Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 33 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 32

 

A lguma coisa no olhar de Charlie a noite passada me fez lembrar da sensação de ser desejada. Levitei para a cabana depois que nos despedimos, com a cabeça nas nuvens quando deitei só de calcinha. Dormi bem, como não fazia havia meses. Agora o sol entra pelas janelas e estou deitada de olhos fechados, pensando, tentando lembrar de como seria ter as mãos de um homem na pele outra vez.

Então alguém bate na janela.

Puxo a coberta até o pescoço, olho surpresa para o vidro, constatando que deixei as venezianas abertas. Enxergo a silhueta de alguém lá fora me espiando, com o sol radiante por trás, e então a figura se abaixa.

– Ah! – eu grito e levanto para fechar a janela.

Pego um robe, me atrapalho um pouco para vestir, desisto e resolvo me cobrir com uma camiseta e um jeans. Vou trôpega e grogue para a porta da frente.

Adam está lá, sem o menor sinal de ressaca.

– O que você está fazendo aqui?

– Bom dia pra você também.

Ele entra sem ser convidado.

– Por que estava espiando pela minha janela?

– Eu não estava “espiando”. Bati três vezes na porta e já ia desistir, mas aí vi as venezianas abertas e imaginei que já tivesse acordado.

– Esqueci de fechar ontem à noite, só isso.

– Bem, não pretendia invadir a sua privacidade – ele disse.

– Ótimo.

– Principalmente porque você estava muito satisfeita.

Cruzo os braços.

– O que você quer, Adam?

Ele respira fundo.

– Resolvi dar uma promoção temporária para Ben e deixá-lo no comando essa manhã. Por isso estou com a manhã livre para fazer alguma coisa com o William.

– Ah, bom, ele está dormindo, mas...

– ESTOU ACORDADO! – William entra na sala de pijama, esfregando os olhos.

– Oi, garotão – diz Adam, como se tivesse três anos. – Quer visitar um castelo hoje?

– Ele já viu um castelo comigo. Aliás, já viu alguns. Nesse ritmo, vai virar doutor em arquitetura medieval.

Adam não desanima.

– É, mas esse é bom demais.

– Seria ótimo – diz William entusiasmado. – Você vem também, mamãe?

Lembro da conversa que tive com Charlie na noite passada.

– Hum... está bem. Mas há alguma chance de vocês fazerem isso no sábado? Sem mim?

– Por quê? – pergunta William.

– Posso ter algum outro plano, só isso, e achei que vocês poderiam fazer um programa só de homens.

– Que plano você tem?

– É que... eu disse que daria uma ajuda para o Charlie.

– Charlie é aquele cara de ontem à noite? – pergunta William. – Ajudar em quê?

Sinto que fico vermelha.

– Nada... eu... ele está pensando em fazer uma daquelas aulas de ginástica que eu faço e eu ia explicar para ele como é.

– Ele quer que você mostre os exercícios para ele? – William pergunta.

– Não.

– Ah, isso é bom. Quem sabe você não se anima de novo.

Já vou reclamar, mas Adam fala primeiro.

– Arrumo alguma coisa para fazer amanhã também, se você quiser. Ainda tenho de ficar aqui, mas William pode me ajudar em algumas tarefas.

Por um segundo o clima fica meio constrangedor entre nós. Mas é bobagem. Adam não é exatamente tímido sobre seus interesses amorosos.

– Então hoje você vem conosco, mamãe? – repete William.

– Vamos precisar de alguma roupa de mergulho ou teremos cachoeiras?

– Nada disso – garante Adam. – Será apenas um programa tranquilo em família.

Abro a boca à menção daquela frase. Instintivamente sinto vontade de objetar. Nós não somos uma família. Somos dois fragmentos de um casal separado, unidos pela supercola do erro mais lindo que cometemos.

 

Deixamos Natasha fazendo planos para passar o dia com Joshua e vamos de carro para o Château de Beynac, que exibe seu austero esplendor no alto das rochas de calcário sobre o rio Dordogne. É uma imensa fortificação medieval, o máximo do teatro de guerra, com uma vasta ponte levadiça e muralhas com torres. Do lado de dentro, um labirinto de masmorras cavernosas se entremeia sob escadas secretas em espiral que exploramos. William fica cada minuto mais fascinado pela história sangrenta. Saímos para a luz do dia lá em cima e somos recompensados com uma vista panorâmica do vale, o azul cintilante do rio serpenteando entre árvores exuberantemente verdes.

– Ricardo Coração de Leão conseguiu conquistar esse castelo – Adam conta para William, apontando para o penhasco à frente. – Ele subiu até aqui.

William franze a testa desconfiado, procurando adivinhar se Adam está brincando.

– Não é possível.

– É verdade.

– Meu período favorito da história é o dos vikings – continua William. – Você sabia que para impedir que as roupas perdessem as cores eles mijavam nelas?

William continua sua associação histórica repugnante, disparando informação de arrepiar em Adam, inclusive o fato de que para endurecer uma espada era bom deixá-la na barriga de uma pessoa morta.

Sigo os dois dando a volta pelo lado de fora do castelo e a falação intermitente de William pontilha o ar quando eles abrem caminho no meio de montes de turistas.

– Venha logo, mamãe!

Ele chega à base de uma escada íngreme e começa a subir, com Adam logo atrás.

– Está bem! – Dou risada, seguro o corrimão e ponho o pé no primeiro degrau estreito, sentindo a queda da temperatura naquela pouca luz. Meu sangue começa a bombear à medida que vou subindo na superfície fria e desigual, e bem quando chego no topo perco o equilíbrio. Não sei bem como aconteceu. Só sei que num minuto estava tentando me concentrar nas palavras do meu instrutor de ginástica, “contraiam os glúteos!”, e no minuto seguinte despenco cinco ou seis degraus, com uma dor lancinante nas mãos e nos joelhos, e depois paro. Sinto uma mão no meu ombro e vejo a imagem embaçada do rosto de uma jovem ao lado do meu.

– Você está bem?

– Estou sim – consigo dizer enquanto viro de frente. – Mas obrigada.

– De nada. – Ela sorri, meio desconfiada. – Vá com calma.

Quando levanto, sinto a nuca formigar e um suor frio nas axilas. Olho para as mãos e vejo que uma delas está sangrando, além dos dois joelhos esfolados.

– Jess, você está bem? – pergunta Adam, que desce correndo para onde estou. – O que aconteceu?

Ele põe a mão nas minhas costas e eu olho séria para ele. Seus olhos castanhos estão a poucos centímetros dos meus, cheios de preocupação.

– Só caí, nada demais. Não foi nada. Nenhum osso quebrado – insisto e me afasto rapidamente, enquanto o calor persistente da palma da mão dele faz minha pele arrepiar.