Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 58 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 57

 

N ão consigo engolir essa notícia de que Adam vai escapar com Simone em uma viagem pelo mundo. O fato de ele ter recuperado a familiaridade com as estrias do lado interno das minhas coxas poucas horas atrás é só parte do problema.

Nas dezenas e mais dezenas de conversas que tivemos desde a nossa chegada aqui, sobre nosso filho, sobre ele, sobre onde comprar o melhor sorvete em Domme, ou como tirar a tampa de uma garrafa de cerveja sem abridor, parece que ele nem imaginou que valia a pena mencionar isso.

Mas o que está me incomodando mesmo é o seguinte: a razão de eu estar aqui não existe. Vou ter de voltar para a Inglaterra e revelar para mamãe que fracassei. Que Adam não mudou. Aliás, que nada mudou.

Estava me iludindo de pensar que ele tinha virado a página e que tinha se tornado de repente um pai dedicado ao filho que havia negligenciado anos. Mas pelo jeito ele não fez nada disso. Simplesmente passou algumas semanas divertidas conosco, fez com que William o idolatrasse e agora vai desaparecer da vida dele pela segunda vez. Só que agora William não é mais um bebê que não entende o que está acontecendo.

Dessa vez ele está com dez anos de idade e adora o pai. Além disso, William precisa dele, muito mais do que qualquer um dos dois pode imaginar.

A enormidade disso dilacera meu peito, e tenho de me afastar antes de Simone notar minha reação. Natasha percebe minha aflição e diz que vai ficar de olho em William enquanto eu vou fazer... sei lá o quê.

Nem sei o que é que vou fazer, só sei que vou com passos largos para o château e procuro o refúgio temporário do banheiro, longe de todos. Acabo saindo com a cabeça cheia de raiva e com uma necessidade premente de voltar para casa naquele instante.

A sensação não diminui quando William e eu retornamos para a cabana e o perfume doce de ervas e capim sob nossos pés não combina nada com meu estado de espírito.

– Eu evitei um gol, mamãe – ele conta, animado.

– É mesmo?

– SIM! – Ele ri. – Queria que você tivesse visto. Foi incrível!

– Que bom, querido – resmungo. – E você fez algum?

Ele fica sério.

– Bom, não... – ele lamenta, mas logo se lança numa explicação detalhada sobre fazer gol ser coisa supervalorizada.

– Tenho muito orgulho de você – eu digo e passo o braço no ombro dele. – Como foi que ficou tão bom nisso?

– Papai – William diz simplesmente. – Ele é um excelente professor.

Sinto os músculos das costas enrijecendo.

– Ele dribla bem demais, mamãe – ele continua. – Ele é bem forte, não é?

– Acho que é.

– E corre muito também.

– Corre? – murmuro, e uma visão em tecnicolor de Adam beijando meu pescoço explode na minha cabeça.

– Mamãe?

– Sim.

– Você está tendo brancos? Parece a Sra. Garrett da escola. Ela sempre tem brancos. Ela disse que isso acontece quando a gente passa dos cinquenta.

– Não estou tendo branco nenhum. E falta muito para eu chegar aos cinquenta. Dá para falar de outra coisa?

– Tudo bem, de quê?

– Qualquer coisa que queira.

Ele pensa um pouco e chegamos ao pequeno estacionamento atrás de Les Écuries.

– Que tal o período jurássico?

Charlie está prendendo uma prancha de surfe na capota do carro. Sei que não estamos exatamente juntos, mas o fato de eu ter transado com um terceiro – e não importa se esse terceiro é Adam – é tão constrangedor que mal consigo olhar para ele, que dirá reconhecer.

– Oi, Charlie – cumprimento sem jeito.

Ele olha para mim, acaba de prender uma fivela e vem falar comigo.

– Oi, tudo bem?

– Tudo, obrigada – respondo.

– Gostou do churrasco? Chloe disse que viu você chegando hoje de manhã.

Ele examina meu rosto como se buscasse uma explicação.

– Hum... é, nós passamos... sim.

Ele dá um sorriso tenso.

– Sim?

Meneio a cabeça.

– Nós... passamos a noite na casa do Adam.

Charlie fica um segundo tentando decodificar essa frase.

– William dormiu, então eu tive de dormir lá no quarto de hóspedes – minto.

De repente desejo ter atrasado o relógio para alguns dias atrás, quando eu tinha um romance de férias que talvez não levasse a nada além do fim desse verão, mas que poderia resultar em algumas idas ao cinema, ou a alguns bons restaurantes.

– Você quer sair para jantar outra vez? – balbucio.

No mesmo instante percebo que essa é uma débil tentativa de punir Adam, de provar para mim e para ele que a noite passada não significou nada. É uma jogada de adolescente, eu sei, mas agora é tudo que tenho.

Charlie fica visivelmente atônito.

– Mesmo?

– Sim.

– Eu tive a impressão de que havia alguma coisa entre você e... – Mas ele não termina a frase e olha para William. – Desculpe. – Ele sorri. – Eu adoraria.