Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 11
A dam volta para o escritório para dar um telefonema quando chega uma menina de maiô amarelo e chapéu combinando, segurando a mão do pai e carregando vários baldinhos e pazinhas.
Procuro na bolsa um protetor solar e, quando levanto a cabeça, noto que a adolescente hospedada na cabana na frente da nossa está na mesa vizinha. De óculos escuros, camiseta preta e calça jeans cortada que cobre as coxas finas e pálidas. Está entretida com A metamorfose, de Kafka, que nunca achei que fosse leitura para férias. Ela ergue a cabeça e me vê espiando.
– Oi. – Sorrio, mas ela franze o nariz desconfiada. – Excelente livro. Está gostando?
– Acho que é supervalorizado.
– Ah, é?
– Preferi O processo. É mais engraçado. Sinceramente, sou mais fã do existencialismo.
Ela não espera resposta e volta a enfiar a cara no livro. Abro o filtro solar e então ela olha para mim de novo.
– Vocês estão na cabana em frente à minha nos Estábulos, não é?
– Isso mesmo. Chegamos ontem – digo.
– Nós também. Ainda faltam mais treze dias – ela suspira teatralmente.
– De onde vocês são?
– De Devon. Pelo menos eu sou. Vivo lá com a minha mãe. Papai é de Cheshire.
– Ah, perto de nós. Somos de Manchester.
Por um instante tenho a impressão de que ela vai voltar para o livro, mas ela levanta a cabeça de novo.
– Já ouviu falar de Hampson Browne?
– Não são advogados?
A firma tem um anúncio que é exibido entre os noticiários da TV local.
– Sim. É a firma do meu pai.
– Ele trabalha lá?
– Ele é o Hampson.
Se ela tem orgulho disso, não demonstra.
Meu telefone toca, peço licença, vejo que é o número da Becky e atendo.
– Oi, desconhecida. Como estão as coisas? – pergunto.
– Bem, são dez e meia da manhã e estou contemplando abrir o Sauvignon Blanc, se isso responde à sua pergunta. Mas, mais importante do que isso, como você está?
Isso costumava ser uma pergunta bem direta. Mas levo um segundo para localizar o tom animado na minha voz.
– Estou bem.
– Mesmo?
– Sim, o tempo está ótimo aqui. Faz sol, mas não está quente demais. E tem atividades para as crianças. Um campo de futsal e um parquinho, além disso a piscina é ótima...
Duas vozes agudas explodem no meu aparelho. Reconheço imediatamente os dois filhos mais velhos de Becky, James, de sete anos e Rufus, de cinco.
– MENINOS, PAREM DE BRIGAR! – berra Becky. – MENIIIIINOS!
Isso seguido pelo barulho de passos, portas batendo e silêncio. Quando finalmente ela volta, está ofegante.
– Desculpe.
– Você trancou seus filhos no armário?
– Não, eu é que me tranquei em um, isto é, no armário de sapatos.
Comecei a rir e ela também.
– Estava apenas improvisando, mas esse é um bom escritório. Meio fedido, admito, mas pelo menos consigo ouvir o que você fala. E Poppy gosta porque acha que estamos brincando de esconder.
Poppy é a filha de Becky, de dois anos e meio.
– Olha – continua ela. – Só liguei para perguntar se as cabanas têm secador de cabelo. Ou se preciso botar um na mala.
– A nossa tem dois. Tenho certeza de que na sua será assim também.
– Ótimo. E como vão as coisas com o Adam?
– Ah. Tudo bem.
– Ele continua irritantemente em forma? – ela pergunta.
– Ah, pelo amor de Deus.
– Desculpe. Então ele continua bonitão?
Resmungo e olho para William, esperando que ele não tenha ouvido.
– Você terá de julgar pessoalmente.
– Bem, perdoo tudo dele se conseguirmos ter um minuto de paz nessas férias. Ah... não.
– O que foi?
Ela suspira.
– Os meninos derrubaram uma garrafa com dois litros de leite, o limpador de janelas está na porta e Poppy fez cocô. A diversão não para aqui.