Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 48 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 47

 

N atasha parece irritada demais e se esforça para se controlar. Ela respira fundo como ensinam nas aulas de ioga, o tipo de coisa que é fácil quando você está num estúdio tranquilo, mas nem tanto quando alguém quer te estrangular.

– Você queria saber por que o almoço atrasou – Natasha diz para Becky. – Eu estava só explicando que era porque a pequena churrasqueira que você e Seb pegaram emprestada aquela noite não estava lavada, por isso tive de fazer isso.

– Bem, eu sinto muito. – Becky parece não sentir nada. – Experimente cuidar de três crianças, duas das quais estão declarando a Terceira Guerra Mundial, uma das quais está com piriri e a outra que ficou acordada metade da noite na nossa cama porque está tendo pesadelos depois de assistir a Coraline.

Natasha franze a testa.

– Aí são quatro.

– O quê?

– São quatro crianças. Vocês só têm três filhos.

– Eu sei quantas drogas de filhos eu tenho!

Natasha cruza os braços.

– Becky, desculpe eu ter mencionado, sinceramente. Mas você perguntou.

– Só perguntei porque tenho um bebê aqui que começa a se comportar feito um gremlin que foi alimentado depois da meia-noite quando passa horas sem comer. Eu não esperava essa reação.

– Não tem reação nenhuma – Natasha diz gentilmente. – Eu só falei por falar mesmo.

Toco no braço de Becky.

– Está tudo bem?

Ela esfrega a testa.

– Então deixe que eu faço alguma coisa, já que você limpou a churrasqueira. O que tem para cozinhar?

– Você não precisa fazer mais nada – continua Natasha, olhando para mim. – Olha só, relaxe. Por favor. Sente aí que o almoço ficará pronto em dez minutos, só isso.

Becky meneia a cabeça e quase chora.

– Está bem. Desculpe – ela resmunga, dá meia-volta e vai lá para fora.

Natasha continua picando uma salada.

– Você está bem? – pergunto.

Ela faz que sim com a cabeça, depois olha em volta, angustiada.

– Becky tem sido um pesadelo ultimamente.

– Ela está estressada.

– Eu sei. Mas nem por isso o resto de nós devia levar bordoada o tempo todo. Nós também estamos de férias. Meu Deus, olha o que você está enfrentando.

– Procuro não olhar.

Ela morde o canto da boca.

– E você, como está, Jess?

Ergo as sobrancelhas.

– Quanto à saúde, estou perfeitamente bem. Pelo menos por enquanto. Mas fico paranoica toda vez que deixo um copo cair, ou que tropeço numa escada. Levei um tombo quando estava no Château de Beynac com Adam e William outro dia. Sempre acho que é o começo. E ver o estado da mamãe não ajuda nada.

– Coitada dela – Natasha se preocupa. – Coitada de você.

Eu não quero a simpatia de Natasha. Para dizer a verdade, detesto isso. Quando contei para ela e para Becky, logo depois que mamãe deu a notícia para mim tantos anos atrás, elas só queriam falar do problema da minha DH. Toda vez que saíamos para beber, para tomar café, elas ficavam assim, superpreocupadas e cheias de perguntas.

Eu sei que a intenção é boa, mas acabei detestando. É como se mamãe e eu de repente fôssemos definidas assim, tudo girava em torno da DH. Não era meu bebê. Nem meu relacionamento por um fio. Nem política, nem Família Soprano, nem as cores do novo esmalte de unha Chanel, nem as outras coisas sobre as quais costumávamos conversar.

Depois de uns dois meses fui direta com elas: não quero mais falar sobre isso, não toda vez que nos vemos. Continuo sendo eu, não uma daquelas “valentes” lutadoras vítimas de doenças sobre as quais lemos nos jornais, ainda mais porque não sou nada valente. Sou o oposto de valente. Por isso, chega. Por favor.

E apesar de tudo ter começado de novo, inevitavelmente, depois que recebi a notícia de que era gene positiva, acho que elas finalmente entenderam o recado.

– Olha, não leve o que Becky diz para o lado pessoal – tento acalmá-la.

Natasha endireita as costas.

– Ah, não estou fazendo isso. Quero dizer, sinto pena dela. Mas não estou preparada para ser saco de pancadas.

Pego uma faca para cortar uma baguete e toca uma notificação no celular dela.

– O wi-fi realmente resolveu ser bonzinho com você hoje.

Ela abre a mensagem e examina a tela.

– Joshua botou nossas fotos no Facebook. Acho que ele está curtindo.

Ela mostra uma foto deles brindando com taças de champanhe, outra com tacos de golfe.

– Como foi o golfe?

– Josh foi ótimo, mas acho que não é meu esporte. Levei tanto tempo no sexto buraco que acabamos desistindo e fomos para uma sessão de drinques.

– Então você... – Ergo as sobrancelhas.

– Fui para a cama com ele? Não, estou adiando. Não sei se ele serve para um relacionamento.

Olhei para o celular de novo e dei uma passada no perfil dele. Realmente desejei ter sido mais simpática com Josh. Estou começando a achar que me tornei mais crítica do que era antes. Mas as curtidas no Facebook dele, que incluem várias dançarinas e um site chamado “Chega de repressão aos homens brancos de classe média”, não ajudam.

Vou lá para fora e encontro Becky tentando invocar energia para ler O livro sem figuras para Poppy, enquanto Seb ensina para James e Rufus a arte do pula-pula.

– Você foi feito para isso. – Sorrio quando ele consegue três pulos antes de se esborrachar num canteiro de lavanda.

Sento ao lado de Becky e dou um pouco de pão para Poppy.

– Obigada, tia Jess. Boa menina.

– Olha só, tive uma ideia – digo para Becky. – Você e Seb saiam à noite, e eu fico cuidando das crianças.

Ela vira para mim e se derrete em uma expressão de gratidão e incredulidade.

– Ah, é por isso que te amo tanto, Jess.

– Então isso é um sim?

– Claro que não. Não vou deixar você com três crianças além de William, de jeito nenhum. Mas você é um anjo por oferecer.

– Becky, as crianças ficarão bem. Eu não perdi o jeito – protesto.

– Claro que não perdeu. Mas Poppy ia chorar a noite toda, James ia dizimar sua coleção de maquiagem e eu passaria a noite preocupada com o que você ia ter de enfrentar.

– Ora, nem precisa.

– Vou pensar – ela conclui, mas dá para ver que já decidiu que isso não vai acontecer. – Mas tem uma coisa que eu preciso fazer.

Ela olha para a porta e suspira.

– O que é?

– Ir lá me desculpar com a Natasha.