Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 80 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 79

 

 

S omos recebidos por uma placa elegante onde se lê “Château La Pradoux”, e pelo perfume sensual de tomilho e glicínia.

Seguimos lentamente pela entrada de cascalho até dois portões altos de ferro, e o céu cor-de-rosa brilha através dos desenhos da filigrana. Atrás dos portões, o château se ergue na colina verde depois de um pátio gramado.

Adam desce do carro para abrir a porta para mim e dá a volta enquanto eu pego minha bolsa.

– Esse lugar não é o seu concorrente?

– É mais nossa inspiração. Mas aqui não tem crianças e eles têm uma estrela no Michelin. Por melhores que sejam os hambúrgueres do Ben quando ele comanda o churrasco, acho que ainda estamos longe disso aqui.

– Então por que viemos para cá?

– Achei que seria bom conversar sobre nós. Evidentemente temos muito que acertar e...

– Adam, não vamos fazer isso. Não quero mais falar sobre o assunto.

Ele relaxa os ombros.

– Ótimo, porque eu estava mentindo. Eu só queria um jantar especialíssimo na nossa última noite. E soube que eles fazem um lombo de cordeiro sensacional.

Ele oferece o braço. Eu me apoio nele e rio para mim mesma, pensando que parecemos saídos de Downton Abbey.

Um garçom cumprimenta Adam pelo nome e nos leva para dentro. Cada elemento da arquitetura renascentista foi magistral e luxuosamente preservado. Atravessamos o assoalho encerado de uma suntuosa recepção com vasos altos de cristal, com peônias azuladas e brotos de lírios. Subimos uma escada de pedra para um silencioso restaurante iluminado com velas, com apenas uns poucos comensais. Chegamos à porta do terraço e Adam segura minha mão, entrelaça os dedos nos meus.

Somos levados para uma mesa na beira do terraço, sobre os jardins bem cuidados e os vinhedos a perder de vista, lugar perfeito para admirar o sol se pondo atrás das colinas.

– Tenho de tirar o chapéu, Adam, você conhece os melhores lugares.

Ele se permite um pequeno sorriso e o garçom chega com a carta de vinhos. Observo Adam examinando com olhar intenso, então ele me pega espiando. O canto da boca dele sobe e eu desvio o olhar.

O cardápio é famoso pela ausência dos preços, sinal certeiro de que isso é fruto de uma segunda hipoteca. Adam traduz e me apraz deixá-lo escolher enquanto a luz do céu começa a diminuir e adquirir um tom de amora.

– Você está lindíssima – diz Adam e me pega de surpresa. – Desculpe, eu precisava falar.

Bebo um gole do vinho para disfarçar o calor que sinto no rosto e lembro que preciso agradecer à Natasha por ter insistido para eu usar o vestido amarelo.

A comida é sublime e, apesar de não bebermos muito, me sinto embriagada com a noite, com o ambiente, com as lembranças, por estar ali com ele. E aquela estranha e deliciosa sensação de segurança, ter a certeza de que posso contar com aquele homem no que diz respeito a William.

E damos ótimas risadas. Falando do vizinho que morava embaixo de nós em Manchester, que costumava botar as cuecas para secar penduradas do lado de fora da janela do quarto. Da noite que em que saímos e quando chegamos em casa ele tentou, romanticamente, me carregar no colo escada acima, só que fez minha cabeça bater no teto e quase tive uma concussão.

– Você lembra a primeira vez que eu disse que te amava? – ele pergunta.

Fico tensa com a pergunta, sem saber se suporto uma conversa que me faz lembrar que um dia fomos muito mais do que podemos ser agora.

– Foi depois da festa de Patrick Goldsmith – diz ele, e eu torço o guardanapo embaixo da mesa.

– É, eu lembro.

– Fomos pegos pela chuva indo para casa e tivemos de correr. Quando chegamos você estava com rímel escorrido até o queixo, cabelo grudado no rosto e seu nariz estava azul.

– Fico contente que se lembre dos melhores detalhes.

Ele dá risada.

– Eu me lembro sim. Porque lembro que mesmo assim achei você deslumbrante. E tive de falar. Que te amava.

Eu me encolho.

– Não precisa me fazer lembrar disso, Adam. Vou ficar bem, você sabe. Vou enfrentar tudo isso – digo para ele, porque se repetir isso bastante talvez acabe acreditando.

– Eu sei. Mas não era disso que eu estava falando.

Engulo em seco.

– Do que você estava falando?

Ele respira fundo e começa a dizer:

– De quando me ajoelhei seminu na cama e te pedi em casamento...

– Você estava nu mesmo – corrigi. – Não seminu. Nu.

– Não importa. Foi uma proposta medíocre. Mesmo na hora que fiz sabia que você merecia coisa melhor. Eu precisava dizer o que estava sentindo. E o que estou querendo dizer é que o fato de um dia você poder ter a doença de Huntington não muda nada.

Emoção cresce em mim.

– Nada mesmo – ele continua. – Eu te amaria se você tivesse uma vida longa e saudável, ou mais curta e mais complicada. Você continuará sendo a mulher por quem me apaixonei anos atrás.

O sangue lateja na minha cabeça e então percebo que é Adam que está falando, de repente ele se ajoelha e o cara atrás de nós quase engasga com seu filet de rouget.

– Jess, quer se casar comigo?

Não consigo falar.

– Ah, esqueci uma coisa – ele diz, enfia a mão no bolso, tira e começa a apalpar os dois bolsos, com cara de espanto. O casal na mesa ao lado está enlevado. Até o pianista erra algumas notas.

– Ah, meu Deus, eu perdi! – ele resmunga.

Adam para como se lembrasse de alguma coisa e procura no bolso de cima da camisa. Sinto meu coração batendo com força no esterno.

– Botei aqui para não esquecer onde estava.

– Funcionou.

Brinco porque não consigo pensar em palavra nenhuma para dizer. Palavras de verdade. E aí ele mostra: um anel de brilhante, reluzindo à luz das velas. É maravilhoso. Procuro não olhar demais para ele porque sei que não posso me deixar levar por tudo aquilo por causa do anel... Mas só para registro, é incrível. Não estou falando de grande ou escandaloso, apenas belo, de platina, eu acho, com um solitário diamante lapidado na forma de uma amêndoa.

Mas não se trata do anel. É sobre o tremor da mão dele e o brilho em seus olhos castanhos. Não é nem sobre o fato de querer dizer sim. É sobre algo maior.

– Adam... não podemos fazer isso.

Nós dois percebemos, sem graça, que todo o restaurante está assistindo.

– Por que não se levanta?

Adam olha em volta constrangido e volta para a cadeira.

Ele parece arrasado.

Eu me odeio por fazer isso, mas também sei que não tenho escolha.