Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 50
O cheiro defumado do verão enche o ar do lado de fora da cabana de pedra de Adam, velhos amigos conversam saboreando um vinho cor de amora e as crianças jogam Frisbee por pelo menos cinco minutos antes de uma querer matar a outra. Sentamos em volta de três mesas diferentes postas juntas, alguns em bancos, outros naquelas cadeiras em que afundamos, com encosto curvo e almofadas de lona cor creme.
William está grudado no pai, tagarelando, enquanto Adam vira os hambúrgueres. Meus olhos são atraídos para os dois ali naquela luz cor de mel e minha imaginação avança rapidamente dez, talvez vinte anos. Imagino os dois jogando conversa fora, de adulto para adulto, pai e filho, e que isso é a norma em suas vidas, não só o que acontece num verão excepcional.
– Tem uma tirolesa em um parque perto de Loussous, podemos ir lá amanhã – diz Seb, passando o guia para mim.
Folheio o livro e tentamos determinar quanto tempo levaríamos para chegar lá, então percebo que Adam está atrás de mim. Ele pega meu copo e começa a encher.
– Uma dose pequena para mim.
– Por quê? – ele pergunta e enche até a borda.
– Ah, se você insiste... – suspiro, pego o copo e ele afunda na cadeira ao meu lado.
Adam usa uma camisa clara de algodão que adere ao peito, com as mangas enroladas até o alto dos braços bronzeados. Minha cabeça flutua com a lembrança da mão dele na minha no depósito de lenha, e um calor desconfortável sobe pelo meu pescoço.
– Obrigada pelas flores – eu digo, educadamente.
Ele sorri.
– Foi ideia do William.
– Ah, é? Pensei que fosse sua.
– Foi um esforço conjunto.
– Bem, foi uma ideia adorável. É bom sentir que somos valorizadas.
Então Adam abaixa a voz e fala:
– Você está bonita essa noite.
– Obrigada – consigo responder apesar de começar a transpirar.
Ter de sentar assim perto dele de repente me sufoca.
– Deve ser a blusa que acabei de passar com alisador de cabelo.
Ele dá uma gargalhada e me sinto tão grata que rio também.
– Você sempre teve iniciativas inéditas.
– Oi todo mundo!
Paramos de repente e olhamos para Simone. O vestido azul-marinho é salpicado de minúsculas gotas de neve e cortado de um tecido macio que se ajusta de forma atraente aos seios e ao contorno das pernas bronzeadas. Adam pede licença e vai recebê-la. Ela fica na pontinha das sapatilhas de balé, passa os braços em volta do pescoço dele e lhe planta um beijo lânguido nos lábios. Fixo o olhar no meu vinho.
Quando o sol se põe, Adam traz pratos e mais pratos para a mesa: espetinhos de carne com ervas perfumadas, frango marinado em alho e limão, salsichões feitos de carne de porco e de pato. Há potes de batata frita e saladas coloridas, brilhando com tempero vinagrete muito cheiroso e pratos com pão crocante.
Comemos até passar do ponto de satisfação plena e saboreamos cada mordida.
Mesmo com aquele ambiente lindo, eu me sinto estranhamente agitada perto de Simone. Quase culpada. E me surpreendo compensando isso procurando envolvê-la na conversa, cumprimentando pelo vestido e sapatos, dizendo que é muito gentil da parte dela recomendar ao acaso mais um dos cremes rejuvenescedores que a mãe dela usa e jura que funciona.
Comparada com os outros, eu não bebi muito naquela viagem. Raramente bebo. Crescer com papai por perto foi o melhor antídoto para o excesso de bebida que eu tive. Mas aquela noite meu copo de vinho habitual se transformou em dois, em três, e passou muito do que estou acostumada a beber. Isso fica bem aparente quando concordo entusiasmada com os pedidos das crianças de participar de uma corrida de carrinho de mão. E Becky e eu damos risada, de cara na grama, com nossos respectivos filhos de dez e sete anos, na linha de partida.
Não posso afirmar que há alguma dignidade em galopar num campo com seu filho agarrado aos seus tornozelos e berrando “MAIS RÁPIDO!”, como se você fosse algum tipo de burrico geriátrico. Mas é engraçado, uma distração da vida real – pelo menos da minha vida –, coisa que tem feito falta para mim ultimamente.
Depois disso pegamos leve por uma hora mais ou menos, mordiscando o que sobrou do banquete, até as crianças ficarem agitadas de novo e resolverem que querem mais participação da plateia. Adam levanta sem precisar de muita insistência.
– Acho que é hora de algum jogo. Críquete ou boules, William? Você escolhe.
William não hesita.
– Boules. Mamãe joga brilhantemente.
Engasgo com meu Bergerac.
– Não acho que sou brilhante.
– Tenho certeza de que uma vez você me disse que era – protesta William. – Que era brilhante.
– Devo ter usado esse adjetivo ao acaso.
– Vamos lá, levante daí – diz Adam.
Ele descontraidamente faz menção de pegar meu braço, mas eu o afasto, com medo do que vou sentir com a mão dele na minha pele. Então Rufus se apresenta. Todos os adultos parecem perceber ao mesmo tempo que, comigo, com Adam e Simone, somamos cinco pessoas e que só temos quatro conjuntos de boules, daquele tipo de plástico colorido que vendem nos supermercados daqui.
– Eu fico assistindo – declaro satisfeita.
– NÃO! – William reclama.
– Bom, eu não me importo – Adam dá de ombros.
– Ah, papai, sem essa.
Assim só restam duas crianças e Simone. William e Rufus olham feio para ela.
– Parece que sou eu que vou ficar de fora então – ela diz, sorrindo e fazendo bico, depois volta para a cadeira e cruza as pernas.
Olho logo para Adam.
– Eu realmente não me importo de não participar...
– Vamos logo com isso, Jess – diz Adam. – Venha, mostre do que é capaz.