Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 82
M al me lembro da confusão para voltar para casa. Só sei que consegui pegar um voo mais tarde aquele dia mesmo, sozinha, deixando William e todos os outros na França, além do meu carro e de grande parte dos meus pertences mundanos.
Lembro-me de espiar sonolenta pela janela e ver o topo das nuvens e de pensar que tudo parecia calmo, azul e perfeito lá de cima, sabendo que, assim que o avião embicasse para baixo delas, eu mergulharia de novo num mundo que era bem mais tenebroso.
Cinco dias depois, o “quando deixar de ser uma possibilidade” que papai e eu conversamos nos últimos dez anos estava prestes a acontecer. E só agora entendo como estava despreparada para isso. Acho que nada poderia ter me preparado.
Minha mãe está tendo uma morte infeliz e feia, do tipo impossível de acreditar que está acontecendo. O sufocamento derivado dos engasgos, que piorou nos últimos meses, foi o que fez aquilo com ela.
Os médicos acham que ela inalou algum alimento que provocou a pneumonia, e o corpo já está fraco demais para lutar contra isso. Desde então, estão lhe injetando antibióticos, mas os pulmões estão tão maltratados, tão cansados, que não têm chance nenhuma.
Não é que as pessoas não estejam procurando aliviar aquele quadro, porque estão. Todos estão fazendo o melhor possível. Mas o melhor possível não está ajudando. E a visão que tenho da minha mãe nesse momento é tal que vai me assombrar para sempre. Mesmo sedada, ela nunca parece estar confortável. Parece torturada.
Papai e eu nos revezamos ao lado do seu leito, esfregando as articulações dos dedos, vendo seus movimentos sob a fina camisola de algodão, a pele enrugada sobre os ossos.
O coração do meu pai está sendo esmagado lentamente com cada grito que escapa dos lábios dela. E eu estou tão perturbada com o horror de tudo aquilo que há dias em que preciso de toda a minha força para espiar pela janela e não desprezar cada pessoa que cuida da própria vida lá fora. Chorei tanto nos últimos dias que a pele do rosto está em carne viva.
Adam levou William para Manchester no meu carro logo depois que eu parti, e agora está na nossa casa com ele. Meu filho fica falando que quer ver a avó, mas não deixei. Ponho a culpa na equipe médica, digo que eles não permitem. Posso ter prometido solenemente para ele quando estávamos na França, mas nada de bom resultaria de ele testemunhar isso: sua avó sendo lentamente sufocada pelo próprio corpo.
– Você precisa ir para casa dormir um pouco, querida – diz papai pela quarta vez hoje.
Mas a decisão de ir envolve uma troca. Eu quero estar lá quando ela morrer. Pensei que fosse acontecer dias atrás, quando ela ainda tentava se comunicar da melhor forma que podia.
Eu me preparei várias vezes pensando “é agora”, convencida de que alguém não podia continuar lutando com o corpo naquele estado.
Mas lá está ela, agarrada à vida. Uma parte de mim me odeia por desejar que aquilo acabe. Mas ela não parece mais a minha mãe, nem cheira como minha mãe, nem soa como minha mãe.
– Em breve eu vou, papai.
Mas não me mexo. Em vez disso, deixo os olhos vagarem pelo quarto, para a janela, as fotos que papai trouxe do lar de idosos, pequenas lembranças para ela se concentrar, nos dias em que podia se concentrar em alguma coisa.
Tem uma foto do casamento deles, um sábado ensolarado de setembro que os dois sempre disseram que deve ter sido o dia mais quente do ano. Aos dezenove anos, mamãe era uma noiva muito jovem. O vestido tinha gola fechada e uma renda que acariciava os braços, e ela usava um chapéu daqueles de abas bem largas, com um véu que descia pelas costas.
Ficava fascinada com aquele chapéu quando era pequena. Costumava experimentá-lo e dançava na frente do espelho do quarto dela, rodopiando o véu à minha volta como uma ginasta. A alegria da minha mãe brilha na imagem, meu pai bem estiloso e feliz da vida, os dois lado a lado para embarcar na aventura juntos.
Há outras cinco ou seis fotos emolduradas de gente, de lugares e – no caso da nossa velha cadela, Lady – de animais que ela amava. A imagem que chama minha atenção é a foto de nós duas juntas, no meu sexto aniversário, de pé ao lado do bolo que mamãe tinha feito.
As pessoas sempre disseram que éramos parecidas, mas é naquela foto que isso fica muito evidente. Tenho a mesma boca carnuda, pele bem clara, algumas sardas no nariz. Só espero que, quando chegar a minha vez, eu tenha a mesma capacidade de luta.
A adição mais recente é uma que eu imprimi numa pequena cabine no supermercado quando fui comprar sanduíches para papai e para mim dois dias atrás. É a foto que tirei, com meu celular, de Adam e William rindo à beira do lago aquele dia. Não sei se ela chegou a registrar, mas espero que sim. Essa foto e o anel de noivado que mostrei para ela e para papai enquanto ele segurava a mão dela e sorria aquela única vez desde a minha volta para casa.
Pelo simples motivo de querer esticar as pernas, resolvo levantar e arrumar a cortina que estava amarrotada num canto desde que a enfermeira tinha puxado para abrir durante a manhã. Encostei na mão de mamãe quando levantei e senti que estava fria.
Meu coração disparou e entrei em pânico achando que já tinha acontecido. Então um som escapou do fundo da sua garganta.
– Jess – sussurra papai, mas não olha para mim, ele tem o olhar fixo no rosto da mulher que ele amou durante toda a sua vida adulta. Ele aperta a mão dela e mamãe ronca intermitentemente, a respiração silencia e depois recomeça. Fico paralisada na cadeira até aquele começar e parar dos pulmões mudar.
Quando a vida se esvai do corpo da minha mãe é mais rápido do que eu imaginava.
A expressão no rosto dela fica mais suave. Não há mais movimentos, não há mais tiques, nenhum daqueles sons ou grunhidos aos quais já tínhamos nos acostumado. E no meio das nossas lágrimas, do choque e da tristeza devastadora, o quarto se enche de uma coisa que vem antes do luto.
O quarto se enche de paz.