Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 20
S aio da trilha da floresta e vou direto para as portas grandiosas do château, protegidas do sol. Não encontro Adam em nenhum dos lugares óbvios, e acabo descobrindo Ben na recepção.
– Ele falou alguma coisa sobre tirar o dia de folga, Jess... e que ia para o vale do Vérzère.
Relaxo os ombros.
– Então ele vai mesmo. William estava pensando que ele ia pegá-lo há quarenta e cinco minutos e eu não consigo encontrá-lo.
– Já tentou na cabana dele?
Adam mora a cinco minutos do château, longe das acomodações dos hóspedes, numa pequena cabana em um extremo da propriedade. Alguns dias atrás ele tentou me mostrar, mas eu só dei uma espiada para ser educada, constrangida com aquele nível de informação sobre a vida que ele leva agora.
A cabana dele é mais precária por fora do que as dos hóspedes, tem telhado de pedra, uma porta azul com a tinta descascada e paredes desgastadas pelo tempo, cercadas de capim e de orquídeas selvagens. Pelo que pude ver, por dentro parecia bem habitada também, com estantes abarrotadas de livros, pilhas de cartas, um bom estoque de vinhos e fotografias antigas brigando por espaço num mantel de lareira que parecia muito velho.
Quando chego na frente da casa, meu coração está disparado muito além do que devia estar com a caminhada. Hesito antes de bater e então percebo que a porta está aberta, destrancada.
– Adam? Sou eu. – Empurro a porta e entro.
Então eu grito. Ou gemo. De qualquer forma mais alto do que esperava. Mas quando se dá de cara com uma mulher com a blusa aberta, exibindo um sutiã de renda diminuto, é difícil saber qual é a reação apropriada.
Adam pula para longe de Simone e ela vira de costas para abotoar a blusa. Então ele começa a bufar e a resmungar, querendo saber por que eu não bati na porta.
– Mas eu bati ! – protesto, com o rosto todo vermelho – Vocês deixaram a porta aberta!
Cubro os olhos com a mão num ato reflexo, totalmente ineficiente para “des-ver” uma coisa que tinha acabado de ver.
– Acho que fui eu, desculpe.
Simone alisa a saia e dá um jeito no cabelo, adquire um ar tão angelical de inocência que daria para pensar que eu tinha acabado de surpreendê-la lendo a Bíblia em voz alta.
– Está... olha, tudo bem – eu digo e recuo para a porta, incapaz de olhar nos olhos de qualquer um dos dois. – Mas graças a Deus não mandei William vir procurá-lo. Só vim para saber a que horas vai ser o rafting. O pobre menino achou que você ia pegá-lo há quase uma hora.
– Não posso levá-lo para fazer o rafting hoje – responde Adam. – Estou de folga com Simone.
Simone cruza os braços com um sorriso de satisfação, e eu sinto meu peito encher de ar.
– Mas você e eu falamos desse passeio ontem, Adam. Você não pode falar essas coisas para um menino de dez anos e depois mudar de ideia.
– Vou levá-lo para fazer rafting em algum momento, mas hoje não – continuou ele, sem se perturbar. – Hoje eu não posso.
– Mas você disse que podia! – argumento.
– Não disse não.
Ele balança a cabeça e a exasperação aperta minha garganta.
– Disse sim, Adam.
Mas ele se recusa a entrar numa discussão, apesar da raiva no olhar de Simone.
– Você entendeu errado, Jess. William foi me perguntar sobre esse passeio quando eu estava consertando um vazamento em um cano de um dos quartos. Ia destruir o carpete que tinha me custado os olhos da cara. Eu estava distraído.
Eu só conseguia pensar em William, sentado no degrau na frente da nossa cabana, agarrado à mochila, cansado, mas elétrico depois do sono entrecortado por toda aquela excitação. E em como raios eu ia contar isso para ele.
– Então você está me dizendo que não prometeu a ele que ia levá-lo hoje?
– Não prometeu não – Simone interrompe, antipática.
Adam olha de lado para ela.
– Bem, você não estava lá, Simone, sejamos justos.
Ela se apronta para responder, mas resolve calar a boca.
– Olha, Jess, não lembro exatamente o que eu disse – ele continua –, sei que disse que faria o rafting com ele, e podemos fazer, mas não teria dito para ele que íamos hoje, porque estou ocupado. Naquele momento eu só precisava me livrar dele.
Minha incredulidade começa a fervilhar e a se transformar em alguma coisa muito mais forte.
– O quê?
– Não foi isso que eu quis dizer.
– Não importa o que foi dito, o fato é que ele não pode ir, Jess – Simone grita.
– Mas Adam prometeu, Simone – eu disse calmamente, tentando raciocinar com pelo menos um dos dois.
– Bem, ele vai ter de superar isso, não vai? – ela cospe. – Além do mais, não foi uma promessa.
– Tudo é uma promessa quando dizemos a um menino de dez anos que vamos fazer alguma coisa com ele – revido.
Um som feito “pfaufff” sai da boca de Simone, como se soltasse ar por um furo.
Adam olha para nós duas e então para em mim.
– Jess. Nós fizemos canoagem apenas dois dias atrás. A ideia que eu tinha era que talvez pudesse levá-lo nesse outro passeio algum dia da semana que vem.
Pensei em William de calção de banho a noite passada e senti uma onda de fúria.
– Então viemos tão longe para ele ter tempo de qualidade com você só uma vez por semana?
– Não dá nem para reservar em tão pouco tempo – Adam continua me ignorando. – Eu não percebi que ele estava falando de hoje. Foi ele que sugeriu mais ou menos 8h30 e pensei que estava falando... em geral. Foi bobagem minha, agora que lembro, mas, como eu disse, estava distraído. Desculpe, mas eu vou levá-lo sim – ele olha de lado para Simone e acrescenta –, só que não hoje.
Faço mais uma tentativa de raciocinar com ele.
– Adam – falo baixinho, com a voz trêmula –, nem precisa ser rafting, pode ser qualquer coisa. Ele só quer estar com o pai. Que ele adora. É por isso que estamos aqui.
Adam titubeia. Por um instante me convenço de que ele fará o que é certo.
– Se quer mesmo saber, Jess, temos reserva num hotel Mr. and Mrs. Smith – anuncia Simone. – Custa uma fortuna e leva séculos para se conseguir um quarto lá. Portanto, não existe a possibilidade de não irmos.
Fico lá parada, enfiando as unhas nas palmas das mãos, processando a notícia de que Adam vai passar seu dia de folga na cama com sua namorada de vinte e dois anos em vez de ficar com William. De repente não suporto mais estar no mesmo cômodo com aqueles dois.
Dou meia-volta e saio marchando. Adam me segue até a porta e chama meu nome.
– Vou planejar alguma coisa para fazer com William assim que eu voltar. Prometo.
Paro no fim do caminho com o sangue fervendo nas veias e viro para trás. E acontece que não consigo me conter.
– Pois eu descobri em primeira mão que as suas promessas não valem nada, Adam.