Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 58
P ercorro o terreno do château à procura de Adam e minha raiva aumenta a cada minuto que não o encontro. Depois de um tempo, vou até a recepção e vejo Ben lá. Ele sorri com aqueles doces olhos castanhos e o salpico de sardas no nariz bronzeado parece ressaltar sua juventude.
– Nada de William hoje, Jess?
– Hum... hoje não. Você viu o Adam? Ele não responde no celular e fui até a cabana, mas não o encontrei.
– A última vez que eu o vi estava indo para o barracão à procura de uma serra. Posso ajudar em alguma coisa?
Fico tocada com a preocupação no rosto dele.
– Acho que não. Mas obrigada.
Encontro Adam na frente do barracão, inclinado sobre um banco, movendo a serra para frente e para trás, a pele dos braços brilha com suor. Ele olha para mim quando me aproximo e abre um sorriso. Então ele registra a minha expressão.
Ele larga a serra com cuidado e vem na minha direção, limpando as mãos em um pano. E engole a água que tinha na boca antes de falar:
– Fui procurar você mais cedo.
Desejo brilha nos olhos dele, mas fico insensível a isso, arrasada com as revelações de Simone. Ele estende a mão e eu a empurro.
– Gostaria que você explicasse uma coisa.
– Claro, o que houve? Quer ir beber alguma coisa?
– Não.
As palavras brigam por espaço na minha cabeça até que finalmente consigo me expressar.
– Estive com Simone hoje cedo.
Ele passa a mão no cabelo, aflito.
– Isso deve ter sido chato para você. Sinto muito, Jess. Vou falar com ela hoje.
– Adam, ela me disse que você vai viajar pelo mundo com ela – digo irritada. – Que você combinou com os Blanchard para que eles cuidem do château por um ano, e depois vai simplesmente partir. Isso é verdade? Você está planejando alguma grande viagem com ela?
No mesmo instante percebo que sim, pela expressão dele.
– Certo. Isso é complicado...
– Não, Adam. É simples. É verdade? Você reservou os voos, planejou ficar fora um ano inteiro, como Simone disse? Ou ela está mentindo?
Ele faz uma careta antes da confissão começar a sair.
– Ela não está mentindo. Mas isso foi antes...
– Antes do quê? Não foi antes de você saber que tinha um filho que não via havia mais de um ano porque você estava longe e se comportava como se ainda tivesse dezoito anos. Alguém sem responsabilidades. Nenhuma preocupação na vida.
Fico parecendo uma chata. Estraga-prazeres. Por um momento fico pensando se estou com inveja por Adam poder fazer uma coisa que não posso nem me dar ao luxo de sonhar.
– Eu ia contar assim que vocês chegaram aqui.
– E por que não contou?
– Porque mudei de ideia.
– Ah, sim, que beleza. Então você ia ser honesto e depois achou melhor mentir para nós.
– Não foi isso que eu quis dizer. Mudei de ideia sobre a viagem.
Eu já ia continuar reclamando, quando registro o que ele disse.
– O quê?
– Mudei de ideia sobre ficar fora tanto tempo assim. E sobre... tudo.
– Ahn, sério, Adam? – digo, irônica. – E eu devo acreditar que você não vai, mas ainda não deu essa notícia para a Simone?
Ele franze a testa.
– Estive adiando isso. Queria esperar até passar o aniversário dela para ver como as coisas iam ser com você e William aqui.
– Então estava espalhando as apostas?
Ele para bem na minha frente e cruza os braços.
– Claro que não, Jess. Eu entendi que não estive muito com William no passado, que não fui o pai que devia ter sido.
– Certíssimo.
– Mas você teve sua parte nessa história também.
– Eu?
A adrenalina dispara no meu corpo agora que percebo que ele quer engolir aquelas palavras. Mas é tarde demais.
– Como pode dizer isso, Adam?
Ele fecha os olhos por alguns segundos e respira fundo.
– Jess, eu sempre tive certeza de que seria um péssimo pai. Mas o que eu devia ter feito, e agora vejo isso, era ter seguido em frente mesmo assim. Como fazem os pais e as mães, sentindo-se qualificados ou não.
Eu sei o que vem agora.
– Não estou culpando você, Jess. Mas você deixou absolutamente claro que me queria fora da sua vida – e fora da vida do William. Você me disse que ele ficaria melhor sem mim. Eu nunca mencionei isso até agora porque... bem, porque eu já tinha me convencido de que você tinha razão.
Engulo em seco e minha respiração acelera.
– Eu devia ter lutado mais – ele continua. – Devia ter tentado provar para você e para mim mesmo que eu podia ser um pai melhor do que aquele que eu tive. Em vez disso, segui essa ideia.
Eu me perco, sem palavras, e ele continua a falar.
– Mas havia sempre um pedaço de mim que esperava que as coisas pudessem ser diferentes. Não tinha ideia de como seriam, mas pensava muito nele passando as férias aqui comigo, como está sendo agora.
Adam tinha me perguntado uma vez se eu iria visitá-lo com William, quando era bebê. Não lembro exatamente o que eu disse para ele, mas tenho quase certeza de que foi uma versão educada de “vá se catar”. Fico sufocada com essa conversa.
Ele seca o suor da testa e senta num tronco.
– Quando você enviou aquele e-mail do nada, dizendo que vocês vinham para cá, fiquei eufórico. E estou falando sério. Então quando aconteceu e passei mais tempo com ele, uma coisa começou a me incomodar lá no fundo. Eu soube que não podia sair pelo mundo com Simone. Eu não queria rodar o mundo com ela. Mas Simone é uma boa pessoa. Uma pessoa legal. E eu tenho sido uma merda com ela. Para começo de conversa, transei com você.
Olho para o chão.
– Por isso estava tentando encontrar um momento para dizer a ela que não posso ir. Mas você está certa. É agora. Na verdade, foi semanas atrás.
Fecho os olhos e faço um apanhado de tudo, de como a fúria fervente que senti minutos antes estava desfeita, substituída por algo completamente diferente. Lágrimas salgadas enchem meus olhos e tento piscar para me livrar delas antes de Adam perceber.
– Preciso acabar logo com isso – ele diz.
– Ah, meu Deus, agora tenho a sensação de estar mancomunada com você – choramingo.
Ele levanta e toca na minha mão. Depois me puxa para perto e me abraça. Eu me debato com a dor no peito. E o empurro suavemente.
– Preciso ir – sussurro, mas ele segura minha mão de novo.
– Antes quero dizer uma coisa.
– O que é?
– Jess... ontem à noite. Realmente teve significado para mim.
Olho para o chão.
– Não faça isso, Adam.
– Por que não? Pode ter sido um erro de bêbado para você, e se foi isso, então... meu Deus, não posso discutir com você. Mas preciso que saiba que para mim não foi. Você significa mais para mim do que...
– Pare – eu falo baixinho e puxo a mão. – Por favor, não faça isso.
Então dou meia-volta e corro para a floresta escura, o capim arranha meus tornozelos, tropeço nos próprios pés e desejo poder correr sem parar até em casa, até Manchester.