Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 29 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 28

 

D esde a chegada de Natasha criamos uma espécie de rotina que incluía sair da cama mais tarde do que William estava acostumado, tomar um café da manhã maior do que ele é capaz de engolir e depois ir conhecer algum lugar ou relaxar na piscina.

Eu estou de corpo, senão inteiramente de alma, nesses prazeres simples. Assim que abro os olhos todas as manhãs começo a pensar na mamãe, e a série de pensamentos que vem em seguida me acompanha o resto do dia e dificulta minha concentração em qualquer outra coisa.

Mesmo assim fico feliz ao ver a chegada de Becky com a família. E se existe alguma coisa que pode abafar o barulho na minha cabeça é esse bando.

– Talvez tenha de guardar alguns desses trambolhos na sua geladeira. Tudo bem, Jess? Não sei se temos espaço suficiente na nossa.

Becky fala comigo enquanto Seb se arrasta sob o peso de uma caixa de cerveja. Ele tem os mesmos olhos verde-claros e o sorriso maroto que tinha na universidade, mas o tempo e três filhos fizeram seu cabelo ficar mais cinza, a pele mais flácida e a postura mais desgastada.

– O que ela quer dizer – informa Seb – é que compramos tanta bebida no supermercado que, pela suspensão do carro, parece que temos um canguru na mala.

Ele larga a caixa na mesa e vem marchando para me dar um abraço de urso.

– Ah, que saudade que eu estava de vocês dois! – aperto Seb.

– Quando foi que te vi pela última vez?

– Véspera do Ano-Novo – digo a ele. – Festa excelente, aliás. Mas alguém devia ter dito para a sua mulher que, a essa altura, ela já devia ter superado aquela coisa de acordar na banheira.

A cabana de Becky e Seb fica um pouco distante de onde estamos, numa casa de trabalhadores perto do château que foi reformada no ano passado. É bonita, tem paredes antigas de pedra, é suficientemente grande para acomodar os cinco e cercada de madressilvas amarelo-claras. Espio pelo vidro traseiro da caminhonete deles. Está entulhada de carrinhos e todo o equipamento para bebês, fraldas e bonecas Barbie.

– Viajaram leves como eu, então?

– O que nós precisávamos mesmo era de um caminhão de mudança – diz Becky, pegando duas garrafas de vinho, prendendo um trocador de bebê embaixo do braço e segurando uma sacola esportiva. Pego uma mala e vou atrás dela.

Becky tingiu o cabelo de castanho quando estávamos na faculdade juntas, e, depois de flertar com mais ou menos uns dezesseis tons, adotou um emaranhado de ondas louras no último ano. Ela ganhou alguns quilos, mas as curvas caem bem nela, com a cor de pêssego da pele imaculada e os olhos castanho-claros. Ela usa uma calça jeans desbotada e uma blusa cor de vinho marsala, com dúzias de contas prateadas tilintando nos braços.

Apesar de morar numa respeitável casa de quatro quartos em Hebden Bridge, Becky mantém o ar de alguém que não foi feita para se estabelecer. Posso estar baseando isso na menina que eu conheci, que mudou de curso na universidade duas vezes, mudou de apartamento meia dúzia de vezes e cujo único relacionamento longo que teve foi com a firma que fazia empréstimos para estudantes, a Student Loans Company.

Na universidade, Becky e Seb eram amigos meus e de Adam muito antes de começarem a namorar. Seb, aluno da faculdade de economia de Birmingham, era doce, tímido e, depois que a convivência derrubava esse jeito sossegado, também era muito divertido, com aquele tipo de humor inesperadamente seco que faz a gente cuspir o que está bebendo. Ele era muito alto, de olhos verdes e cabelo louro e cheio que às vezes tinha vida própria.

Seb fez amizade com Adam desde que se conheceram nos corredores da residência de estudantes. Quando fui apresentada a ele no segundo ano, rapidamente cheguei à conclusão de que Seb era, e é, um amor: marido leal, grande amigo, boa praça em tudo e o irmão que Adam nunca teve.

O fracasso inicial no relacionamento dos meus amigos não se deveu à falta de motivação de Seb. Ele adorava Becky. O desejo irradiava dele toda vez que ela falava, seus olhos brilhavam de admiração quando ela ria e ele corava quando ela flertava com ele. Infelizmente, naquele tempo, ela teria flertado com uma batata se achasse que o tubérculo estava interessado nela.

Mas Seb não fazia o tipo de Becky. Ela se encantava com aqueles sujeitos perda de tempo. Foi quando ela estava se recuperando do fim do namoro com mais um lindo cabeça oca que um de nós conseguiu entradas para assistir ao Oasis no estádio Cidade de Manchester.

Aquela noite ficamos bem chapados, embriagados com a música e uma vida que, inconsequentemente, pensávamos que seria sempre fácil e boa. Adam me abraçou à meia-luz e, quando os acordes de guitarra de “Champagne Supernova” reverberaram em mim, alguma coisa chamou minha atenção. Seb tinha segurado a mão de Becky. E deu para notar que ele ficava verificando furtivamente se ela ia rejeitá-lo.

Mas uma leve expressão de surpresa despontou no rosto dela. Antes daquele momento ela já devia ter entendido o que ele sentia por ela. Mas aquela ousadia dele o colocou sob uma luz completamente nova. A música encheu nossos ouvidos, os odores sensuais do verão na cidade nos cercaram e duas das minhas pessoas preferidas finalmente se encontraram.

– Becky, vem aqui um minuto? – chama Seb lá de dentro.

Becky suspira e começa a se arrastar mais rápido com o vinho, então vemos James e Rufus num debate aos gritos para saber quem bateu em quem primeiro, enquanto Poppy dava um piti no chão.

– O que houve com Poppy? – Becky pergunta em meio à algazarra.

– Não tem televisão para assistir Peppa Pig – responde Seb, esfregando a cabeça.

Becky solta os ombros e se agacha na frente da filha.

– Então, Poppy – a voz dela é calma e tão autoritária que assusta até a mim –, se você continuar com isso vai ficar de castigo.

– É um bangalô – Seb lembra e vira muito sério para os meninos. – Vocês dois: já chega.

Eles nem registram a presença dele.

– MENINOS! CHEGA!

Nunca tinha ouvido Seb levantar a voz assim antes.

– Olhem aqui, vocês estão de férias. O que quer dizer que vão em paz um com o outro. Agora eu quero que os dois me digam, calmamente, sem gritar, qual é o problema.

– ELEFEZPRIMEIRO – NÃOELEQUEFEZ – MASELEMEBATEU – EUODEIOELE E...

– PAREM!

Becky intervém, empurra Seb para fora do caminho e manda cada menino ir sentar em lados opostos da sala. Os dois começam a discutir para saber qual é o melhor lado.

– Isso está assim desde que saímos de casa – Becky diz para mim.

– Isso está assim desde 2012 – Seb corrige.

Becky suspira.

– Bem, o lugar parece adorável. E Seb mal pode esperar para ver Adam.

Seb e Adam mantiveram a amizade nesses anos todos, mas não do mesmo jeito que Becky e eu. Ligamos uma para outra várias vezes na semana e nos esforçamos para nos ver pelo menos duas vezes por mês. Seb e Adam só mantiveram contato daquele jeito que os homens fazem: comentando as publicações no Facebook, fazendo aqueles programas de homem e comprando uma cerveja para o outro se a vida os leva para uma mesma vizinhança.

– Adam anda muito requisitado – digo para ela. – Ele está com uma nova namorada.

– Tem sempre uma nova namorada – Becky rebate. – Seb foi apresentado a dúzias delas nesses anos, e não saberia dizer o nome de nenhuma...

– Matilda – Seb interrompe.

– O quê? – Becky resmunga.

– Matilda – ele repete. – Lembro dela.

– Essa era a que tocava violoncelo e que parecia a Jessica Rabbit? – pergunta Becky. – Nem imagino por que ela ficaria na sua memória.

– Você sabe o quanto eu gosto de Stravinsky. – Ele sorri de orelha a orelha.