Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 17
E u colocava na mala dois shortinhos brancos cortados em todas as férias nos últimos oito anos, e nenhuma vez tive coragem de usá-los.
Mas quando estou trocando de roupa antes de ir pegar Natasha no aeroporto no fim da tarde de domingo, o sol faz uma nova entrada espetacular, iluminando as encostas e os campos, como se quisesse recebê-la. E de repente os shortinhos não parecem uma má ideia.
Nunca fui de usar short. Mesmo quando tinha vinte anos, achava que minhas pernas não eram suficientemente compridas, nem firmes, nem suficientemente Gisele Bündchen. Mas depois que o clínico disse para eu fazer exercícios além de tomar os antidepressivos, comecei a sair de fininho na hora do almoço para uma malhação de meia hora.
Parte de mim gostava do fato de a aula ser torturante, tão puxada que o certo seria eu ter glúteos feito aço. Quando vi o short branco, pensei, que se dane. Estava me sentindo bem naquelas circunstâncias... até Adam aparecer na nossa porta, olhar para mim e exclamar: “Belo short.”
Fiz uma careta.
– Ah... cale a boca.
– Desculpe. Mas você costumava preferir um comprimento mais vitoriano. Não que eu queira desencorajá-la.
Tentei esconder o calor no rosto e resmunguei:
– Pode me considerar desencorajada.
Infelizmente não tive tempo para trocar de roupa. Por isso agora estou aqui no aeroporto, atraindo olhares e desejando ter incendiado o short e estar vestindo um kaftan em vez dele.
Natasha sai do portão de desembarque parecendo Grace Kelly entrando no aeroporto internacional de Los Angeles, toda óculos escuros, bolsa grande e cabelo perfeito. Ela acena e desliza até mim, me abraça com tanta força que deve ter deslocado alguns dos meus órgãos vitais.
– Ah, meu Deus, é tão bom te ver... – Ela sorri de orelha a orelha, depois recua e me examina de alto a baixo – Uau.
– O quê? – pergunto.
– Belo short – ela diz, depois completa. – Belas pernas.
– Obrigada – respondo, me sentindo muito melhor ouvindo isso dela. – Como foi a viagem?
– Adorável, exceto pelos pés inchados. Olhe só para isso, poderiam ser pés de um hobbit.
Ela estica uma das sandálias de plataforma Michael Kors na minha frente e eu dou risada, mesmo vendo que está exagerando.
– Mas não posso reclamar. Duas horas e um gim-tônica depois da decolagem e estou aqui.
– Nada disso parece tão divertido quanto o vômito incessante que tive de aturar.
Ela faz tsc, tsc, tsc.
– Pobre William. – Então ela para e olha para mim. – Como está sua mãe? E como é que você está?
– Mamãe não está muito bem. Mas eu estou ótima. Sinceramente.
Ela semicerra os olhos, mas eu vou para a máquina de estacionamento e não deixo que me pressione a falar mais. Enfio o tíquete e ela me empurra gentilmente para um lado para poder pagar.
– E aí, já se acostumou a ter Adam por perto? Ele está suportável?
– Eu não teria vindo para cá se achasse que ele não era suportável. Nem com você e Becky me dando força.
– Você merece uma medalha. A maioria das pessoas acharia impossível estar no mesmo cômodo com o ex – diz ela enquanto caminhamos até o prédio para esperar o elevador. – Uma vez vi Stuart em Sainsbury e praticamente me arrastei feito um soldado de elite pela ala dos vinhos para não ter de dizer oi.
Não namorei muitos caras a sério tirando o Adam. Teve Carl da universidade, se é que se pode contar, depois um cara chamado Toby com quem saí durante um ano quando William estava com seis anos. Ele era legal em todos os sentidos, e realmente não tinha nada de errado. Mas apesar de nunca ter tido de me arrastar no chão do supermercado para evitá-lo, eu sabia o que Natasha queria dizer. Eu não sairia do meu caminho para vê-lo de novo. Infelizmente com Adam não posso me dar ao luxo de evitar.
– Esse é o problema quando temos um filho com alguém – digo para ela. – Podemos querer ficar a milhões de quilômetros de distância dele, mas esse elo nos une para sempre. Gostemos ou não.
Conheci Natasha quando estava quase no sexto mês da gravidez, num baile de Natal organizado pelo diretor da firma de Adam. Eu me senti completamente deslocada na festa, que aconteceu no pátio de uma mansão em Cheshire, numa noite com neve e ar seco. Estavam lá os maiores clientes da empresa, e a equipe mais qualificada. Foi um evento luxuoso, com muitos coquetéis de champanhe e conversa de negócios. Só fui levada para lá porque alguém na mesa de Adam desistiu na última hora.
Levando em conta que ele detestava o emprego, Adam acompanhou obedientemente os outros jovens prodígios, socializando com os clientes e gerentes mais antigos até que todos viessem comer na mão dele. Na verdade, ele era tão bom naquilo que seu sofrimento mal disfarçado de ter de ficar preso na Inglaterra por causa do bebê foi mais frustrante ainda. Eu, enquanto isso, andava atrás dele, muito cansada e gorda, incapaz de dar qualquer contribuição significativa para as conversas além de informar com quantos meses de gravidez eu estava.
Vi Natasha no início da noite, batendo papo com o diretor. Ela era magra-modelo, usava um vestido de seda azul-escuro, tinha o cabelo lindo, cor de cobre, preso e fofo em um coque. O nariz grosso e as sobrancelhas retas davam um ar inteligente e obstinado até a hora em que ela ouvia alguma coisa engraçada, e então seu rosto se desmanchava em uma gargalhada espontânea e desinibida.
Depois do jantar, quando as pessoas se misturavam, ela sentou na cadeira ao lado da minha.
– Isso deve ser uma chatice para você – cochichou.
– Não é não! – protestei educadamente.
– Tem certeza? Porque eu trabalho para essa gente e até gosto de ficar falando sobre o preço mundial do petróleo... mas sei que pessoas normais não compartilham essa minha paixão.
Dei risada.
– Você deve ser a Jess. – Ela sorriu de orelha a orelha, e apertamos as mãos.
Natasha tinha uma pegada que parecia a de um sargento.
– Ouvi Adam falar muito de você. Mas não acredito que ele nunca tenha mencionado que vocês vão ter um bebê.
Natasha e eu não devíamos ter nada em comum. Ambição e capacidade brilhavam nela, enquanto eu estava convencida de que a lombada na minha barriga de vinte e dois anos dava a impressão de que eu era incapaz ou desinteressada de uma carreira profissional.
Quando as outras pessoas na festa se esforçaram para vir conversar comigo, eu senti que estavam sendo gentis com a senhora grávida, mas preferiam ir puxar o saco dos clientes. E com Natasha não foi nada disso. Natasha era carinhosa, de fácil convívio e francamente engraçada.
Ficamos lá sentadas à mesa batendo papo sobre tudo, desde natação – que nós duas adorávamos e que eu tinha começado há pouco tempo – até o fato de que uma vez ela terminou o namoro com alguém porque ele tinha comido batata frita Pringles na cama.
– Não costumo ser tão superficial assim, mas não preciso encontrar uma batata barbecue na calcinha muitas vezes para ter de tomar uma decisão.
Então o DJ ligou o som e ela apontou para a pista de dança.
– Venha. Eu estou a fim, se você estiver.
Olhei para Adam, mas ele estava muito entretido na conversa com a mulher ao lado. Então nós simplesmente fomos para o centro da sala e dançamos como se ninguém estivesse vendo, e tenho quase certeza de que Adam logo começou a desejar que isso fosse verdade.
Depois Natasha e eu acabamos indo nadar juntas três noites por semana, passando pelo Natal e até um dia antes de eu ter meu filho. Aquelas noites eram uma bênção. Não só a sensação de leveza em minhas pernas e braços pesados quando entrava na água, mas simplesmente por estar com ela. Num momento em que eu ficava cada dia mais angustiada com meu relacionamento com Adam, ter Natasha para conversar tornava tudo quinhentos por cento mais fácil.
Agora, quando ela senta no lado do carona do meu carro enquanto eu ligo o motor, uma coisa me vem à cabeça: espero que ela tenha o mesmo efeito aqui.