Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 24 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 23

 

 

O cheiro no ar muda no meio da tarde todos os dias. Acontece quando o sol está alto e seu calor penetrante cobre todas as flores e plantas, de modo que o doce perfume de ervas do verão escapa na brisa.

No dia seguinte à nossa ida ao lago, William, Natasha e eu caminhamos até o château para beber alguma coisa gelada. Algumas crianças estavam reunidas na quadra de futebol e uma delas corre até nós. Dois dias antes, o menino estava com William na piscina, apesar de parecer um pouco mais novo do que meu filho, com seu cabelo cor de cenoura e um grande espaço entre os dois dentes da frente.

– Uma partida importante vai começar em cinco minutos e nós precisamos de mais um jogador. Você quer vir?

– Não sei – responde William.

– Ah, vamos lá, William... experimente.

Ele pensa um segundo e acaba meneando a cabeça, meio desanimado. Vai até a quadra e então vejo Ben arrumando cadeiras na beira da piscina. Aceno para ele e ele retribui, pegando outra cadeira. Então para, larga a cadeira e se aproxima de nós.

– Está gostando das férias? – pergunta Ben.

Ele usa pulseiras de couro nos pulsos fortes e bronzeados, e uma camiseta vintage com um slogan desbotado na frente. A pele da testa foi curtida até ficar cor de mel e injetar calor em seus olhos castanhos.

– Muito. Obrigada, Ben. Pena que você está preso ao trabalho com esse tempo maravilhoso – comento.

– Há empregos piores. E pelo menos não estou limpando banheiros hoje.

Lembro que não apresentei os dois.

– Essa é minha amiga Natasha.

– Prazer em conhecê-lo. – Natasha olha nos olhos dele. – Está parecendo sotaque de Cardiff.

Ben se abre em um sorriso.

– Bem observado.

– Minha avó era de lá, por isso tenho o ouvido treinado.

Sete crianças estão jogando, são de várias nacionalidades e se comunicam principalmente pela linguagem universal do futebol. Infelizmente, William não é fluente nessa língua. Os outros correm pela quadra e meu filho fica parado. Parece que alguém lhe disse que o principal objetivo do futebol é evitar a bola a todo custo. De vez em quando ele se empenha, mas, a não ser que alguém introduza uma nova regra que envolva resolver palavras cruzadas, não tem jeito nenhum... e o rosto dele se enruga de desespero toda vez que erra a bola e xinga a própria inaptidão. Meu coração aperta.

Fico assistindo ao jogo e só desvio a atenção quando Ben e Natasha começam a dar risada, olho para eles e vejo Ben completamente embevecido. Depois de um tempo, Natasha pede licença para se arrumar para o jantar e ele recomeça a arrumar as cadeiras saltitante, como se tivesse uma mola quase perceptível nos pés.

– Olá. – Adam aparece ao meu lado.

Viro e o vejo de perfil. Não suporto aquela beleza que só foi aumentando com os anos. É como se todas as coisas que um dia me enfeitiçaram, o cheiro da pele dele, os poços profundos daqueles olhos... só existissem agora para me assombrar.

– Oi – respondo friamente.

Ficamos ali em silêncio, lado a lado vendo nosso filho recuar para o mais longe possível do centro da quadra. Somos os únicos espectadores.

– Ele fez algum gol? – pergunta Adam.

– Não... ainda.

– VAMOS LÁ, WILLIAM! – berra Adam.

Meu filho vê o pai e franze a testa, angustiado. Mas determinação não basta. Ele atravessa o campo correndo como uma fada saltitando nas pedras do caminho e simplesmente não consegue chegar perto da bola.

Adam está com um olhar estranho, como se visse claramente o pior tipo de revelação: seu filho não joga nada.

– Ele...

– Não diga uma palavra.

Ele vira e olha para mim.

– Mas ele...

– Sim, Adam, eu sei. Ele é péssimo. Ele jamais fará um gol. Ele...

– Eu só ia dizer que o cadarço do tênis dele está desamarrado.

Olho rapidamente para a quadra.

– Oh. Ai. WILLIAM!

Começo a acenar para ele, mas ele agita as mãos para me calar, como se tentasse se livrar de um gato vadio.

– AMARRE O CADARÇO!

Quando ele para e olha para mim, é tarde demais. Ele leva um encontrão de uma das meninas holandesas... totalmente por acidente... e voa pela quadra, aterrissando de cara e acabando com a boca cheia de terra. Adam corre para ele.

– Estou bem, papai – ele cospe quando levanta com a ajuda de Adam.

– Tem certeza? Venha sentar um pouco.

Heroicamente, William quer voltar para o jogo. Mais heroicamente ainda, as crianças do time dele dizem que querem que ele volte. Adam e eu retornamos para a lateral do campo.

– Pensei que você fosse reclamar que ele não era bom nisso – confesso.

– Eu não ia dizer nada disso.

– Desculpe.

Fazemos uma pausa constrangedora.

– Ele é... espantosamente ruim.

Olho para Adam de lado e solto o riso.

– Ah, não faz mal. Ainda bem que eu o amo.

Adam olha de novo para o jogo.

– Nós o amamos – ele me corrige.