a idade que tinha um dia. Agora não dá para imaginar que tem apenas cinquenta e três.
– Oi, mamãe. – Eu me abaixo para abraçá-la e a aperto mais tempo do que de costume.
Quando me endireito, olho para sua boca aberta para ver se há algum esboço de sorriso. Ela demora bastante para reagir, mas acaba conseguindo balbuciar.
– Eh... meu amor.
Ainda sou capaz de entender o que mamãe diz quase sempre, mas sou uma das poucas que conseguem. Ela só usa frases de três ou quatro palavras e são sempre enroladas, a voz arrastada e baixa.
– Estou vendo que você conseguiu o melhor lugar. Todos vão ficar com inveja.
Aí vem um longo intervalo em que mamãe fica visivelmente procurando as palavras.
– Subornei todos – ela acaba dizendo, e eu dou risada.
Um novo membro da equipe aparece e põe o almoço de mamãe na mesa, depois desdobra um grande babador de plástico e amarra gentilmente no pescoço dela. Estendo a mão para alisá-lo, mas o braço esquerdo dela continua a dobrá-lo para cima. O babador flutua para baixo um instante, depois sobe de novo.
Penso em pegar a colher de bebê que está ao lado do prato, mas resolvo deixá-la ali para o caso de mamãe querer tentar se alimentar sozinha. Ela raramente faz isso agora, apesar de ter ficado indignada quando no início sugeriam qualquer coisa diferente disso.
Já faz quase um ano que ela se mudou para Willow Bank Lodge. Todos nós queríamos que ficasse em casa o máximo de tempo possível, mas tornou-se muito difícil, mesmo quando papai instalou a cama dela no térreo. Papai ainda trabalha e não pode ser cuidador 24 horas por dia. Todos entenderam que ela ia precisar de mais gente além dele, o ideal seria um lugar em que a simples ida ao banheiro não significasse uma viagem com risco de morte. E aqui nunca faltam visitas para ela. Fato é que mamãe tem um pequeno círculo de amigos que a ajudaram em todos os momentos sérios naqueles últimos dez anos. Sua melhor amiga Gemma vem todo fim de semana, em geral com um novo audiobook, ou com uma fornada de pães de cereja deformados que ela chama de seu “prato exclusivo”.
– Animado? – mamãe pergunta para William.
– Louco para chegar! – ele responde. – Papai está planejando um monte de coisas para nós, vovó. Vamos ficar na melhor cabana, não é, mamãe? Vamos passear de caiaque, fazer escalada e ele vai deixar que eu o ajude em algumas tarefas do tipo faça-você-mesmo.
Eu me preocupo seriamente com as expectativas que minha mãe alimenta para essa viagem, que foi ideia dela. Não que eu tenha me surpreendido quando ela sugeriu, acrescentando dramaticamente que era seu “último desejo”. Ela admite abertamente que essa é uma garantia para obter o que quer.
Depois que Adam e eu nos separamos, mamãe ficou tão furiosa com ele quanto eu e entendeu por que eu queria distância dele. Mas apesar de não ter nenhuma vontade de nos ver juntos outra vez, ela supunha, ou pelo menos esperava, que William fosse ter algum tipo de relacionamento com o pai.
Então Adam mudou para a França e ficou claro que isso não ia acontecer.
Adam não é exatamente um pai omisso. Ele paga a pensão sem atraso, lembra do aniversário de William e conversa pelo Skype sempre que combinam. Mas o nosso filho não passa de uma pequena peça no quebra-cabeça da vida animada de Adam. Eles se veem duas ou três vezes por ano, se tanto. E eu nem tenho certeza se Adam ainda reclamaria da acusação de que não tem interesse pelo menino.
Mamãe sempre se incomodou com essa falta de contato e também com o fato de que eu nunca falei nem fiz qualquer coisa a respeito. Deixei Adam se afastar espontaneamente. Para ser sincera, até gostei. Eu tinha amor que valia por dois para dedicar a William.
Tenho quase certeza de que ela jamais imaginou Adam e eu sentados à mesa de jantar todo domingo pelo bem de William, odiando um ao outro enquanto passávamos o molho, mas durante anos ela cismou que o menino precisava de um relacionamento concreto com o pai. Talvez por ter sido adotada e jamais ter conhecido os pais. De qualquer modo, hoje em dia Adam leva uma vida de luxo na Dordogne, e nós moramos numa casa de quatro cômodos, dois em cima e dois embaixo, em Manchester, e o fato de haver uma padaria gourmet na esquina não aproxima em nada nossos estilos de vida. Mesmo assim ouço o que ela diz. Não concordo, mas ouço. E toda vez que olho para minha mãe esses dias e penso em tudo que ela tem de enfrentar, lembro que não tenho como fincar o pé e teimar com ela. Então enviei um e-mail para Adam e sugeri que fôssemos lá visitá-lo. Desconfio que ele quase caiu para trás de susto.
De qualquer modo, se eu conseguisse ao menos, sei lá, que eles criassem algum laço, sentiria que tinha realizado alguma coisa capaz de dar um pouco de consolo para minha mãe. Além do mais, terei apoio pelo menos por um tempo da nossa estada lá. Minha amiga Natasha vai se juntar a nós por algumas semanas e depois chegam Becky, o marido e os filhos.
– Eu... adoro a França – mamãe sussurra, olhando carinhosamente para William. – Tirem fotos.
Nós passamos algumas férias na França quando eu tinha a idade de William. Ficamos em um trailer no mesmo camping, ano após ano. Era divino, um novo mundo de dias de sol sem fim e cafés da manhã com pães recheados de chocolate de verdade.
– Experimente um pedalinho – diz mamãe. – Sua mãe adorava.
Sinto a garganta apertar com a lembrança, mamãe e eu pedalando em volta do lago no limite do camping, rindo juntas ao sol.
Quando William começa a tagarelar alguma coisa sobre um beliche, eu tenho de olhar para o outro lado, para que não percebam a película de líquido nos meus olhos. Engulo o choro e lembro que só ficaremos fora algumas semanas. Não será bom para ninguém se eu começar a chorar agora, por mais que isso faça meu peito doer.
Olho para baixo e noto que mamãe não encostou na colher de bebê. Por isso pego a colher, um pouco da papa e tento alimentá-la.
– Serviço à inglesa – ela resmunga, e eu bufo com desdém.