Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 56
D epois da ligação pelo Skype, vou para a quadra de futebol e encontro Natasha cuidando de William e dos meninos. – Muito boa a sua ideia de ficarmos de babá das crianças – ela diz. – Estou adorando. E já pensei em atividades para essa tarde.
– Não precisamos pensar muito. Eles têm jogos aqui. É só jogar com eles.
– Eu consegui baixar uma cópia de Domar as crianças – continua ela. – Só dei uma espiada rápida, mas é bem útil. Você está bem? Parece distraída.
Concentro a atenção em William quando ele tenta driblar um menino alemão com a metade do tamanho dele, que parece que seria facilmente derrubado por um espirro forte. Meu filho não chega nem perto da bola, consegue tropeçar nos próprios pés, quase cai e acaba se equilibrando no último minuto.
– Aconteceu uma coisa ontem à noite.
Quanto menos gente souber, melhor, mas é contra as leis da amizade eu contar para Becky e não contar para Natasha.
– Uma coisa que não devia ter acontecido.
Ela pisca incrédula e diz:
– Você e Adam?
– Quem contou para você?
– Ninguém. Previ isso séculos atrás. Não falei nada, mas sabia que ia acontecer.
Não consigo decidir se o que sinto é incredulidade ou indignação. De qualquer forma, somos interrompidas.
– Olá, senhoras.
O sol faz brilhar as ondas suaves do cabelo de Simone. A pele lisa e firme também brilha, livre de maquiagem. Ela sorri diretamente para mim e meu rosto arde de calor.
– William está melhorando muito no futebol, Jess. Ele está progredindo bem rápido.
– Ah... muito gentil da sua parte dizer isso, Simone.
Sorrio sem jeito e fixo o olhar no meu filho, que se aproxima do gol. O espaço entre ele e o fundo da rede está completamente livre, mas mesmo assim ele consegue desviar a bola para escanteio.
– Ah, ele quase conseguiu! – exclama Simone.
Ansiedade borbulha dentro de mim e tento desesperadamente inventar alguma desculpa para sair dali. Natasha percebe e inicia uma conversa.
– Simone, nós estávamos falando de lugares para visitar amanhã. Você pode recomendar algum?
– Vocês já foram a La Roque Gageac? Lá tem um jardim botânico. Adam me levou lá para um piquenique muito romântico uma vez.
Ela fala bastante animada sobre pontos turísticos locais e também sobre infinitos gestos de devoção de Adam quando estavam lá. Enquanto isso eu me esforço para não morrer ali mesmo, de vergonha, de sensação de culpa, de arrependimento.
A única coisa positiva que se podia dizer sobre tudo isso era que estava claro que ela não sabia o que Adam e eu tínhamos aprontado na noite anterior. Qualquer suspeita que pudesse ter surgido durante o jogo de boules tinha se dissolvido por completo, e eu achei bizarro, porque a sensação é de que estou com uma placa luminosa enorme no peito piscando minha traição.
– Você não acha, Jess? Jess?
Percebo que Natasha perguntou alguma coisa.
– Hum... deve ser maravilhoso – respondo entusiasmada.
– Eu estava reclamando das larvas que havia nas latas de reciclagem que vi na rua essa manhã.
– Ah, desculpe. Estava viajando.
– Eu também ando assim ultimamente – continua Simone bem-humorada. – Não estou concentrada agora que sei que vou embora.
Olho rapidamente para ela e vejo seus olhos azuis me fitando intensamente, os lábios formando um meio sorriso.
– Você vai embora?
– Só no fim da temporada. Temos mantido segredo, mas já está planejado há algum tempo.
– Para onde você vai? – pergunto, tentando processar essa notícia.
Acho que seria um recorde se ela continuasse namorando Adam depois da temporada.
– Dar a volta ao mundo. Uma parte dele, pelo menos. Estou planejando tudo agora.
– Nossa. Você tem sorte. Isso é ótimo.
A adrenalina acelera no meu peito.
– Que países vai visitar?
– A primeira parada é no sudeste da Ásia. Adam conhece alguém com quem já trabalhou que vive na Tailândia e ele vai nos hospedar uma semana. Depois vamos para o Vietnã, que dizem que é lindo, só que vi um cardápio on-line com rato campestre assado semana passada. Não sei se vou curtir isso. – Ela dá risada.
Simone continua a falar e sinto que estão tirando o ar de dentro de mim quando entendo o que está dizendo e procuro registrar. Depois de um tempo é Natasha que faz a pergunta de um milhão de dólares.
– Desculpe, mas você disse que Adam vai com você?
– Sim! – Ela sorri de orelha a orelha, curtindo o momento.
Então arregala os olhos teatralmente.
– Meu Deus, Jess, desculpe! Ele devia querer contar para você pessoalmente, com William e tudo. Mas os dois não se veem muito em condições normais mesmo, não é? Nem vai fazer tanta diferença... podem se ver depois de um ano, em vez de a cada seis meses.
– Mas e esse hotel? – pergunta Natasha. – Quem vai administrar?
– Os Blanchard.
– O casal de quem ele comprou?
– Sim. É um arranjo temporário, mas eles conhecem o lugar até pelo avesso, Adam confia totalmente neles e os dois mal podem esperar para assumir o timão, já que o château está na família deles há muitas gerações. Adam vai manter contato quando estivermos viajando.
Minhas pernas ficam bambas.
– Desculpe, Jess. – Os olhos dela cintilam, a expressão é de felicidade. – Mas você ia saber mais cedo ou mais tarde. E nem deve estar surpresa. Se tem uma coisa que todos sabemos sobre Adam é que ele detesta ficar amarrado.