Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 30
Q uando uma noite muito estrelada nos cobre, bebemos vinho e trocamos lembranças com o riso de três crianças cansadas, mas felizes, soando no campo. São nove e meia e Poppy dorme profundamente de pijama em seu carrinho, confortável embaixo de um cobertor. Tecnicamente já passou da hora de dormir das outras crianças também, mas elas insistem em ficar acordadas até tarde e ninguém está a fim de impedi-las, mesmo se Seb e Becky tiverem de bancar os juízes de alguma rara discussão. Nós adultos estamos sentados à mesa com velas tremeluzentes de citronela, todos entupidos de comida e bebida e pela delícia pura de estarmos cercados de pessoas que amamos.
– Estamos bem depois do que eu aprontei ontem? – Adam se inclina para mim, levo um susto e olho para ele, depois para frente para não ver a luz das velas iluminando seu rosto e cintilando em seus olhos.
– Claro que estamos bem.
– Se significar alguma coisa... estou ouvindo tudo que você fala.
Esse pós-barba é novo. Ele costumava usar um Hermès que comprei para ele num Natal, mesmo anos depois da separação.
– Tudo bem, ótimo.
– E vou passar mais tempo com ele enquanto vocês estiverem aqui.
– Muito bom saber disso. Obrigada. – Penso em encerrar a conversa por aí, mas não consigo. – E então... quando?
Ele fica tenso como se eu o acusasse.
– Bom, tenho de ver minha agenda.
Sinto que perco o ânimo.
– Apenas faça o que puder, Adam. É tudo o que peço.
– Papai, quer jogar conosco?
William aparece perto de nós. Ele não pediu nem um minuto da atenção de Adam a noite toda. E também não teve nenhuma. Adam ficou o tempo todo conversando com Seb.
– Boa ideia. Que tal gin rummy? – Adam saca um baralho do bolso de trás.
– Estávamos pensando... quem sabe, críquete? – sugere William.
– Está escuro demais para críquete. Venha, sente aqui. James e Rufus, querem participar também?
Os meninos se aproximam, mais exaustos do que curiosos, e observam Adam dar cartas para todos nós.
– Então, é óbvio que vocês só podem jogar apostando dinheiro – diz Adam para eles. – Não serve de outro jeito.
E acontece que isso é uma perspectiva completamente diferente. Os três meninos de repente ficam muito interessados.
– E aí, William, a pergunta é: quanto você tem e quanto está disposto a apostar?
– Tenho alguns trocados que vovô me deu – ele diz, levantando para procurar.
Adam põe a mão no braço de William e empurra para baixo.
– Só dessa vez eu vou bancar você.
Ele pega um punhado de moedas.
Jogamos por centavos e, apesar daquele ar noturno gelar nossos ombros, uma parte de mim não quer que a noite termine, e isso significa alguma coisa, já que estou sendo derrotada repetidamente por um garoto de cinco anos.
Quando Rufus está comemorando sua segunda vitória, noto que alguém acende a luz na cabana de Charlie na frente da nossa.
– Acho que temos de fazer menos barulho – diz Natasha, apontando naquela direção.
– Silêncio, todo mundo – peço a eles.
Mas quando o jogo recomeça, ninguém faz o mínimo esforço para reduzir o barulho, inclusive Adam, que comemora uma vitória sobre os meninos com entusiasmo exagerado.
– Exibido – falo baixinho no ouvido dele, só um pouco alta e meio brincando.
Ele dá risada.
– Ah, que nada. Deixei que ganhassem cinco rodadas, eu precisava recuperar alguma dignidade.
– Detesto ser estraga-prazeres, mas nisso você fracassou.
– Só estou ajudando os meninos a crescerem como indivíduos bem resolvidos. Além disso, estou ficando sem grana.
A essa altura Charlie já está no pátio dele, iluminado por trás pela luz da janela, absorto em alguma coisa no seu celular. Ele levanta a cabeça e eu desvio o olhar, quando Natasha me cutuca.
– Vai lá dizer oi por mim.
De repente me sinto corajosa. Ou meio ébria.
– Com licença – digo meio encabulada, e empurro a cadeira.
Mas Adam já está distribuindo as cartas para mais uma rodada.
Caminho lentamente para a cabana, dou uma parada para combinar com minha encenação e então atravesso o terraço até onde Charlie está terminando sua ligação.
– Desculpe o barulho. Nós acordamos você e a Chloe? Vamos botar os meninos na cama daqui a pouco.
– Nada disso. Chloe ainda está acordada, lendo, e eu nunca durmo antes de uma da madrugada.
– Essa é a hora normal dos advogados? – pergunto.
– É hora normal de quem tem insônia. Tenho coisa demais em que pensar.
O silêncio entre nós é estranho, mas não constrangedor. Ouvimos risos atrás de nós.
– Você quer vir beber alguma coisa conosco? – ofereço.
– Ah, eu não quero me intrometer. Vocês certamente têm muita coisa para atualizar.
– Bem, temos sim, mas não impede que alguém se junte a nós.
Ele não responde logo e me sinto boba de ter convidado. Então ele sorri.
– Está bem. Só um drinque. Vou avisar à Chloe que estou indo.