Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 51
P rocuro lembrar exatamente por que eu disse que era brilhante no jogo de boules. Papai sempre disse para a menina de dez anos que já fui que eu jogava naturalmente bem, mas quando peguei uma bola percebi que tinha bebido demais e que não ia conseguir a concentração perfeita necessária para o jogo. Aliás, nem para botar um pé na frente do outro.
– Vamos de cara ou coroa para ver quem joga a bola branca – resolve Adam, tirando um punhado de moedas do bolso.
– Coroa – diz William.
Adam joga um euro e cobre nas costas da mão.
– É coroa.
William pega a bolinha branca e joga, muito concentrado. A primeira jogada dele não é má, fica a uma distância de apenas trinta centímetros. Adam é o próximo e chega mais perto, só que Rufus bate nela e tira do caminho.
Eu me adianto e ponho a bola na palma da mão quando me posiciono, sentindo o olhar de Simone em mim. Isso tem um efeito estimulante na minha adrenalina e eu fico superconsciente dos meus movimentos quando me inclino para trás e balanço o braço, lançando a bola num ângulo louco... que provoca muito riso da plateia.
Mas é apenas o começo. Nos vinte minutos seguintes, sou sempre derrotada pelos outros e Adam se diverte muito.
– Não é tão difícil assim, Jess.
– Estou um pouco enferrujada, só isso – retruco. – Além do mais, não fique zombando, senão terei de trazer à baila as pedras que não quicavam na água.
Ele começa a rir e balança a cabeça.
– Tenho um bom truque, quer que eu mostre?
– Eu me viro sem uma aula.
– Como quiser.
– Você sempre pode aprender alguma coisa, mamãe – William diz.
Como eu disse isso para ele inúmeras vezes aqueles anos todos, fico numa posição constrangedora.
– Tudo bem. Venha me mostrar em que eu estou errando.
Adam pega uma bola e vem para perto de mim, sorrindo de orelha a orelha e brincando com a bola na palma da mão.
Fico esperando que ele apenas demonstre algum pulinho idiota, alguma manobra de pé, para que eu role os olhos nas órbitas e o chame de espertinho. Em vez disso, antes de eu ter a chance de reclamar, ele fica bem atrás de mim, passa o braço pela minha cintura e põe a mão embaixo da minha.
Fico paralisada com o toque e minha cabeça lateja. Olho aflita para ver se Simone está assistindo. Mas ela deve ter entrado para fazer alguma coisa.
– Assim.
Sinto a respiração dele na minha orelha.
Penso em empurrá-lo e fazer uma brincadeira sobre ele ser paternalista. Mas quando seu corpo cola nas minhas costas, não consigo. Não sem chamar atenção para o efeito que ele provoca em mim. Por isso fico quieta, meu estômago pula de culpa prazerosa e tento desacelerar a respiração.
Sinto o contorno do peito dele mexendo nas minhas costas quando balançamos e lançamos a bola juntos. Ela bate na terra a quilômetros de distância da bola branca. É o pior lançamento do jogo.
Ele endireita as costas, viro e olho para ele ansiosa. Sua expressão está séria demais, e ele sussurra:
– Deixe para lá.
– Grande coisa você fez... – respondo.
Tento aliviar a barra com uma piada, mas acaba soando tanto como paquera que fico ainda mais vermelha.
– Que tal tentarmos de novo?
Ele dá aquele sorriso que faz o coração parar e somos interrompidos pela voz aguda de Simone.
– Adam, eu vou para casa.
Ela cruza os braços sobre o peito e fico tensa de vergonha.
– Simone, fique aqui e assuma o meu lugar no jogo – aproveito e me afasto de Adam. – Estou péssima nisso. Venha, eu insisto.
– Obrigada, mas estou com enxaqueca – ela diz secamente.
– Ah, não. Essas dores são um pesadelo – respondo, fingindo que não notei seu tom de voz. – Você tem muito isso?
Ela olha furiosa para Adam.
– Ultimamente sim. Vejo vocês todos amanhã de manhã. Aproveitem a noite – ela diz com frieza e vai embora.
Cutuco as costelas de Adam.
– Vá atrás dela.
Ele parece realmente confuso com a sugestão.
– Por quê? Ela está com dor de cabeça.
– Ela está zangada com você, Adam.
– O que foi que eu fiz?
Mas não posso responder porque teria de admitir a mudança silenciosa que está acontecendo entre nós. Que de repente ficou muito difícil combater.