Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 40 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 39

 

 

C harlie parece completamente à vontade ao volante do seu carro de luxo. Podia ter sido feito para alguém como ele – um profissional inteligente, seguro de si e nada preocupado com o fato de ser adulto. Que aceita a idade e as camisas Marks & Spencer que vêm com ela.

Pujols, a aldeia que Charlie escolheu para almoçar, fica a mais de uma hora do Château de Roussignol. A estrada é de subidas e descidas suaves e chegamos a uma paisagem de cartão-postal encarapitada tão alto na serra que parece que as nuvens foram rebaixadas. Seguimos por ruas estreitas e sinuosas de cabanas de pedra com venezianas velhas e rosas antigas se retorcendo em volta das portas. Encontramos um restaurante com vista para a pequena praça com prédios creme empoeirados.

Charlie puxa uma cadeira para mim e senta na minha frente.

O garçom aparece com os cardápios.

– O que desejam beber? – ele pergunta.

– Badoit, s’il vous plaît – eu digo, consciente de que Charlie está dirigindo.

Charlie fica surpreso.

– Mas você está de férias. E eu é que vou dirigir. Tome uma taça de qualquer coisa.

– Ah. Bem, se é assim...

Um pouco de vinho ajuda o encontro a evoluir. Não que tenha começado mal. Mas me faz relaxar um pouco, para apreciar as qualidades de Charlie: o fato de ser sério e inteligente, mas sem sombra de intimidação. Ou talvez ele apenas entenda o que é ter um filho da idade de William. Eu acabo confessando que perdi a calma logo antes de sair, e ele garante que já passou por isso.

– Esse tipo de batalha sobre coisas assim é normal na idade dele. Pelo menos ele não fica no iPad quinze horas por dia como algumas crianças. – Resolvo não corrigi-lo. – Além do mais, ninguém disse que criar filho é fácil, especialmente sozinha.

– Não tem sido tão difícil para mim – insisto. – Tive muita ajuda da minha mãe e do meu pai esses anos todos.

Ele acaba de mastigar e faz uma pergunta.

– Qual é o trato entre você e o pai de William? Vocês parecem bem próximos.

– Parecemos?

A pele embaixo das minhas orelhas fica vermelha.

– Sim, parecem. Pensei isso naquela noite em que fui lá beber um drinque.

Balanço a cabeça obstinadamente.

– Não somos próximos. Toleramos um ao outro pelo bem de William.

– Talvez seja apenas o fato de você estar aqui. A maioria das pessoas não sonharia em viajar de férias com seus ex. Sei que eu não faria isso.

– Vocês não se dão?

Fico contente de afastar a ênfase sobre mim e Adam.

– Não exatamente. Ela é lunática.

– Minha nossa.

– É sério. É a mulher mais manipuladora que eu conheço. Ela é absolutamente horrível.

Não sei bem o que falar a respeito e só consigo pensar em fazer uma piada.

– É fácil entender por que você casou com ela.

– Todos nós cometemos erros. Mas não vou incomodá-la com o dramalhão. Aliás... Por que estamos falando dos ex?

– Tenho certeza de que foi você que puxou o assunto. – Sorrio para ele.

– Não... fui eu? Bem, que tal isso então: podemos repetir isso antes do fim das férias?

Abaixo a faca e o garfo.

– Ainda nem terminamos de comer. Você pode cansar de mim quando chegarmos à sobremesa.

Ele olha bem nos meus olhos com uma intensidade quase indecente.

– Duvido muito.

 

O programa me deixa superleve, levitando. E não porque quando chegamos ao château três horas depois me sinto tremendamente excitada. Mas porque há um quê de muito inspirador em sentar diante de um homem que gosta de você. E ele não podia deixar mais claro que sente isso. Nem é questão de qualquer coisa que ele diga. É mais o jeito com que me olha, com uma insinuação de desejo que mexe comigo.

Só depois de andar até ao carro e viajar ao sol até chegar aos portões do Château de Roussignol que alguma coisa se torna óbvia, para nós dois. A oportunidade de um beijo já passou por nós, flutuou para longe sem ser notada, como as nuvens no alto da montanha. Percebo que ele está pensando a mesma coisa quando o carro desacelera e meu pescoço se incendeia quando acaba a conversa.

– Eu adorei essa tarde – ele diz agarrado ao volante e concentrado na estrada.

– Eu também.

– Quer que deixe você aqui ou lá na cabana?

– Qualquer lugar está bom. Preciso pegar William.

Ele para o carro, puxa o freio de mão e se vira para ficar de frente para mim. Uma ideia explode na minha cabeça: esse carro tem vidros escuros.

– Bom. Obrigada de novo. Você não precisava pagar o almoço, mas foi extremamente gentil e... – balbucio.

– Jess.

Ele desliza a mão pelo meu braço e o calor daquele toque me arrepia.

– Sim?

O sangue lateja nos meus ouvidos quando ele se inclina para mim e me beija. Quando seus lábios encostam nos meus percebo que não quero estragar isso de jeito nenhum. Quero ser calma e sedutora e quero que ele me ache tão atraente quanto parece pensar que eu sou.

Também descubro que estou pensando tanto nisso que corro o risco de babar em cima dele, então faço um esforço consciente de relaxar os ombros. De lembrar de curtir a sensação da boca dele contra a minha.

Estou me concentrando em tudo isso, quando percebo vagamente o tagarelar de vozes baixas em algum lugar. No início não dou importância, nem quando começam as risadas, o máximo que penso é que deve ter alguém curtindo um jogo animado de boules.

Então alguém bate na janela, Charlie e eu nos afastamos de um pulo, registramos uma dúzia de crianças emboladas para espiar dentro do carro.

– Pensei que não dava para ver através desses vidros – digo, chocada.

– São escurecidos só na parte de trás.

É então que ouço outra voz, de adulto. Vagamente familiar.

– Les enfants! Crianças! Saiam daí!

Simone se abaixa, ficamos olhos nos olhos através do vidro e levo um segundo para registrar a mudança na expressão dela quando percebe que sou eu ali. A cara dela não é bem de satisfação, mas de alívio.

Sei exatamente o que está por trás daquela expressão. Porque já passei por isso também.