Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 5 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 4

 

Q uando somos cercados por fileiras compactas de nogueiras e uma profusão de folhagem exuberante, nosso GPS finalmente anuncia que chegamos ao destino. Como estamos a quilômetros de qualquer lugar, o GPS evidentemente está falando besteira.

Remexo no porta-luvas à procura do mapa que esperava não precisar usar, e, depois de vários caminhos errados, encontro uma bifurcação apontando para o Château de Roussignol. Amasso a brita da entrada e a vibração do meu coração me faz pensar se estou realmente satisfeita com a ideia daquelas férias. Suponho que sejam permitidas, mesmo significando que ficarei perto de Adam.

Houve um ponto em que odiei Adam, mas essa não é uma emoção que eu sinta naturalmente. Achei exaustiva.

Por isso tenho sido a definição de civilizada durante muito tempo. Sorrindo, pelo bem de William, quando ele chegava para pegá-lo. Exclamando “fantástico!” quando nosso filho voltava elogiando as virtudes gastronômicas do McLanche Feliz que tinha comido.

Mesmo se eu quisesse desperdiçar tempo e energia detestando Adam, não encontraria essa disposição em mim, com tudo o mais que estava acontecendo. Hoje em dia não sinto nada por ele. Sigo fingindo que está na França porque foi para onde o trabalho o levou, e não porque ele jamais quis se incomodar com qualquer coisa tão mundana como a monogamia e a paternidade. Meu filho acorda e senta esfregando os olhos quando temos a primeira vista do Château de Roussignol. Eu só tinha visto em fotos, em cada etapa da reforma, desde o início, quando estava em ruínas, abandonado.

Isso foi antes de William ter idade para falar, quando Adam enviava e-mails para mim, intermitentemente, anexando fotos do château. Todos acharam que ele tinha enlouquecido quando o comprou.

Dava para ver que havia uma construção grandiosa por trás do mato e dos jardins sem cuidados. Mas não tinha eletricidade, havia ratos embaixo das tábuas do assoalho e um sistema de esgoto da Idade das Trevas. Mas Adam, apesar dos seus defeitos, sempre foi cabeça-dura o suficiente para fazer aquilo funcionar.

Os e-mails foram caindo na minha caixa todo mês por três anos, e eu tive uma visão da sua nova vida que jamais pedi e nunca quis ter: as horas que ele passava em trabalhos braçais, a abordagem obsessiva de planejamento, a ridícula visão ambiciosa que ele tinha para o lugar. Eu me preocupava demais com o risco financeiro que ele estava assumindo e imaginava de que maneira aquilo ia afetar sua capacidade de contribuir com a despesa na criação de William, sem a qual não teríamos sobrevivido naqueles dias iniciais.

Eu lia os e-mails com um misto de curiosidade, ciúme, raiva e desespero. Pensando melhor, acho que a principal motivação dele foi apenas uma necessidade quase infantil de provar que estava realmente se tornando alguém.

Quando o château estava quase pronto e nosso filho completando o terceiro ano de vida, ficou claro que Adam tinha conseguido realizar seu projeto.

Eu não me permiti amargura, pelo menos não com o sucesso dele, pelo qual tinha trabalhado duro. Mas admito que nunca fui capaz de acreditar na rapidez com que ele começou a dormir com outra depois que nós nos separamos, enquanto eu me ajustava à vida com os mamilos irritados, sem dormir e com a ideia de que um dia de sucesso significava escovar os dentes antes das 3 da madrugada.

– Chegamos? – pergunta William, mais animado. – Uau, é incrível, não é?

– É sim. Seu pai trabalhou muito bem.

O château é extraordinariamente lindo, é mais uma mansão francesa do que a ideia que eu fazia de um castelo, mas com toda a grandiosidade e o charme neoclássico que alguém poderia desejar.

Tem três andares, um telhado cinza prateado que desce até os tons de biscuit das paredes e janelas imensas, ladeadas por venezianas elaboradas pintadas da cor de conchas do mar. Dois degraus de pedra antigos, com intrincado corrimão de ferro fundido que dá numa enorme porta em arco. Uma varanda alta coberta de hera se abre para a entrada de brita, ladeada por ciprestes. Vasos com flores muito coloridas se alinham do lado de fora da casa.

Seguimos meio aos trancos, em silêncio, sentindo o cheiro de tomilho e de campânulas pairando no ar. O único ruído que se ouvia era o gorjeio dos rouxinóis e o suave roçar da brisa.

– Mal posso esperar para ver o papai – diz William. – Ele vem nos encontrar aqui?

– Ele vai tentar. Disse para irmos para a recepção assim que chegarmos.

Adam jurou que ia correr e abraçar William assim que aparecêssemos, mas não aposto nisso. Considerando que estamos falando de Adam, e que ele não respondeu à mensagem de texto que enviei uma hora atrás, quando paramos para encher o tanque, não estou preparada para assumir o risco. Desligo o motor e abro a porta.

– Vamos lá ver se conseguimos encontrá-lo – sugiro, pondo as pernas para fora do carro. – Ele não vai reconhecer você. Deve ter crescido uns quatro centímetros desde a última vez que ele te viu.

Nós só tínhamos visto Adam em carne e osso uma vez desde o Natal, quando ele estava em Londres, na casa da nova namorada, Elsa. Como muitas outras mulheres que Adam namorou depois de mim, Elsa é alguns anos mais nova do que ele e fica sem ar na presença dele, à mercê de uma piscadela daqueles olhos castanhos.

A maior parte do tempo acho difícil me lembrar de ter me sentido assim com ele, mas a lógica me diz que devo ter sentido isso, sim. Porque ficamos juntos mais de três anos, apaixonados pelo menos uma fração desse tempo, e conseguimos fazer um bebê juntos, apesar de ter sido acidental.

Isso foi antes de eu entender que quando Adam disse que nunca quis ser pai, estava sendo sincero.

Ele foi o primeiro a admitir que não tinha sido feito para ser um pai como o meu. Meu pai não era nada perfeito, mas seu amor brilhava todas as horas que passávamos brincando com a minha casinha de bonecas ou, quando eu cresci, me ensinando a dirigir. Esse tipo de coisa não fazia a cabeça de Adam, nem depois que a paternidade deixou de ser uma decisão de vida e passou a ser uma realidade inevitável.

Foi por tudo isso que tive de encerrar nosso relacionamento. Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Mas não tive escolha.