Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 51 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 50

 

O cheiro defumado do verão enche o ar do lado de fora da cabana de pedra de Adam, velhos amigos conversam saboreando um vinho cor de amora e as crianças jogam Frisbee por pelo menos cinco minutos antes de uma querer matar a outra. Sentamos em volta de três mesas diferentes postas juntas, alguns em bancos, outros naquelas cadeiras em que afundamos, com encosto curvo e almofadas de lona cor creme.

William está grudado no pai, tagarelando, enquanto Adam vira os hambúrgueres. Meus olhos são atraídos para os dois ali naquela luz cor de mel e minha imaginação avança rapidamente dez, talvez vinte anos. Imagino os dois jogando conversa fora, de adulto para adulto, pai e filho, e que isso é a norma em suas vidas, não só o que acontece num verão excepcional.

– Tem uma tirolesa em um parque perto de Loussous, podemos ir lá amanhã – diz Seb, passando o guia para mim.

Folheio o livro e tentamos determinar quanto tempo levaríamos para chegar lá, então percebo que Adam está atrás de mim. Ele pega meu copo e começa a encher.

– Uma dose pequena para mim.

– Por quê? – ele pergunta e enche até a borda.

– Ah, se você insiste... – suspiro, pego o copo e ele afunda na cadeira ao meu lado.

Adam usa uma camisa clara de algodão que adere ao peito, com as mangas enroladas até o alto dos braços bronzeados. Minha cabeça flutua com a lembrança da mão dele na minha no depósito de lenha, e um calor desconfortável sobe pelo meu pescoço.

– Obrigada pelas flores – eu digo, educadamente.

Ele sorri.

– Foi ideia do William.

– Ah, é? Pensei que fosse sua.

– Foi um esforço conjunto.

– Bem, foi uma ideia adorável. É bom sentir que somos valorizadas.

Então Adam abaixa a voz e fala:

– Você está bonita essa noite.

– Obrigada – consigo responder apesar de começar a transpirar.

Ter de sentar assim perto dele de repente me sufoca.

– Deve ser a blusa que acabei de passar com alisador de cabelo.

Ele dá uma gargalhada e me sinto tão grata que rio também.

– Você sempre teve iniciativas inéditas.

– Oi todo mundo!

Paramos de repente e olhamos para Simone. O vestido azul-marinho é salpicado de minúsculas gotas de neve e cortado de um tecido macio que se ajusta de forma atraente aos seios e ao contorno das pernas bronzeadas. Adam pede licença e vai recebê-la. Ela fica na pontinha das sapatilhas de balé, passa os braços em volta do pescoço dele e lhe planta um beijo lânguido nos lábios. Fixo o olhar no meu vinho.

Quando o sol se põe, Adam traz pratos e mais pratos para a mesa: espetinhos de carne com ervas perfumadas, frango marinado em alho e limão, salsichões feitos de carne de porco e de pato. Há potes de batata frita e saladas coloridas, brilhando com tempero vinagrete muito cheiroso e pratos com pão crocante.

Comemos até passar do ponto de satisfação plena e saboreamos cada mordida.

Mesmo com aquele ambiente lindo, eu me sinto estranhamente agitada perto de Simone. Quase culpada. E me surpreendo compensando isso procurando envolvê-la na conversa, cumprimentando pelo vestido e sapatos, dizendo que é muito gentil da parte dela recomendar ao acaso mais um dos cremes rejuvenescedores que a mãe dela usa e jura que funciona.

Comparada com os outros, eu não bebi muito naquela viagem. Raramente bebo. Crescer com papai por perto foi o melhor antídoto para o excesso de bebida que eu tive. Mas aquela noite meu copo de vinho habitual se transformou em dois, em três, e passou muito do que estou acostumada a beber. Isso fica bem aparente quando concordo entusiasmada com os pedidos das crianças de participar de uma corrida de carrinho de mão. E Becky e eu damos risada, de cara na grama, com nossos respectivos filhos de dez e sete anos, na linha de partida.

Não posso afirmar que há alguma dignidade em galopar num campo com seu filho agarrado aos seus tornozelos e berrando “MAIS RÁPIDO!”, como se você fosse algum tipo de burrico geriátrico. Mas é engraçado, uma distração da vida real – pelo menos da minha vida –, coisa que tem feito falta para mim ultimamente.

Depois disso pegamos leve por uma hora mais ou menos, mordiscando o que sobrou do banquete, até as crianças ficarem agitadas de novo e resolverem que querem mais participação da plateia. Adam levanta sem precisar de muita insistência.

– Acho que é hora de algum jogo. Críquete ou boules, William? Você escolhe.

William não hesita.

– Boules. Mamãe joga brilhantemente.

Engasgo com meu Bergerac.

– Não acho que sou brilhante.

– Tenho certeza de que uma vez você me disse que era – protesta William. – Que era brilhante.

– Devo ter usado esse adjetivo ao acaso.

– Vamos lá, levante daí – diz Adam.

Ele descontraidamente faz menção de pegar meu braço, mas eu o afasto, com medo do que vou sentir com a mão dele na minha pele. Então Rufus se apresenta. Todos os adultos parecem perceber ao mesmo tempo que, comigo, com Adam e Simone, somamos cinco pessoas e que só temos quatro conjuntos de boules, daquele tipo de plástico colorido que vendem nos supermercados daqui.

– Eu fico assistindo – declaro satisfeita.

– NÃO! – William reclama.

– Bom, eu não me importo – Adam dá de ombros.

– Ah, papai, sem essa.

Assim só restam duas crianças e Simone. William e Rufus olham feio para ela.

– Parece que sou eu que vou ficar de fora então – ela diz, sorrindo e fazendo bico, depois volta para a cadeira e cruza as pernas.

Olho logo para Adam.

– Eu realmente não me importo de não participar...

– Vamos logo com isso, Jess – diz Adam. – Venha, mostre do que é capaz.