Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 41
U m dia depois da minha viagem para Pujols com Charlie, Adam aparece na cabana. – Acho que seu encontro foi bom, não foi?
Ele está com uma cara estranha e não consigo decidir se está interessado, se divertindo, ou simplesmente não quer perder a oportunidade de me provocar. Procuro parecer neutra.
– Foi bom. Sim, obrigada – digo, com ar de quem foi tomar o chá da tarde com a condessa de Grantham e não de alguém que teve um almoço inebriante que acabou num amasso no banco da frente de um Range Rover.
Ele olha fixo para mim.
– Ótimo. Fico contente.
Uma sensação indesejada começa a formigar na minha pele. Não era a deslealdade exatamente, isso seria ridículo, mas o sussurro de alguma coisa próxima disso. Mesmo que não estivéssemos separados há dez anos, sentiria vontade de estapear meu rosto para lembrar exatamente o que ele fez comigo e que não fazia muito tempo eu tinha topado com ele e a namorada em estado de seminudez.
– O que foi? – pergunto para ocupar o silêncio.
Ele torce os lábios como se tentasse disfarçar um sorriso.
– Nada. Por falar em primeiros encontros... acabei de lembrar do pub The Peartree.
O nome traz uma avalanche de lembranças à minha cabeça, de um tempo bem no começo do nosso relacionamento.
Era uma noite gostosa de julho e tínhamos ficado a tarde e grande parte da noite num beer garden de Edimburgo, sob uma luz dourada que aquecia nossos ombros.
Sentamos lado a lado num banco, tão perto que nossas coxas encostavam cada vez que nos mexíamos. Eu via a cabeça dele inclinada quando falava e sentia um calor estonteante quando ele ria.
Aprendi muita coisa sobre ele aquele dia: por onde tinha viajado, sua paixão pela leitura, construí a imagem de um homem que era boa praça com atendentes de bar, dava gorjetas generosas apesar de ter pouco dinheiro. Um homem que se esforçou para fazer amizade com o cão-guia do homem sentado à mesa ao lado e que não criou caso quando alguém derramou a bebida na calça jeans dele.
Apesar de ter enfrentado ansiedade na ida para o encontro, não me lembro de nenhum hiato na conversa. Conversar com ele parecia estranhamente fácil e natural. Quando o véu da escuridão da noite nos cobriu, senti a mão dele procurando a minha. Olhei para ele e me afoguei naqueles olhos, tive certeza de que estava me perdendo completamente por ele.
– Foi um bom primeiro encontro – concordei com o tom mais casual que consegui.
Ele sorriu.
Então nosso filho apareceu à porta e iniciou um monólogo sobre a barriga de Guilherme, O Conquistador, que explodiu no funeral dele.
Nos dias que se seguiram tudo que minha mãe sempre quis que acontecesse entre Adam e William começou a acontecer. Eles não conseguem mais ficar longe um do outro. Continuo procurando algum outro motivo, alguma lógica para Adam – que tinha sido, na melhor das hipóteses, ambivalente sobre suas responsabilidades, e, na pior, um pai ausente – não cansar de ficar com o filho o tempo todo.
E entendo que, tecnicamente, isso é bom. Não porque o fato de poder contar isso para mamãe possa dar a ela um ânimo tão necessário. Mas fico imaginando qual é a pegadinha. Será possível que Adam tenha finalmente se apaixonado por William, assim do nada? Será que ele está realmente notando que, apesar de ter estragado tudo entre nós, que mesmo assim conseguimos fazer aquele ser humano maravilhoso?
Minha única opção é calar qualquer ceticismo e ver o que acontece. Além do mais, não posso negar que é interessante ficar ouvindo as conversas dos dois. William fica atrás de Adam se oferecendo para ajudar, fingindo que saberia diferenciar uma ponta de uma chave de fenda da outra, enquanto faz discursos longuíssimos para o pai sobre tudo, desde a capacidade de um crocodilo de movimentar a língua até que os romanos da Antiguidade vomitavam durante as refeições para abrir lugar para a sobremesa. Dando crédito a Adam, ele consegue não entrar em coma.
Até ouvi dizer para Simone outro dia: “Espere até William contar para você sobre a série Deu a louca na história”, antes dela receber uma aula sobre mumificação egípcia.
Na manhã de terça-feira, William segue com Adam para cumprir uma série de afazeres em Bergerac, enquanto Natasha passa a manhã jogando golfe com Joshua... parece que se é bom para Catherine Zeta Jones, ela está disposta a experimentar. Tive de me controlar e não perguntar se ela preferia jogar golfe com Ben, porque acho que ela não ia querer admitir a resposta. E não há dúvida de que ela tem razão numa coisa, se está querendo se estabelecer, ou pelo menos ter um relacionamento mais sério, não é com o vinte e poucos recém-saído da universidade que vai acontecer. Por mais lindo que Ben possa ser.
Penso em ir até a cabana de Becky, mas antes junto coragem para bater na porta de Charlie. Só que na hora que finalmente tomo a decisão de fazer isso, o carro dele não está mais lá e ninguém abre a porta. Verifico que estamos sem pão e vou de carro para a aldeia mais próxima, Pravillac, que tem uma padaria pequena, mas com bom estoque.
A porta está aberta e assim que entro sinto o cheiro quente e doce de croissants e baguetes recém-saídos do forno enchendo o ar. Pego uma baguete, um jornal e vou para o corredor de vinhos.
– Meio cedo para isso, não é?
Os olhos cansados, mas belos, de Seb sorriem para mim, sob o cabelo louro despenteado, como se acabasse de levantar da cama, o que, dada a hora que as crianças acordam, duvido muito que seja o caso. Vejo Rufus atrás dele, examinando guloso as balas e os doces.
– Quando estamos de férias nunca parece cedo demais. Mas juro que estava apenas dando uma olhada.
– Acredito em você. – Ele dá risada. – Acho que falta muito para você acabar que nem o velho Richard Potter.
Levo um segundo para lembrar que ele está falando de um amigo dele e de Adam, da universidade.
– O que aconteceu com Richard Potter?
– Você não soube? Ele e Nicky se separaram há uns dois meses.
– É que não tenho contato com ele.
– Bem, ele reagiu mal, digamos assim.
– Ah, meu Deus. Sinto saber disso – respondo.
– Ele saiu um pouco da linha, como os homens fazem depois de uma separação. – Seb dá de ombros. – Bebendo demais. Indo para a cama com qualquer uma que o queira. Você sabe como é.
– Não são só os homens que perdem a linha – faço Seb lembrar.
– É verdade. Mas as mulheres costumam enfrentar melhor esse tipo de coisa, não acha? É o velho clichê... elas sabem como falar sobre isso, descobrir por que aconteceu e cantar “I Will Survive”. Os homens, por outro lado... fazem coisas estranhas. – Ele estremece. – Só de pensar, fico horrorizado.
– Ora, acho que você não tem com o que se preocupar.
Solto essa afirmação antes de ter tempo para pensar nela. Assim que a frase sai e fica pairando no ar entre nós dois, percebo que soa presunçosa e não exatamente precisa.
– Claro que não.
Ele aperta os maxilares e não consigo pensar em outra reação, por isso sorrio sem jeito.
– Mas as coisas andam... meio complicadas no momento – ele diz, preenchendo o silêncio.
– É claro que andam. Vocês têm três filhos. Eu sei que a vida não é fácil com tanto trabalho assim.
Ele olha ansiosamente para Rufus, para ver se não vai escutar aquilo. O filho mais novo está enchendo uma cestinha com tantas balas que mal consegue andar de tanto peso.
– A ideia de não ter Becky por perto me dá náuseas.
Fico sem saber como responder, preocupada de entrar numa seara que desconheço. Mas obedeço ao impulso imediato de perguntar.
– Por que diz isso, Seb? Não está preocupado, está?
– Não. Estou. Eu não sei. – Ele enche o peito antes de falar. – Só gostaria que as coisas estivessem funcionando agora. Tem sentido, isso?
Faço que sim com a cabeça.
– Tem.
– PAPAI? Podemos levar isso? Acho que é o que o Hulk bebe – diz Rufus, segurando uma garrafa de absinto 110%.
– Um minutinho, Ruf – diz Seb, e vira para mim de novo. – Não vai comentar isso com ela, vai?
– É claro que não – eu o tranquilizo enquanto ele leva o filho para perto de alguma coisa menos verde e menos tóxica.