Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 33
D epois caminhamos pela grama da margem do rio, saindo da aldeia para o campo interminável onde passarinhos mergulham e dão voltas no ar sobre nossas cabeças e o sol castiga nossos ombros. Adam e William vão na frente com passos largos, e as pernas magras do meu filho saltitam para acompanhar o pai. Acabamos chegando a um poço de água mansa, com libélulas dançando na superfície e lírios cintilando à luz clara. Um ciclista passa por nós no caminho de pedrinhas e um casal incrivelmente charmoso faz piquenique na encosta.
Jogamos pedras na água tempo suficiente para William conseguir de três a quatro quicadas e para Adam fingir tristeza quando as dele afundam assim que batem na água.
Em seguida ele compra nosso almoço em um café movimentado em Beynac-et-Cazenac. Sentamos embaixo de um toldo vermelho cercado de comensais devorando saladas decoradas com tomates que parecem joias, queijo de cabra Cabécou fundido e morangos com sorvete de mimosa.
– Estou vendo que todo mundo está desprezando as moelas – observo para Adam.
– Vão se arrepender. O que você quer beber?
– Tudo bem, eu peço.
Viro para a garçonete, determinada a falar perfeitamente.
– L’eau, s’il vous plaît.
– Pardon? – responde ela.
– L’eau, s’il vous plaît. – Ela olha para Adam e faz cara de riso quando ele debocha.
– Eu disse, je voudrais de l’... Coca-Cola.
– Ah, oui !
Adam pede o resto e eu recosto na cadeira de mau humor. E nós três ficamos ali à sombra, o céu azul brilhante e os ruídos da aldeia antiga como eram há séculos.
– O que achou da minha equipe? – pergunta Adam.
– Ótima – digo eu. – Muito profissional. Gostei especialmente do Ben.
– Nosso galã da casa? Ele é ótimo, não é? Parece que gostou muito da Natasha.
– Acho que ela anda de caso com aquele comerciante de antiguidades, o Josh.
Dou uma espiada no meu livro-guia e quando levanto a cabeça de novo Adam está pegando um envelope de papel de cigarro e tabaco. Olho furiosa para ele. O olhar não funciona, então eu o chuto de leve por baixo da mesa.
– Ai!
E então ele entende o que há de errado.
– Ah, é, desculpe, eu esqueci. Mas William já é um menino grande, Jess. Tenho certeza de que tem sensibilidade suficiente para saber que alguns adultos fazem isso, sem ser levado a fazer a mesma coisa.
William olha para nós dois, Adam termina de enrolar o cigarro e acende. Dá uma longa tragada.
– Nunca, jamais faça isso – digo para William com firmeza. – Isso mata. E antes disso, seus pulmões ficam como dois feijões murchos e a boca vira um cinzeiro.
– Isso é verdade. – Adam sacode os ombros. – Boca de cinzeiro, esse sou eu.
Adam solta outra baforada.
– Então por que você fuma? – pergunta William.
Adam abaixa o cigarro.
– Sou viciado. Mas não é legal nem inteligente. Isso é verdade.
– Mas... você não pode tentar parar? Não quero que você morra.
Adam fica paralisado, mas logo um movimento no fundo dos olhos suaviza suas feições. Estende a mão para apagar o cigarro no cinzeiro em silêncio e uma garçonete chega com a nossa comida.
William dá uma mordida no seu croque-monsieur.
– Ainda bem que nasci no século XXI – ele diz sem mais nem menos. – Aquele castelo é sensacional, mas não gostaria de morar lá.
– Nem eu – comento. – Imagine não ter privada com descarga, aquecimento central ou...
– IPads – completa William.
– Acredite ou não, não existia iPad quando seu pai e eu tínhamos a sua idade.
– Eu sei – ele diz. – E as televisões eram em preto e branco, e...
– Quantos anos você acha que temos? – pergunto, atônita.
Ele dá risada.
– De qualquer forma, você disse que sempre teve tudo que quis quando era pequena.
– Isso é verdade – respondo.
William pensa um pouco.
– Como eram sua mãe e seu pai, papai?
Adam abaixa o garfo e a faca.
– Eram um pouco diferentes da sua avó e do seu avô.
E ele não está brincando.