Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 47 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 46

 

 

U m sol matinal luminoso entra pela janela do meu quarto. Estou deitada de costas em lençóis brancos macios, olhando fixamente para o teto, tendo passado a noite toda me convencendo de que William não podia ter descoberto qualquer coisa sobre a SH. E tentando interpretar o que tinha acontecido no depósito de lenha.

A única conclusão que tiro é a seguinte: preciso fingir que nada aconteceu. Porque nada aconteceu mesmo. Eu estou só... o que William chamaria de “surtando”. Toda vez que penso no jeito com que Adam olhou para mim e na reação que provocou em mim, aquilo não parece totalmente real. Parece mais uma sequência de algum sonho curioso.

Nós passamos quase toda a manhã na piscina juntas, e Natasha se oferece para preparar almoço para todos. Becky e Seb pararam de implicar um com o outro, mas percebo que, mesmo quando não estão brigando, a comunicação entre os dois é pouco mais do que funcional. Ela pergunta para ele onde estão as boias de braço, ele pergunta se ela levou Sudocrem. Eles falam de eczemas, treinamento de banheiro das crianças, uso de aparelhos eletrônicos e dentes de leite, mas nenhuma das coisas que costumavam fazer quando seus olhos brilhavam de desejo um pelo outro. E não conseguem relaxar de jeito nenhum. Em certo momento, levo James e Rufus para a piscina, para organizar um jogo de vôlei aquático, mas toda vez que olho para a beira da piscina um dos dois está tentando freneticamente aplacar Poppy, enquanto o outro manuseia uma bolsa de fraldas.

Eles são a melhor e a pior propaganda de maternidade e paternidade que sou capaz de imaginar.

Pegamos nossas coisas e voltamos para a cabana uma e meia da tarde, hora em que Natasha prometeu um banquete. Enquanto os outros atravessam o pátio empoeirado, Charlie surge na porta da cabana dele e acena para mim. Deixo minha toalha e bolsa de praia numa cadeira e vou até lá.

– Estavam na piscina? – ele pergunta.

– Estávamos, mas está cheia hoje. Todo mundo querendo aproveitar o sol depois de ontem.

– Olha, será que você e William querem caminhar mais tarde conosco, Chloe e eu?

– Seria ótimo. Tenho certeza de que ele vai querer.

– Nada de caminhada cansativa – diz ele. – Peguei um mapa de trilhas no château, e tem uma rota boa na beira do lago.

– Encontro marcado. – Uma onda de calor sobe pelo meu pescoço. – Bom, não é bem um encontro. Mas estaremos lá.

Ele dá risada e só desvia o olhar quando seu celular toca.

– Com licença, Jess.

Ele pega o celular no bolso para atender.

Charlie tem mãos bonitas, lisas e bronzeadas, ofuscadas por um relógio que mesmo alguém como eu, que só teve de melhor um Swatch, sabe reconhecer que é dos caros.

Fico lá parada sem jeito e sem saber se aquilo era uma despedida ou não.

– Nos vemos mais tarde? – mexo os lábios enquanto me afasto.

Ele cobre o celular com a mão.

– Umas quatro da tarde?

– Certo.

Charlie é simpático. Exatamente o que a médica receitou. Não é nenhum grande relacionamento que, dadas as circunstâncias, jogaria uma dúzia de pontos de interrogação complicados e dolorosos sobre o futuro. Mas é um cara inteligente e gentil que mora perto de mim. Então poderíamos ir a restaurantes juntos, ou ao cinema. Poderíamos nos divertir um pouco e talvez nos beijar sábado à noite. Seria muito gostoso. Nem posso enfatizar como essa ideia de prazer é atraente nesse momento. Tive meu quinhão de emoções fortes e adoraria alguma coisa tranquila assim.

Meus pensamentos se dispersam quando entro na cabana e ouço a voz aflita de Natasha.

– Olha, Becky, não estou implicando!

– Bem, parece que está. – Becky joga as bolsas na mesa.

– O que está acontecendo? – eu pergunto, mas já dá para ver que as duas estão quase brigando.

E nenhuma tem intenção de recuar.