Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 74
D epois fico deitada com a cabeça em seu peito e ele acaricia a linha do meu maxilar. Seu toque me faz estremecer. Adam fica estranhamente quieto.
– Está tudo bem?
– Sim – responde ele, depois se corrige. – Não.
Levanto a cabeça.
– Então diga o que é.
Ele se apoia num cotovelo e leva um tempo para falar.
– Você vai me dizer que se arrepende disso de novo?
Um sorriso agridoce se espalha pelos meus lábios.
– Não.
Elevo um pouco a cabeça e beijo a boca de Adam.
– Não, eu não me arrependo. Por que me arrependeria depois de dois orgasmos?
Estou sendo leviana de propósito, porque acho que nós não precisamos de mais dramas. Ele ri, mas não parece satisfeito.
– Você não precisa ficar todo prosa – digo eu, me esforçando mais.
– Por quê? Você esperava ter três?
Então ele olha sério para as próprias mãos.
– Olha, estou contente que tenha gozado duas vezes. Mas quero que seja mais do que isso.
Meus ombros relaxam.
– E foi, Adam. Definitivamente foi mais do que isso.
– Certo, então vou perguntar uma coisa.
Ele afasta minha mão e se ajoelha na minha frente, segurando um travesseiro estrategicamente para cobrir a virilha.
– Jess, eu amo você.
Meu coração quase para. O fato de me permitir acreditar naquelas palavras parece temeridade demais para um só dia.
– Adam, a questão é que...
– Não terminei. Eu quero casar com você.
Sinto meu maxilar despencar.
– Adam, acalme-se, pelo amor de Deus.
– Eu sei que deve parecer repentino – ele protesta –, mas realmente não é. Eu me apaixonei por você logo no início.
– Você nem me notou logo no início.
– Você está vendo pelo em ovo. O caso é o seguinte. Amo você. Amei você no primeiro segundo em que ficamos juntos, pense o que quiser, e passei dez anos tentando esquecê-la. Namorando mulheres que esperava serem parecidas com você e descobrindo em meses, semanas, que nenhuma delas chegava aos seus pés.
As emoções brigam por espaço na minha cabeça. Fico sem palavras.
– Entendo que essa proposta é a mais ridícula. Não tenho uma aliança, não preparei um discurso, não fiz a coisa direito. Mas tem uma coisa que vale muito, que é o fato de que estou falando sério. Cada palavra.
E parecia que ele não estava brincando.
– Você quer casar comigo, Jess? – ele repete. – Faço uma genuflexão se for preciso.
– Não precisa, Adam. Não com suas bolas aparecendo.
Ele dá uma risada que cessa quando começa a esfregar a testa.
– Você não respondeu.
A vontade de chorar aumenta e aperta minha garganta.
– É, não respondi. Tenho de contar uma coisa para você, Adam. Devia ter contado muito tempo atrás. Mas não contei para quase ninguém. Não tenho sido sincera com você sobre quem eu sou. Por que não poderia casar com você. E por que você nem ia querer mesmo.
Ele franze a testa, claramente confuso.
– Você tem alguém? Eu sei que você disse que não é o Charlie, mas tem outro homem?
Balanço a cabeça querendo muito que fosse tão simples. Que só tivesse de me preocupar com as pequenas distrações românticas e de relacionamentos que preocupam todas as outras pessoas.
Puxo o lençol para cobrir meus seios e sento, passando a mão no cabelo.
Não vou começar a chorar.
Não vou.
– Não se trata de mim e de você, Adam. É de você, de mim, tudo.
– Do que está falando?
– O que a mamãe tem é doença de Huntington.
Ele aperta os olhos e tenta entender por que estou falando disso agora.
– É uma doença no cérebro que afeta os nervos e é fatal. Não existe cura e não dá nem para desacelerar.
– Já ouvi falar. Não sei grande coisa a respeito, mas tenho uma ideia.
– Muito bem. – Respiro fundo para ganhar força, mas não funciona. – Bem, o que acontece é... que não é só o que essa doença fez com minha mãe, o fato de transformá-la nesse desastre de ser humano que não consegue pensar direito, não consegue comer direito, nem falar, nem...
Olho para cima procurando coragem para pronunciar as palavras que me assombraram durante tanto tempo.
– É uma doença hereditária. E eu tenho o gene defeituoso que provoca essa doença também.
Cerro os dentes e ganho um tempo antes de continuar.
– Significa que vou ficar exatamente igual à minha mãe, Adam. Isso vai fazer coisas terríveis comigo, física e mentalmente. E depois vai me matar.
Penso num segundo se aquela minha afirmação calma e resumida faria com que ele não entendesse o que quero dizer. Ele fica olhando para mim, ou através de mim, querendo compreender o que eu disse.
– E como tenho o gene mutante, há cinquenta por cento de chance de William ter também.
Recosto e deixo Adam absorver aquilo tudo, vendo a parte de baixo do rosto dele suavizar até entreabrir a boca. O olhar dele vai além do choque. Ainda não é raiva, nem medo, nem pena, mas há um quê de todas essas coisas. É uma incredulidade tão sufocante que ele nem respira.
– Tem um exame que podemos fazer para saber se vamos ter a doença – continuo. – Eu fiz, por isso sei que vou ter. William só poderá fazer quando completar dezoito anos.
– Mas pode estar errado, não é?
– Não está errado, Adam. O exame é definitivo. Eu vou ter a doença. Não posso escapar disso.
É evidente que sua cabeça está cheia de perguntas, e ele começa com uma.
– Então... você está doente... agora, quero dizer.
– Não. O especialista disse que não tenho os sintomas, mas sei, por experiência própria, que podemos nos convencer de que eles estão aí, se prestarmos bastante atenção. Toda vez que tropeço, acho que deve ser problema de coordenação motora. Toda vez que esqueço a lista de compras ou me aborreço com alguém, acho que chegou a minha hora. Mas minha médica diz que isso é apenas ansiedade.
– Certo.
Vejo a cabeça dele trabalhando, pensando como reagir. Aconteceu exatamente assim comigo quando mamãe contou sobre a doença dela. Ele quer encontrar uma solução. Mas logo vai reconhecer que esse problema específico não tem solução.
– Você diz que não tem cura, mas devem estar pesquisando alguma, não é? Os avanços na medicina acontecem o tempo todo, por isso você talvez nem chegue a esse estágio em que sua mãe está, não é?
É a única esperança que existe, sobre a qual leio toda hora. Mas a ciência que pode acabar com isso tudo um dia continua evasiva.
– É possível. Estão trabalhando nisso no mundo inteiro. Leio sobre as descobertas o tempo todo.
Mesmo assim, eu sei que não posso deixá-lo pendurado nessa observação esperançosa.
– Mas nesse momento, Adam, não existe nem uma droga que possa retardar o processo. As drogas só tratam dos sintomas, não da doença propriamente dita.
Haverá dezenas de perguntas, eu sei, mas agora a única coisa que resta no olhar de Adam é o desejo de me consolar, de tocar em mim, de me abraçar, de tornar tudo melhor da maneira que pode. Mas agora é hora de ser direta com ele sobre tudo.
– Foi por isso que viemos para cá, Adam.
– Como assim?
– Minha mãe sempre quis que você e William se relacionassem, mas quando meu exame deu positivo alguns meses atrás isso virou uma questão prática, além de emocional.
Ele engole em seco sem dizer nada.
– Os sintomas da minha mãe começaram poucos anos depois da minha idade agora, Adam. E apesar de ser uma doença longa, que dura dez, às vezes vinte anos, não há como evitar um estágio em que eu não poderei mais ser a mãe que desejo ser para William.
É nesse ponto que as lágrimas despontam pela primeira vez, fazendo os olhos arderem.
– E se isso acontecer, ele vai precisar de você.
Para meu alívio, Adam não chora. A expressão dele é de choque e imensa tristeza. Então ele pega minha mão e esfrega suavemente os dedos nas articulações.
– Ele tem a mim, Jess. Eu juro. O que quer que aconteça, ele tem a mim.