Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 5
D egraus de pedra nos levaram até a pesada porta dupla e um saguão de recepção de pedra moldada pelo tempo. Nós nos aproximamos de uma mesa comprida que parecia muito antiga, sobre a qual descansa um pote de vidro com flores brancas bem altas e muito perfumadas, e um mata-borrão branco. A cadeira atrás da mesa está vazia, por isso William segue a deixa e toca a campainha de prata algumas vezes.
Somos saudados por uma jovem de saia preta curta, blusa branca meio transparente e sapatilhas de balé. Tem a pele hidratada e brilhante, dentes cintilantes e cabelo louro, comprido, preso para trás como o rabo de um cavalinho adestrado.
– Posso ajudá-los?
Ela é inglesa, tem a voz alta e segura, que sugere privilégio e boa formação. Eu a poria na metade da casa dos vinte. Não é muito magra, mas também nada nela balança, exceto as partes que devem balançar. E balançam bastante.
– Temos reserva em uma das cabanas. O nome é Pendleton. Jessica.
A expressão dela se abre em um sorriso que esperaríamos de alguém que recebe a notícia de que ovos de Páscoa não têm caloria nenhuma.
– Jess! Sou Simone.
Ela larga a caneta, dá a volta na mesa e me abraça. Acho aquilo um tratamento e tanto de atendimento ao cliente, especialmente porque consegui essas férias de graça.
– E você deve ser o William!
William troca o apoio do pé e não sai do lugar.
– Sou.
Ela continua com o sorriso de orelha a orelha.
– Você realmente é muito parecido com seu pai.
William parece satisfeito.
– Ah.
– Sinceramente, vocês são iguaizinhos. Lindos demais.
Agora as bochechas de William ficam rubras.
– Bom, estou felicíssima de conhecer vocês dois. E William, tenho certeza de que vou conhecer você melhor, porque consegui persuadir Adam a começar a promover atividades para crianças esse verão, e sou eu que vou organizar tudo.
William dá mais um largo sorriso. Na verdade, daria para botar um lápis nas covinhas dele e ficaria lá sem cair.
– Se você gosta de futebol, está no lugar certo. Quer que eu ponha seu nome na lista?
William é a única criança na turma dele, e provavelmente em todos os oitenta e nove anos de história da escola, que não se interessa, nem vagamente, pelo jogo. O mais próximo que ele já chegou de alguma conquista esportiva foi participar da equipe escolar de bridge.
– Hum... sim – responde ele, e eu viro duas vezes para ele, incrédula.
– Você torce por qual time?
Ele engole em seco.
– Manchester.
– City ou United? – ela pergunta.
– Hum... os dois.
Ela dá uma risadinha e ele também. Simone volta para trás da mesa e clica no computador.
– Certo, vamos registrar vocês na sua cabana.
Por mais luxuoso que seja o château, fico feliz de não me hospedar nele, onde sei que Adam tem seu escritório. Proximidade perigosa.
– Tem uma terceira pessoa na reserva de vocês, certo?
– É minha amiga Natasha, mas ela só vai chegar daqui a uma semana, mais ou menos.
– Ah, sim, claro. Bom, os quartos estão arrumados. Posso levá-los para lá agora.
Ela desaparece numa sala para pegar a chave, depois pede que a sigamos lá para fora, de volta ao sol incandescente. Ela sobe num carrinho de golfe, e William e eu entramos no meu carro para irmos atrás dela.
– Bem, ela foi simpática, não foi? – comento.
– Foi, e tinha um perfume delicioso – William responde entusiasmado, e eu não consigo pensar em uma resposta apropriada.
A estrada serpenteia em volta do château em direção a uma bela piscina, rodeada de espreguiçadeiras amarelo girassol e para-sóis combinando. Há um punhado de famílias lá, bebês com maiôs listrados britânicos e crianças que parecem ter a mesma idade de William, brincando na parte funda da piscina.
Acima dessa piscina tem um bar em um terraço, com algumas mesas e cadeiras, sombreado por uma cobertura de madressilvas em plena e perfumada floração. Lá ao fundo consigo ver uma quadra de tênis, outra polivalente e um playground muito colorido, tudo rodeado de jardins bem cuidados e canteiros românticos de rosas híbridas e margaridas.
Avisto uma placa que indica o caminho para “Les Écuries”, os estábulos, enquanto sigo o carrinho de Simone para uma área de floresta. A temperatura cai à sombra das árvores e, depois de um breve percurso, chegamos a um estacionamento pequeno perto de um grupo de prédios de pedra com venezianas azul-claras e pátios individuais cheios de gerânios brancos arrumados em volta de um belo jardim interno descoberto.
– É maravilhoso – digo para Simone quando atravessamos o jardim interno de terra em direção à porta bem lá no final. – Quantas cabanas são?
– Vinte e uma. Algumas têm dois quartos, outras três. Mas nem todas ficam no bloco dos estábulos. O antigo dormitório dos empregados do outro lado do terreno também foi reformado – ela se inclina e cochicha. – Mas esses aqui são os melhores. E ficam a poucos minutos de caminhada do château, se vocês pegarem o caminho no meio da mata.
Ela enfia uma chave de ferro fundido numa pesada porta de madeira, para abrir. Lá dentro a cabana é simples e rústica, com piso claro de cerâmica pegando todo um plano sem paredes da sala e da cozinha. O que mais chama atenção é uma grande lareira antiga, e na frente dela há dois pequenos sofás azuis. Tem também uma mesa de jantar grande e uma cozinha funcional e bem-arrumada, com pia funda de cerâmica, panelas de ferro penduradas na parede e balcões feitos de placas grossas de carvalho. Os quartos são caiados e têm vigas e caibros do telhado à mostra, além de bonitas colchas estampadas e vasos de ágata.
– É um encanto. Obrigada – digo, enquanto William já está escolhendo seu quarto.
– Adam vai ficar contente de saber que vocês gostaram – ela comenta.
– Pois então... Onde ele está?
– Ah! Eu devia ter dito. Ele tinha um compromisso essa tarde – responde ela, vagamente. – Ele queria estar aqui quando vocês chegassem, mas foi inevitável.
Mordo minha bochecha sem educação nenhuma. Inevitável como sempre.