Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 35 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 34

 

 

E u sei que tive um pai que bebia demais, mas mesmo assim cresci me sentindo protegida e nunca fui infeliz. Adam não teve esse luxo, coisa que só descobri uns cinco meses depois de estarmos juntos.

Ele já havia me dito que nunca conheceu o pai e que a mãe tinha morrido num acidente de carro quando ele estava com nove anos de idade. Fora isso, os detalhes eram vagos e eu não insisti no assunto porque sua expressão ficava sombria de tristeza quando falávamos nisso.

Foi a tia dele, Julie, que preencheu as lacunas, depois de nos convidar para um almoço de domingo. Julie não era sua tia de verdade. Era uma prima distante e mais velha, muito próxima da mãe dele, Lisa, e que cuidou de Adam depois que a mãe dele faleceu, apesar de ter três filhos, Mike e Daniel, gêmeos de doze anos, e Stephanie, um ano mais nova do que Adam.

Tia Julie era uma daquelas mulheres que não aparentava a idade. Quando a conheci ela devia ter cinquenta e poucos e, embora as rugas no rosto fizessem com que parecesse mais velha, tinha uma exuberância, um otimismo que fazia seus olhos brilharem.

– Aqui anda tudo muito quieto desde que você e Steph saíram de casa – ela disse para Adam, pondo uma travessa com rosbife e batatas na mesa em que Adam cortava um frango quente e brilhante.

A casa dela com varanda em Leeds era pequena, mas o fato de ser boa dona de casa sobressaía nos enfeites lustrosos sobre o aparador da lareira e no forte cheiro de pinho que subia do banheiro lá embaixo quando alguém apertava a descarga.

– Você lembra como era quando você veio para cá, Adam? Você, Mike e Danny no mesmo quarto. Um verdadeiro caos.

– Mas você fez com que eu me sentisse em casa – comentou Adam.

Ela derreteu visivelmente.

– Ah... obrigada, querido.

Depois Adam foi tomar uma cerveja com Danny no pub naquela rua mesmo e eu fiquei para ajudar a tirar a mesa, apesar dos protestos dela.

– Como era a mãe de Adam? – perguntei. – Ele quase não fala dela.

Ela mergulhou as mãos num pote com água quente e olhou para mim.

– Lisa era... incorrigível e adorável ao mesmo tempo. Tinha um péssimo gosto para homens e era doida de pedra. Mas era muito linda... por fora e por dentro.

Lisa tinha apenas dezessete anos quando teve Adam e, lendo nas entrelinhas, foi uma mãe amorosa, mas disfuncional. Passaram fome e frio muitas vezes e Adam sempre usava casacos com nomes de outras crianças bordados na gola. Ela não só deixava Adam matar aulas, mas incentivava, para poderem ir para o parque brincar ou se aconchegar no sofá para assistir à TV.

– Quando Adam estava com seis anos ela comprou uma van tipo trailer – continuou Julie. – Você devia ver aquela coisa. Era uma carroça enferrujada, Deus sabe onde ela arranjou. Lisa pegou Adam na escola um dia com apenas um mapa, algumas latas de comida e algumas poucas roupas, e lá foram eles numa droga de uma viagem pelas estradas da Inglaterra. Ficaram meses fora e se divertiram à beça.

Ela deu risada.

Ergui as sobrancelhas.

– Ninguém estranhou ele não estar na escola?

– Deviam, não é? Uma mulher com o filho de seis anos farreando no meio da Inglaterra, feito Thelma e Louise. Mas não. Eles só voltaram para casa quando a suspensão da van pifou e ela não teve dinheiro para mandar consertar.

Eu tinha visto algumas fotos de Lisa, por isso sabia que era atraente como Adam: maçãs do rosto marcadas, nariz reto, lábios cheios e olhos escuros e sonolentos.

– Ela se esforçou ao máximo para ser boa mãe – disse Julie, e não foi a primeira vez.

Então ela me contou sobre Warren, vendedor de seguro que Lisa tinha conhecido um ano depois da viagem com Adam pelas estradas inglesas.

– Lisa o admirava. Ele era um profissional com um bom emprego. No início, ele a tratou como uma princesa. Ela não parava de falar que ele cozinhava para ela, comprava presentes e não a soltava o tempo todo. Mas então ele ficou perverso.

– Violento?

Julie fez que sim com a cabeça.

– Eu percebi que alguma coisa estava acontecendo, mas ela decidiu não falar a respeito. Então Adam quebrou o braço e eles inventaram uma história, que ele tinha subido numa árvore... Eu sabia que era mentira. Disse para ela que eu ia à polícia, mas ela implorou para eu não ir. Para ser justa, devo dizer que Warren pelo menos não encostou mais a mão em Adam depois disso. Foi ela a vítima de toda a violência dele.

Mas os olhos de menino de Adam continuaram a ver coisas que ninguém devia ver.

– Ele se tornou um menino diferente por um tempo. Sempre foi amoroso e vaidoso, cheio de bom humor. Mas ficou amuado. Foi horrível. Eu ainda não consigo entender por que Lisa não mandou aquele homem pastar. Não havia desculpa. Quero dizer, você faria isso, não faria? Com um filho pequeno?

– Talvez ela tivesse medo dele.

– Tenho certeza de que tinha.

Lisa morreu num acidente de carro quando estava indo pegar Adam na escola. Uma testemunha disse que ela parecia sonhar acordada, que apareceu de repente e bateu de frente num 4x4.

– Lisa ficou no hospital, lutando por três semanas. E então chegou sua hora. Adam dormia numa cama de armar aqui naquela época. Da noite para o dia, o pobre menino ficou sem mãe e sem casa.

– Então você ficou com ele.

– Bem, não ia deixar que ele fosse para um orfanato de jeito nenhum, mas tive de lutar por isso. Não me arrependi um segundo sequer. Era a maior felicidade tê-lo por perto. Sinto muito orgulho dele, de tudo que fez na vida.

Adam foi bem na escola e conquistou vários certificados técnicos secundários muito bem avaliados antes de mudar para Edimburgo, para a universidade.

– Ele simplesmente não parou de trabalhar – disse ela. – Lavou pratos em um café no período de aulas e abdicava das férias de verão para trabalhar numa empresa de construção nas Ilhas Scilly.

Então eu me dei conta de que quando conheci Adam ele já tinha vivido meia dúzia de vidas.

– Ele mal fala sobre tudo isso – eu disse. – Só da viagem dos dois na van tipo trailer. Isso eu o ouvi comentar umas duas vezes.

Ela não pareceu surpresa.

– Acho que foi quando Adam esteve mais feliz. Quando Lisa o pegou na escola, botou sentado no banco do carona daquela coisa e lá foram eles balançando em sua aventura maluca. – Ela sorriu para mim. – Então eu soube que seria a primeira de uma vida cheia delas para Adam.