Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 16
O problema com Adam é o seguinte: é fácil se apaixonar por ele. Se você não o conhece realmente, quero dizer, se não o conhece bem, suas características terríveis são obscurecidas pelas boas, o fato de ele ser inteligente e engraçado, carismático e bonito. Ele tem a capacidade de fazer com que a gente sinta que é o centro do mundo dele – pelo menos por um tempo – e é assim que William está se sentindo essa tarde.
Mas me preocupa que ele fique magoado e decepcionado, atraído pelo que há de mais maravilhoso em Adam antes da sua jovem alma ser ferida pelo lado mais negligente e egoísta do pai. Conheci aquela versão de Adam em primeira mão, mesmo sem poder afirmar que tenha visto o fim do nosso relacionamento chegando, antes de ser tarde demais.
O primeiro conflito que encaramos foi quando o emprego que Adam tolerava no início se transformou em algo que ele desprezava intensamente.
Eu sabia que ele havia chegado a esse ponto porque ouvia sua chave na porta quando ele voltava do trabalho e eu perguntava, “como foi o seu dia?”, com a tensão apertando a minha garganta. Porque eu sabia que o dia dele envolvia estresse, política mesquinha da empresa e um vácuo de realização. O efeito disso deixava um gosto amargo na maior parte das nossas noites.
– Como posso explicar? – ele disse aparecendo na sala uma noite e caindo no sofá onde eu estava com meu laptop e a televisão ligada baixinho ao fundo. – O ponto alto do meu dia foi ganhar três vezes o Bingo de Besteira em uma reunião.
Pus o laptop na almofada perto de mim e passei o braço no pescoço dele, com um beijo rápido na sombra de barba das cinco horas.
– Lamento que seja tão ruim no momento.
– Não quero me queixar. Eu simplesmente detesto aquele lugar.
Não sei se o problema era apenas o fato de Adam estar preso num relacionamento ruim com uma empresa desalmada e uma “carreira” muito monótona. Ou se algumas pessoas não eram feitas para ficar limitadas à vida corporativa. Meu namorado, essencialmente sonhador e aventureiro, era uma dessas pessoas.
– Não vai demorar para meu curso acabar, então poderemos fazer todas as coisas das quais falamos – eu disse. – Mas quero que você saiba que sou muito grata, Adam.
– Grata por quê?
– Pelo fato de você ter me sustentado enquanto eu terminava os estudos. Porque eu sou o motivo de estarmos comendo feijão em lata toda noite. Porque a única contribuição que posso dar para esse apartamento são os centavos do meu financiamento estudantil.
– É, falando assim, você não é um bom partido, não é? – Ele sorriu.
– Ho, ho.
– Não me incomodo com nada disso, Jess. Não vai durar para sempre. Vamos dar outra olhada naquele site de empregos no exterior esta noite?
– Você sabe aproveitar, não é?
Ele se aproximou e afundou num beijo rápido e doce antes de se afastar.
– Ah, por falar nisso, você se importa se eu sair com a Georgina na quinta? Ela vai passar a noite na cidade.
Adam havia namorado Georgina alguns meses quando tinha apenas dezessete anos. Eles terminaram amigavelmente quando ele saiu de casa para ir para a universidade, mas mantiveram contato como bons amigos.
– Claro que não.
– Por que não vem conosco?
– Tenho muito trabalho, Adam. E estou quebrada.
– Eu pago. Ora, vamos, prefiro se você for também.
– Adam, não posso. Vá sozinho – insisti. – Tenha uma ótima noite e diga a ela que mando um beijo.
Não senti nenhum desconforto que muitas namoradas sentiriam com essa ideia de os dois fazerem um programa. Georgina podia ter sido uma velha chama, tecnicamente, mas eu sabia que não havia nada entre eles agora. Além disso, a primeira vez que a vi, lembro que não a considerei tão maravilhosa como eu imaginava, apesar das pernas compridas e seios voluptuosos. O rosto dela era forte em vez de bonito, com lábios grossos que ela fazia brilhar com batom rosa forte e pele de porcelana emoldurada por uma cortina de cabelo preto.
Ela era inteligente e falava como um trem de carga: rápido e alto demais, como se estivesse numa corrida permanente para chegar ao fim da frase. Eu gostei dela. Pelo menos até saber que havia passado a noite com Adam quando ele devia estar comigo no nascimento do nosso bebê. Mas estou me adiantando.
A questão é que eles sempre foram íntimos e eu aceitava isso muito bem. E prometi a mim mesma que um dia compensaria todos os sacrifícios que ele tinha feito por mim e que íamos fazer as viagens que ele desejava tanto.
Então aconteceu uma coisa que não fazia parte desse plano.
Eu engravidei.
É difícil saber como vamos nos sentir com uma gravidez não planejada, até ela acontecer. E a minha reação foi oposta à de Adam. Não era só que ele não estava preparado, que tinha uma vida para viver, o mundo para viajar e a cabeça cheia de ideias.
Ele jamais estaria preparado.
Isso ficou evidente não só pela expressão horrorizada que fez quando mostrei para ele o teste de gravidez, confirmando a notícia de que a náusea que eu vinha sentindo uns dias antes não podia ser atribuída a um frango xadrez esquisito, mas também pelo fato de que uma semana inteira depois, quando ele já tinha tido tempo suficiente para fazer a ficha cair, continuava horrorizado do mesmo jeito.
– Olha, eu sei que isso não é o que nenhum de nós tinha planejado, mas podemos fazer funcionar – argumentei, ouvindo minha voz subir algumas oitavas e vendo Adam sentado no sofá olhando fixo para um episódio de Fawlty Towers sem rir nem uma vez.
Eu estava com medo e não tinha ideia do que ia fazer.
Sabia que o momento era todo errado e que havia um milhão de motivos para pensar que aquilo ia ser um desastre.
Mas os dias foram passando e havia também uma leveza nas minhas veias, um rubor no rosto, uma vibração no pulso cada vez que eu pensava na ideia de que ia ser mãe. Não me sentia diferente só fisicamente. Alguma coisa já tinha mudado dentro de mim, e, mesmo se eu quisesse, não podia impedir meu coração de se elevar no peito toda vez que pensava nisso.
Adam não compartilhava esses sentimentos.
– Eu entendo por que você não queria que isso acontecesse. Mas aconteceu – continuei, desesperada para que ele dissesse alguma coisa. – Nós não podemos desfazer isso.
Ele levantou a cabeça lentamente, com os olhos vidrados.
– Bem... poderíamos sim.
Um jato de adrenalina percorreu meu corpo enquanto eu decodificava o que ele estava dizendo.
– Você quer dizer fazer um aborto?
– Jess... nesse estágio é só um comprimido. E assim todo esse problema estaria resolvido. Bastaria isso, uma visita a uma clínica e...
– E a linha no teste de gravidez desapareceria e poderíamos voltar a tudo como era antes – terminei a frase por ele.
Os olhos dele arderam desafiadores.
– Será que é tão horrível assim querer isso?
Eu saí da sala, mas ele pulou do sofá e me seguiu.
– Não faça com que me sinta um filho da puta, Jess, só por ter essa conversa.
Virei de frente para ele.
– Mas nós não estamos apenas tendo essa conversa, estamos? Você já resolveu e quer que eu me livre de um bebê que está crescendo dentro de mim nesse momento.
– Isso afeta a mim também, você sabe disso, Jess.
A indignação cresceu em meu estômago, mas não respondi.
– De qualquer maneira, pensei que você fosse a favor da livre escolha – resmungou ele.
– Escolha é a palavra-chave, Adam. E a minha escolha não podia ser mais clara. Eu não teria saído do meu caminho para conceber, mas o fato é que aconteceu. E... eu vou gerar esse bebê.
Nesse ponto eu estava gritando porque sabia que se parasse ia cair em prantos.
– Certo. Fim de papo, então – ele disse, irritado, antes de anunciar que ia sair para andar e clarear as ideias, algo que aparentemente durou três horas.
O que aconteceu depois disso não foi um começo ideal para a nossa contagem regressiva rumo à paternidade e maternidade. Nós implicamos um com o outro e brigamos semanas a fio. Eu nunca tinha vivido coisa parecida, nem com ele, nem com ninguém. Toda noite havia um confronto de algum tipo, variando de intensidade, toda noite meus sentimentos pelo homem por quem era apaixonada estavam sendo desbastados. A reação dele foi muito irracional, muito petulante.
Sim, eu sei que William não era William naquela época. Adam não podia pensar nele sendo qualquer outra coisa além da linha azul no teste de gravidez e do fim de todas as suas ambições. Mas, para mim, o meu bebê era um coração batendo dentro de mim. Eu o amei e amei a ideia dele, desde o momento em que soube que existia. Por isso não, sinto muito, eu não ia fazer um aborto. Não pelo Adam, nem por ninguém. Não poderia estar mais contente sabendo que o bebê, o útero e a decisão eram meus por um mero acaso da biologia.
Depois de quatro semanas ele disse que aceitava. Supus que não tivesse saída. Ele estava preso. E ficou bem claro que homens como Adam não gostam de se sentir presos.
Nos meses seguintes, ele passou a me culpar por tudo. Nem precisava falar, dava para ver em seus olhos. Além do mais, quando um casal se descuida dos contraceptivos, sempre parece que a culpa é da mulher. Tinha me recusado a tomar a pílula porque me provocava náuseas. Eu tinha feito com que confiássemos na camisinha. Camisinha que faltou numa noite de porre e por isso arriscamos.
Dava para ver claramente Adam perdendo o amor que sentia por mim. Era óbvio por causa da constante distração, do pavio curto que não era do feitio dele. Ele parou de voltar correndo para casa e de fazer do beijo sua prioridade máxima.
Em vez disso, estava mais próximo de uma mulher que passara a ser sua confidente.
– Para quem você está escrevendo mensagem? – perguntei uma noite, deitada no sofá assistindo ao box da coleção completa de Família Soprano com meus tornozelos inchados em cima do braço do sofá.
– Tem alguma importância?
– Só estava interessada – resmunguei e acrescentei. – Diga oi por mim.
Ele levantou a cabeça.
– O quê?
– Eu disse para dizer oi. Para Georgina.
Ele me ignorou e voltou para o celular, para ler outro texto. O que a mensagem dizia provocou o primeiro sorriso dele a noite inteira.
Georgina aparecia cada vez mais a trabalho e ele saía para encontrar com ela. Eu era relutantemente convidada, mas costumava recusar. Não aguentava ficar lá sentada com a barriga cada dia maior, bebendo água com gás e ouvindo os dois chorando de tanto rir de lembranças de coisas que “você tinha de estar lá” para entender.
A única pessoa para quem revelei meus medos foi Becky. Não podia contar para a minha mãe. Ela adorava Adam, e eu sabia que se dissesse alguma coisa arruinaria a animação dela de poder se tornar avó pela primeira vez.
Becky achou que eu não devia me preocupar.
– Ele está enfeitiçado por você. Só precisa de tempo para se adaptar à gravidez. Além disso, a fase de meias de seda e cinta-liga pode até estar suspensa, mas não quer dizer que Adam quer ir para a cama com a ex-namorada.
E ela estava completamente enganada.