Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 13 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 12

 

O croissant em escamas no meu prato tem um cheiro tão bom que me dá água na boca. Só que nos últimos dez minutos fomos cercados por mulheres de pele lisa no final da adolescência ou de vinte e poucos anos, com aquele tipo de short que tive coragem de usar pela última vez quando eu tinha nove anos de idade. Empurro meu prato com o indicador.

– Não vai querer? – pergunta William, com as bochechas cobertas de chocolate.

– Claro que eu quero. Quero dez desses.

William ergue as sobrancelhas como se jamais tivesse pensado em pedir dez, só que agora isso abria um leque inteiro de possibilidades. Peguei de novo o pain au chocolat e questionei por que me esforçava para me controlar. Mordi o pão.

– Por que você não sai e vai explorar por aí? – sugeri quando William acabou de comer o dele.

– Está bem. – Ele sacode os ombros e empurra a cadeira.

– Não vá muito longe.

Ele rola os olhos e Adam sai do château segurando uma xícara de café, vindo na nossa direção.

– Ah, mal posso esperar até ele entrar na adolescência – resmungo quando Adam senta.

– Ele é um bom menino. Tenho certeza de que não vai dar muito problema.

Sinto vontade de dizer, como pode saber?

– Você fez um trabalho incrível nesse lugar – comento.

Os olhos dele brilham de orgulho.

– Bem, demorou bastante para chegar a esse ponto.

– Eu sei. Você deve estar muito satisfeito com isso.

– É, estou.

Adam pega seu café e eu noto como seus dedos grossos e bronzeados estão diferentes do tempo em que ele trabalhava em escritório. Ele sempre teve mãos masculinas, mas as unhas eram naturalmente uniformes, a pele macia e fina. Agora estão mais morenas, com um tom de mel escuro, mais acentuado nas articulações.

– Alguém fez uma oferta para comprar isso aqui no mês passado.

– É mesmo? – pergunto, olhando para ele.

– Eu nunca venderia, mas foi muito lisonjeiro.

Olho para William, que pega pedrinhas e examina, como costumava fazer quando era bebê.

– Olha, sobre o fumo – diz Adam de repente –, não vou fazer isso na frente do William.

Sou pega meio de surpresa por essa concessão de um ponto de honra, mas não quero alongar o assunto.

– Está bem.

– Não vou parar, mas entendo por que você não quer que ele veja o pai fazendo isso.

– Obrigada.

– Mas acho que você superestima, e muito, a influência que eu possa ter sobre ele.

– Você pode se surpreender – falo baixinho, quando William se aproxima da mesa.

– Tem algum lugar que venda balas? – William pergunta para Adam.

– Você acabou de comer dois pains au chocolat! Nós vamos ao supermercado e podemos comprar lá. E bastante fruta. E então, o que você planejou para nós nas próximas semanas, Adam?

Ele fica imóvel no meio de um gole, abaixa lentamente a xícara com os olhos grudados no pires. É evidente que esse movimento lento serve para ganhar tempo enquanto pensa como vai responder.

– Bem, tem muita coisa para fazer aqui – ele acaba falando.

– Foi o que eu li. O que você organizou?

– Achei que era melhor esperar vocês chegarem para saber o que gostam de fazer.

Aperto os olhos cinicamente.

– É... muita consideração da sua parte.

Ele ignora o tom da minha voz e vira para William.

– Tem montes de coisas para você e sua mãe fazerem. Há caminhadas que posso mostrar, ou você pode fazer rafting. Se os dois se sentirem aventureiros, posso botá-los em contato com uma empresa que pode levá-los a escaladas nas rochas.

– Eu li os guias de turismo – digo para ele. – Só queria saber o que você quer fazer com o William.

– Eu?

– É.

A julgar pelo modo de ele endireitar as costas, percebi que acabara de entender seu erro.

– Certo. Bom, é alta estação, por isso é impossível tirar muito tempo de folga. Posso ter uma tarde ou outra, mas tenho de pensar na Simone.

O café para na minha garganta.

– Mas é claro que você é a minha prioridade enquanto estiver aqui, William – ele se apressa em dizer. – Vamos fazer uma coisa, que tal sairmos um dia para uma caminhada na garganta, ou para canoagem leve?

– Como é isso? Parece perigoso.

Infelizmente a capacidade de Adam para julgar o tipo de atividade adequada para um menino da idade do William é subdesenvolvida. No quinto aniversário do filho, ele comprou uma caixa enorme do Thomas the Tank com peças para montar, apesar de William ter demonstrado interesse pela última vez quando tinha três anos. Quando o menino fez oito anos, comprou para ele uma bicicleta que servia para um garoto de quinze, tão imensa que precisei de três tentativas e minha melhor pose arreganhada para conseguir passar a perna por cima do quadro.

– A canoagem não tem problema – disse ele tranquilamente, de um jeito que parecia ter problema.

– Mas como é?

– Um pouco escalando pedras, saltando em poços, descendo cachoeiras. É ótimo. Tenho um amigo que pode nos levar.

Um suor frio brota nas minhas costas.

– Que tal ficarmos com alguma coisa do tipo... um passeio de bicicleta? – sugiro. – Ou há pedalinhos em algum lugar?

– Eu faço a canoagem – resolve William.

Fecho minha boca.

– Hum... ok – viro para Adam. – Vamos ter que conversar sobre algumas coisas antes de você levá-lo para qualquer lugar. As alergias dele, por exemplo. E ele tem fobia de vespas.

– Não tenho não!

– Você ficava histérico quase toda vez que uma chegava perto no último verão.

– Isso foi no verão passado. Quando eu tinha só nove anos – diz William, como se fosse décadas atrás.

Viro para Adam e vejo que seus olhos escuros desviaram languidamente para o outro lado da piscina, para uma mulher elegante com short de tênis e um chapéu chique de abas largas. Ela deve ter uns cinquenta anos, mas exibe o corpo rijo e magro de alguém que se mantém com níveis religiosos de comprometimento.

Olho de novo para ele e Adam percebe que estou encarando.

– Desculpe... achei que tinha reconhecido alguém. O que foi?

– Nada – digo eu, pensando como fui me envolver com alguém como Adam, especialmente sem poder afirmar que não tinha sido avisada.