Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 68 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 67

 

 

N o dia seguinte, William e eu arrumamos uma mochila cheia de sanduíches, salgadinhos de frango, balas e chocolates para ir de carro ao vale do Vézère e fazer uma caminhada com um grupo. Ir com um guia oficial pareceu uma boa maneira de fazer exercício sem correr o risco de nos perdermos numa montanha por minha causa. William não fica muito animado, mas quando chegamos lá seu novo gosto por aventura logo o domina. E ele rapidamente se embrenha em cavernas úmidas e caminha por trilhas de pedra na montanha, com o canto dos pássaros enchendo nossos ouvidos e flores silvestres espiando atrás das pedras.

Paramos numa colina debruçados nos penhascos naquele calor úmido para reidratar e descansar as pernas. William acaba de comer uma maçã e me dá o caroço.

– Será que vou continuar a ser sua lata de lixo quando você tiver vinte e um anos?

Vasculho minha mochila à procura de um saco plástico.

– Melhor do que jogar o lixo por aí. – Ele dá um sorriso sonso.

Embrulho o resto da maçã e enfio na mochila.

– Estava pensando em ir assistir ao seu jogo de futebol hoje à noite.

A expressão dele não reflete satisfação diante da ideia.

– Aí eles vão pensar que preciso da mamãe para me defender.

– Tudo bem, então não vou falar nada. Se eu estivesse lá só para assistir, você sabe, com minha cara de durona... aposto que as coisas seriam diferentes.

Ele fica perturbado com a minha escolha de palavras.

– De qualquer modo, não sou nem tão bom assim no futebol.

– Ah, deixe disso. Você ficou ótimo nessas férias – digo, mas admito que é um pouco de exagero.

– Podemos mudar de assunto?

Acabo de comer meu chocolate e pego um lenço de papel para limpar as mãos.

– Tudo bem, para o quê?

Ele pensa um pouco.

– Que tal política?

E assim embarcamos em outra conversa que é muito igual a uma reportagem do Channel Four News, e me sinto despreparada para participar se não tiver uma boa recepção 4G e o Google para ajudar.

– Decidi o que quero ser quando crescer – ele conclui quando começamos a descer a montanha.

– Ah, é? O quê?

– Vou trabalhar em acampamentos de refugiados para ajudar as pessoas lá. Talvez seja médico.

Ponho o braço nos ombros dele.

– Isso me deixaria orgulhosa demais. Mas ficarei orgulhosa com qualquer coisa que você faça.

– É, claro. E pode nem acontecer. Posso até virar modelo, em vez disso.

Começo a tossir, ele olha para mim indignado e bato no peito como se um pedaço de maçã tivesse culpa.

– Certo.

– Papai diz que sou bonito – ele continua. – Ele disse que não era bonito como eu quando tinha a minha idade, por isso sei que poderia fazer isso.

Quando chegamos na nossa cabana mais ou menos uma hora depois, o primeiro instinto de William quando entramos é pegar o iPad. Tinha ficado longe do aparelho desde a nossa briga, talvez por não querer chamar atenção para a minha ameaça de seis décadas de proibição.

– Não entre nisso – digo para ele. – Vamos comer na casa da Becky essa noite, por isso você precisa de um banho antes de ir.

– Tudo bem, mamãe. Só um minuto.

Já vou reclamar, mas a porta abre e Natasha entra.

– Oi. Você saiu com Josh hoje?

Ela olha de lado para mim.

– Não. Estou evitando ele.

– Ah. Então desencantou dele?

Ela faz que sim com a cabeça, desanimada.

– Ele ticou todos os quadradinhos, menos o que dizia: “Não agir feito um babaca.”

– Sinto muito, Natasha.

– Não sinta – diz ela. – Ele vai para casa amanhã e Londres é suficientemente grande para eu nunca mais vê-lo. No fim das contas, ele era só mais um cara que se achava muito.

– Por que minhas orelhas estão queimando?

Adam estava na porta.

– Não é você. – Natasha dá risada. – Então, vou pegar meu suéter e ir para a cabana da Becky. Vocês vêm?

– William precisa tomar banho primeiro. Não é, William? – pergunto enfaticamente.

– É. Já estou indo – ele resmunga e não se mexe.

Natasha vai para o quarto pegar o suéter e percebo que Adam está olhando para mim.

– Becky mencionou que não posso ir hoje porque tenho de ir a um jantar de negócios em Montignac?

– Ela falou sim.

Olho para meu filho.

– William – digo através de dentes cerrados.

Ele não responde.

– WILLIAM!

– Só um minuto, mamãe.

Eu me considero uma pessoa sensata, mas isso é ridículo.

– Já dei um minuto. Aliás, já dei muito mais do que um minuto.

Vou lá, tiro o iPad da mão dele e desligo.

– Nãããããão! – ele berra e estende a mão feito Kate Winslet naquele bote nas últimas cenas de Titanic.

– Pedi para você pelo menos umas cinco vezes. Não estrague o dia ótimo que tivemos.

– Está bem! Agora eu perdi – ele resmunga.

William levanta e segue para o quarto.

– William. Espere um pouco. – A voz de Adam é definitivamente a voz de Adam, mas não posso dizer que reconheço.

William dá meia-volta.

– Não fale com sua mãe desse jeito.

O rosto do meu filho fica cheio de manchas vermelhas, os olhos paralisados de choque.

– Ninguém deveria ter de pedir para você fazer alguma coisa tantas vezes – continua Adam.

Há um tom de desconforto na voz dele, como se não tivesse certeza de que o que está fazendo é o certo.

– Como se sentiria se nós fizéssemos isso com você?

William levanta os ombros, tenso.

– Então não faça isso, está bom?

Uma cornucópia de emoções briga por espaço no rosto de William: primeiro desafio, constrangimento, depois mortificação e arrependimento.

– Desculpe, mamãe.

Faço que sim com a cabeça.

– Tudo bem. Agora vá para aquele chuveiro. Obrigada – digo para Adam quando William sai da sala.

Natasha toca no meu cotovelo antes de Adam responder.

– Nos vemos lá. Vocês vão demorar?

– Dez minutos.

Natasha sai, fecha a porta e então noto que Adam está agitado.

– Podemos ir lá fora um minuto?

– Claro.

Lá fora o sol já está baixo no horizonte e reflete um brilho dourado nas flores silvestres no campo ao longe. Adam senta primeiro e escolho uma cadeira afastada dele de propósito, pelo simples motivo de que estar perto dele esses dias é delicioso e insuportável demais.

– Andei pensando muito sobre o futuro desse lugar e ainda não quero prometer nada para o William porque ainda não encaixotei tudo... Além do mais, ainda teria de fazer muita coisa para isso acontecer...

– Adam, o que está tentando dizer?

– Eu quero voltar e viver na Inglaterra.

Ele fixa os olhos escuros em mim, aguardando a minha reação. Mas estou atônita demais para responder, por isso ele continua:

– Acho que posso dar um jeito para isso acontecer. Não será de uma vez nem imediatamente, mas é uma solução.

Deixo as palavras fazerem sentido e minha cabeça borbulha com perguntas.

– E isso aqui? E o que você faria para viver?

Um riso contido escapa dos lábios dele, como se não precisasse ser lembrado desses problemas monumentais.

– Eu mencionei que tinha alguém interessado há algum tempo em comprar essa propriedade, mas eu sempre disse que não vendia. O negócio é um sucesso, mas ainda tenho dívidas depois de todo esse trabalho de anos, e agora devia ser a hora de eu começar a ter retorno do dinheiro investido... – Ele deixa a frase incompleta. – A questão é que comecei a analisar seriamente e os números estão nivelados. Praticamente. Ou quase. E mesmo que não estivessem, não tem importância, porque pelo menos, se conseguisse um emprego em Manchester de novo, estaria perto do William e poderia ajudar você. Fazer isso juntos. Ser pai, quero dizer.

Os pensamentos começam a colidir no meu cérebro, mas não consigo transformá-los em palavras.

– Não estou dizendo que espero qualquer coisa de você, Jess – ele continua, olhando para o chão. – Eu respeito o que você disse, que não quer se envolver de novo comigo... pelo menos naquele nível. – Então ele levanta a cabeça e tem a certeza estampada no rosto. – Mas eu quero estar na vida do William. Quero frequentar as reuniões de pais e levá-lo aos clubes da escola. E vou fazer tudo que puder para que isso aconteça.

Percebo que isso um dia já pareceu impossível.

Quando cheguei à França estava sempre irritada com Adam, cobrando que ele fosse um pai melhor, sem jamais acreditar que ele conseguiria. Eu quis fazer o que mamãe tinha pedido simplesmente para poder dizer a ela que fiz o que queria. Estava fazendo tudo aquilo convencida de que ele ia fracassar. Só que ele não fracassou. Ele superou as expectativas. Mas ainda não tem ideia de que está encarando muito mais do que reuniões de pais e clubes da escola.