Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 7 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 6

 

–E sse carro não vai se descarregar sozinho – eu digo para William depois que Simone vai embora. – Se eu estacionar perto da porta você me ajuda?

– Deixa só terminar isso – ele murmura, com a testa a cinco centímetros do iPad.

– O que você está assistindo? – pergunto, espiando por cima do ombro dele.

– A mulher de preto.

– Quando é que você baixou isso? Não é assustador demais para você?

– Mamãe, a classificação é 12 anos – suspira ele.

– Ah, é?

– É.

Dez anos é uma fronteira estranha. William é bem criança, mas tem momentos de retratos alarmantes do seu futuro como adolescente. Por um lado, eu lhe expliquei os fatos da vida. Por outro, ele ainda aceita a ideia do Papai Noel (só que tenho certeza de que está zoando comigo).

– Mas não corra para mim quando tiver pesadelos.

– Mamãe. Eu não vou ter pesadelos.

– Um minuto, está bem? Depois, eu preciso de você.

Ele não responde.

– William?

– Tá. Não tem problema.

Vou lá para fora me sentindo um pouco tonta de calor e cansaço, levo o carro para perto da porta da cabana, desço e abro o porta-malas. Espio lá dentro e fico imaginando como consegui enfiar tudo aquilo naquele espaço. Nem sei se não é contra a lei ter aquela tralha toda impedindo a visão pelo vidro de trás. Ao destrancar suavemente a porta do porta-malas, logo percebo meu erro e jogo o corpo contra ela para impedir que tudo aquilo caia no chão. Gotas de suor despontam na minha testa, e timidamente começo a tirar as coisas até ficar cercada de detritos e sabendo que ainda faltam um cesto de piquenique, doze livros e meus halteres de dois quilos.

– William? – eu grito, sem muita esperança de que ele apareça correndo para me ajudar – WILLIAAAM!

– Eu reconheceria essa voz de anjo em qualquer lugar.

Dou meia-volta e sinto um arrepio na nuca ao ver Adam vindo na minha direção.

– Ah, oi – resmungo.

– Deixe-me ajudar com isso. – Ele joga um buquê de flores azuis bonitinhas na mesa do pátio e depois um saco de papel pardo.

– Estou bem, não precisa – insisto, mas ele mergulha na tarefa de qualquer maneira e acaba com a tensão.

– Eu seguro e você puxa algumas coisas aí, para ver se resolvemos isso sem uma empilhadeira.

Depois de formar uma enorme pilha no chão e eliminar o risco de uma avalanche de coisas, eu noto o canto da boca de Adam para cima.

– Você trouxe tudo que é seu?

Ele pega um dos meus mini-halteres e começa a se exercitar com ele. São a única coisa entre mim e as pelancas nos braços, mas não vou explicar isso para ele, então simplesmente arranco o pesinho dele.

– Nem tem tanta coisa assim. Engana, parece muito porque meu carro é bem pequeno. Além disso, nós somos dois, e são cinco semanas. Precisamos dessas coisas.

Ele iça a pipoqueira de William.

– Isso é para emergências?

– Isso não é meu.

Basta olhar para ele para ver que Adam come aquele tipo de comida fresca e balanceada que faz os olhos brilharem, que curte um bom vinho tinto, pratica muito exercício e gosta do calor do sol na pele. Basta uma minúscula provocação para ele dar um largo sorriso, e não há sinais de estresse em sua testa. O cabelo escuro está um centímetro mais comprido do que no tempo em que ele trabalhava em um escritório, e agora tem cachos soltos na testa bronzeada.

– Você está muito bem – digo, educadamente.

Ele parece um pouco surpreso e olha para mim.

– Você também, Jess.

Viro para o outro lado para ele não ver o rubor no meu rosto.

Adam espia dentro da mala e pesca o livro sobre os fatos da vida. Nem imagino como aquilo foi parar no carro. Certamente nenhum menino de dez anos precisa saber de mais detalhes sobre o surgimento de pelos púbicos além dos que já leu.

– Você devia ter falado comigo se precisava de alguma explicação, Jess – continua Adam, folheando o livro. – Eu teria muito prazer de dar algumas ideias.

– Ho, ho.

Ele continua a folhear.

– Imagino que isso seja para o William.

– Bom palpite.

Ele suspira.

– Parece que eu estava empurrando ele no balanço apenas cinco minutos atrás. De qualquer forma, desculpe não estar lá quando vocês chegaram. Eu fui abduzido.

Sinto o maxilar contrair, mas lembro por que estou ali.

– Tudo bem. Obrigada por nos instalar numa cabana tão boa. Eu sei que tem muita procura no verão.

– Bom saber que você gostou. Ah... comprei umas coisinhas para ele.

Adam vai até a mesa e pega o saco de papel, volta e entrega para mim.

– Algumas balas e algumas camisetas.

Tiro uma camiseta. É pequena demais e ficaria justa num anão de jardim.

– É linda. Você guardou a nota, para o caso de não caber?

– Ah. Não tenho certeza.

Naquele breve instante, parece demais com ele mesmo aos vinte e um anos, todo contradições e carisma.

– Por que não vai lá e faz uma surpresa para o William, dá os presentes você mesmo? – sugiro. – Ele está no quarto.

Passa um segundo antes de Adam fazer que sim com a cabeça e falar:

– Eu vou.

Ele anda até a porta, mas para e pega o buquê que está na mesa, e oferece sem jeito para mim, endireitando os cabinhos. Pego o buquê pouco à vontade.

– Muito atencioso da sua parte. Obrigada – resmungo e percebo como isso é perturbador, quando ele tenta ser gentil comigo. – Então vá até lá – acrescento, indicando a cabana com um movimento da cabeça. – Ele está louco para ver você.