Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 53
O som de um galo cantando arranha meus ouvidos e acordo de um pulo, levantando a cabeça do peito de Adam. Olho em volta do quarto cheio de luz, examino o ambiente, as venezianas que deixamos abertas, partículas de poeira refletindo o sol, as roupas jogadas no chão, como provas numa cena de crime.
Viro para Adam e meu estômago dá cambalhotas com a visão dos lábios dele entreabertos, o pescoço e a pele dos ombros descoberta.
Então minha cabeça explode.
Há tanta coisa errada ali que minha cabeça lateja com a insanidade do que aconteceu aquela noite.
William está no topo da lista. E ele estava bem ali, no outro lado da cabana, quando isso aconteceu! Sei que dormia profundamente e que pais e mães em todo o mundo fazem sexo na mesma casa em que os filhos dormem, mas não quando os pais em questão tinham se separado há uma década.
Ele teve a vida inteira para registrar o fato de que Adam e eu não estávamos mais juntos e que nunca mais estaremos, portanto nem é preciso adivinhar o que isso vai representar na pobre cabecinha de pré-adolescente.
Não ficará apenas confuso, será pior. Ele terá esperança. Terá a terrível e equivocada impressão de que isso pode significar alguma coisa.
Eu não seria capaz de tranquilizá-lo com uma explicação viável, porque não existe uma, além de ter sido um erro provocado pela embriaguez. Ele vai tirar conclusões que não existem. Eu não tive muitas aventuras sexuais na minha vida. A coisa mais promíscua que fiz foi imaginar que acariciava o cabelo de Jamie Dornan quando estava na cama com Toby.
Minha única opção seria olhar nos olhos de William e dizer que aquilo era o que era mesmo: transa de uma noite só, com o pai dele.
E isso me leva à outra parte do mau gosto desse caso infeliz: o fato de que eu sou a outra. Eu. Passei tanto tempo me sentindo traída que o choque de me odiar pelo que tinha feito com Simone é como um soco no estômago. Não importa se mal a conheço, nem se ela é apenas o último fogo de palha de Adam. Nesse momento, ele é o homem dela.
E sim, houve dezenas iguais a ela, antes da próxima chutá-las do pedestal. Mas eu não quero ser a próxima. Como diabos eu me tornei a próxima?
Essa ideia faz com que eu pule da cama como se os lençóis estivessem pegando fogo. Adam se mexe. Faço uma careta e olho feio para ele quando muda de posição ainda de olhos fechados.
Abaixo sem fazer barulho e pego minha blusa, desço da cama e começo a andar pelo quarto, recolhendo minha roupa. Então me visto com o coração aos pulos, rezando para não abrir a porta e encontrar William zanzando por ali à procura de uma tomada para carregar o iPad.
Estou quase pronta, sento na beirada da cama e calço a sandália. Pego o outro pé, uma mão agarra meu pulso e me assusto. Fico esperando Adam dizer algo irreverente, mas então vejo a expressão dele.
– Não se arrependa disso.
Na hora não sei o que dizer, por isso faço com que me largue e fico de pé. Então dou meia-volta e digo, zangada:
– Bem, Adam, eu me arrependo sim.
– Por quê?
– Será que tenho mesmo de explicar para você? E a Simone?
Ele faz aquela cara que dá raiva, de quase desprezo, como se aquela questão menor de ter uma namorada fosse irrelevante.
– Jess... não tem comparação. O que você e eu tivemos...
– Tivemos é a palavra-chave.
Uma batida na porta cala nós dois.
– Ele jamais pode saber disso – sussurro.
Adam engole em seco.
– Não. Quero dizer, sim. Você deve estar certa.
Angustiada, sento de novo na cama e começo a roer as unhas, prestando atenção em qualquer movimento do outro lado da porta.
– Merda, e se ele estiver acordado?
– Aquilo foi a porta do banheiro. Às vezes bate se a janela está aberta. Tenho certeza de que ele ainda está dormindo essa hora.
Olho para o relógio. São 7h15, uma hora mais cedo do que ele tem acordado desde que chegamos aqui.
– Então eu vou embora.
– Suponho que um beijo de despedida esteja fora de questão, não é?
Estalo a língua.
– O que você acha?
Vou para a porta, abro um pouco e espio. O caminho está livre.
– Não esqueça, nenhuma palavra.
– Sim, está bem.
As tábuas do assoalho estalam com cada passo, mesmo quando fico na ponta dos pés, encostada na parede, me esgueirando como uma imitação barata de um ladrão muito ágil desviando dos lasers no Louvre.
Passo pelo banheiro sem fazer barulho e finalmente chego à porta da frente, com o coração na boca. Minha mão está quase na maçaneta... quando a porcaria do galo canta de novo e eu quase pulo de susto.
– Mamãe?
Olho para ele e me dou conta de que se não soltar o ar posso desabar.
– William! Você dormiu bem? Eu quis vir cedo para pegar você. Acordou agora?
– Não, aquele galo me acordou há séculos. Estava assistindo Guardiões da Galáxia. Então ouvi você e achei que papai devia estar acordado.
– Humm... não, ele ainda deve estar dormindo. Eu acabei de chegar, por isso nem sei ao certo.
– Você acabou de chegar?
– Sim!
– Como entrou aqui?
– Eu... abri a fechadura.
Vai saber por que escolhi essa explicação em vez de alguma coisa mais simples como “a porta estava destrancada”...
Ele arregala os olhos exageradamente.
– Você sabe abrir fechaduras?
– Hum... É que estava meio aberta. A verdade é que estava aberta. Rá!
William esfrega os olhos.
– E então, está pronto para ir? – pergunto.
– Ainda não me vesti.
– Bom, então vista-se rápido. Há muita coisa para fazer. Vamos, vapt-vupt.
Eu nunca falei “vapt-vupt” antes, em toda a minha vida.
Aí vejo a porta do quarto de Adam abrir e ele sair bocejando e espreguiçando, só de sunga Paul Smith. Fico rubra até a raiz dos cabelos. Ele sorri de orelha a orelha. Parece que acabou de ganhar na loteria.
– Bom dia, raio de sol – diz ele, despenteando o cabelo do filho e puxando-o para um abraço.
Mordo minha mão em pânico, achando que Adam deve cheirar a sexo.
– Dia espetacular, não é?
– Bom dia, papai. – William sorri para ele. – Você está de bom humor.
– Só estou contente de estar vivo, filho – diz Adam, olhando para mim.
Rolo os olhos nas órbitas.
– E aí – diz Adam –, que tal sanduíche de bacon no café da manhã?
– Nós temos de ir para a nossa cabana – vou logo dizendo.
Adam abre a boca para protestar, mas resolve não fazê-lo.
– Está certo. Mas pode passar a noite aqui sempre que quiser... vocês dois.
Ah, eu tenho vontade de estrangulá-lo.
– Você passou a noite aqui? – William vira para mim.
– É, mas no chão. – Adam sorri e evidentemente acha que está me fazendo um favor. – Espero que tenha ficado bem, Jess. Se tivesse avisado, eu teria posto lençóis melhores na cama de ar.
Adam precisa muito desistir de mentir. Ele é péssimo nisso.
– Você disse que tinha acabado de chegar aqui – diz William em tom de acusação.
– Vá se vestir.
William olha para nós dois.
– O que está acontecendo?
– Nada!
Adam e eu respondemos em uníssono.
William vai para o quarto se vestir enquanto eu espero do lado de fora, tamborilando na mesa totalmente incapaz ou sem disposição de conversar com Adam.
William e eu voltamos para a nossa cabana com a mesma roupa da noite anterior quando a névoa matinal dá lugar ao sol escaldante e famílias aparecem nas portas bem-dispostas, descansadas e prontas para o dia que começa.
E me dou conta de que devo ser a primeira mulher da história que faz a caminhada da vergonha junto com o filho de dez anos.