Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 45
P apai foi comigo pegar o resultado do exame de sangue, quatro torturantes semanas depois da coleta. Não era a primeira vez que eu via a Dra. Inglis. Ela fez uma avaliação neurológica básica logo depois da minha primeira consulta com o conselheiro genético e concluiu, quando executei com sucesso diversas tarefas, que eu não apresentava nenhum sintoma de DH.
Naquele quadro, eu sabia que esse resultado não queria dizer grande coisa, mas mesmo assim me deu esperança.
Meu pai estava bonito aquele dia. Com um belo paletó azul-marinho e calça nova, vestido para uma ocasião feliz. Sentamos na sala de espera e tive uma estranha sensação de leveza. Eu me controlei para não ficar olhando para o relógio na parede e me concentrei nas unhas brilhantes da recepcionista e na cortina balançando sobre o radiador.
– Desenterrei meu velho DVD de Frasier ontem à noite – eu disse para papai. – Já tinha esquecido como era bom.
– Ah, qual episódio?
– Assisti a três, um depois do outro, sem interrupção, incluindo aquele em que eles jogam a cadeira de Marty pela janela.
– Ah! Brilhante – exclamou papai, mas o riso secou na garganta dele. – Brilhante.
Nem ele, nem eu mencionamos o que tínhamos ido fazer ali, desde que saímos de casa. Pensei em falar alguma coisa rápida, mas no último minuto mudei para a prenhez da bassê do nosso vizinho Graham.
Depois de um tempo me vi gaguejando uma coisa em que pensava havia anos.
– Sabe, quando você e mamãe começaram a namorar... você acha que se soubesse... da DH dela, quero dizer. Isso teria mudado alguma coisa?
– Quer saber se mesmo assim eu teria casado com ela?
Sacudo os ombros.
– Acho que é isso.
Ele parece desapontado com o fato de eu ter de perguntar.
– Jess, quando amamos alguém, uma coisa como essa não impede que fiquemos juntos.
Lembro que pensei, Bom, ele diria isso em qualquer circunstância.
Mas então ele acrescentou uma coisa que me surpreendeu:
– Eu a amo mais do que nunca agora.
Eu devo ter demonstrado choque.
– É verdade, falo sério. Tivemos muitas provas de fogo para testar nossa determinação.
– Jessica Pendleton.
Papai e eu seguimos a Dra. Inglis pelo corredor até o consultório dela. No caminho, papai estendeu a mão e segurou a minha pela primeira vez desde quando eu tinha oito anos. O arco da palma da mão dele contra a minha dava a sensação de força e maciez, exatamente como sempre foi, e de repente meu coração ficou grande demais para o meu peito.
Já no consultório, sentei na pontinha da cadeira e, antes que ela começasse a falar, eu já sabia o que ia dizer. Ela não se fez de rogada. Foi direto ao ponto.
– Não é a notícia que nós queríamos, Jess – ela começou e, por um segundo, antes de registrar direito aquelas palavras, lembro que senti pena dela, achei que devia ser horrível ter de fazer aquilo.
Foi só quando papai e eu saímos para ir para o estacionamento que percebi que eu tremia toda, fisicamente, meus braços tremiam muito de cima a baixo e as articulações das pernas tinham virado geleia.
Paramos ao lado da caminhonete dele, papai me abraçou e sussurrou no meu ouvido:
– Está tudo bem, Jess. Vai dar tudo certo.
Aquela devia ser a primeira vez que ele mentia para mim desde que parou de beber.
Não contamos para mamãe naquele dia. O terapeuta tinha dito que nem sempre era uma boa ideia, quando emoção e choque estão tão fortes, essa decisão costuma, nas palavras dele, provocar “sofrimento” no pai ou na mãe.
Mas não podíamos adiar para sempre, mesmo sabendo o que ia causar nela. Porque eu conheço a sensação de haver uma possibilidade de ter passado um gene fatal para o próprio filho.
A força do amor materno é imensa desde o primeiro minuto em que sentimos os movimentos de membros minúsculos dentro da nossa barriga. Nós inspiramos esse amor junto com o cheiro do recém-nascido quando é posto nos nossos braços. Esse amor só aumenta quando eles crescem, quando seguramos suas mãozinhas no primeiro dia de escola, ou quando beijamos o joelho sangrando depois de uma queda.
E eu sei que há momentos em que uma mãe chega quase à loucura, por privação de sono, ou birras de adolescentes, ou simplesmente má criação e desaforo. Mas ela sempre amará os filhos, um amor que nunca existiu antes deles.
O pior dia da vida da minha mãe não foi quando ela descobriu que tinha DH. Foi aquele dia cinzento de fevereiro, quando soube que eu era DH positiva.
Quanto a mim, nem conseguia processar o que passava na minha cabeça na época. Às vezes sinto tanto medo que houve manhãs nesses últimos cinco meses em que mal conseguia levantar a cabeça do travesseiro.
Isso deixou um ponto de interrogação no futuro da pessoa que significa mais para mim do que qualquer outra na face da Terra, meu filho. William é menor de idade e só pode fazer o teste quando completar dezoito anos. Por isso ainda tenho pelo menos oito anos antes de saber se passei para ele, e isso se ele resolver fazer o exame.
Estou com trinta e três anos. Minha mãe começou a apresentar sintomas quando tinha trinta e sete. Posso não ter muito tempo antes de começarem a acontecer comigo as coisas que um dia afetarão a pessoa que desejo ser, a filha, a amiga, a colega. E acima de tudo, a mãe.
Alguém que estará sorrindo nas laterais do campo quando William se tornar um homem, da mesma forma que fazia quando ele era um menininho com luvas sem dedos e gorro de lã.
Sonho com ele na meia-idade, às vezes.
De vez em quando consigo imaginá-lo perfeitamente, às vezes ele é um cientista, outras vezes historiador. Uma ou duas vezes era lixeiro. Penso nele descobrindo o amor, de coração partido, se formando, comprando seu primeiro carro, escolhendo uma universidade, conquistando o trabalho sonhado.
E me pego pensando em qual dessas situações estarei lá para apoiá-lo, se é que estarei em alguma.
Só que, estranhamente, penso mais nas coisas pequenas... se ainda estarei aqui quando seu cabelo encaracolado rarear, ou se verei mechas grisalhas numa barba. Penso se vou poder ouvir a voz dele engrossar com a idade, e aquele hábito de pizzas Domino’s aparecendo na barriga.
É impossível aceitar a ideia de que vou perder esse futuro.
E isso me traz ao nosso verdadeiro motivo de estar aqui na França, a razão do desespero de mamãe para que viéssemos. Meu filho precisa de um pai por um motivo muito mais crítico do que deixei transparecer. Um que, à luz do resultado do meu exame, eu não podia mais ignorar. Rezo para que Adam consiga assumir a responsabilidade de ser o pai que William precisará mais do que imagina.