Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 28 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 27

 

Q uando o time de William acabou levando uma goleada de 18 a 3, eu já tinha conseguido ter uma longa troca de mensagens de texto com papai e desfazer quatro meses de malhação, pedindo um prato de delícias cheias de calorias: saucisson sec servido com maionese picante de repolho, cenoura e aipo e pão de crosta bem escura.

– Não posso acreditar que perdemos – diz William, caindo sentado desanimado.

– Ah, não faz mal. Vamos beber alguma coisa?

Peço a Delphine, a jovem garçonete de plantão, um suco de maçã para William.

O sol está começando a mergulhar no horizonte, a luz laranja que cascateia banha os ciprestes e forma tons suaves nas paredes de pedra do château. A piscina está deserta a não ser por uma nadadora solitária dando voltas com os óculos de natação apertados no rosto. O calor do dia, que está amainando agora, intensificou o perfume no ar, de ciclame e tomilho.

– O papai achou que eu joguei bem quando ele veio assistir à partida? – pergunta William enquanto esperamos o suco.

– Ele achou você fantástico.

– Ele viu quando eu quase fiz aquele gol no final?

Nem imagino do que ele está falando. Até onde eu pude ver, ele não podia estar mais distante de marcar um gol se estivesse lá em São Paulo.

– Ele não podia perder, William. Muito bem – eu disse animada.

Levanto a cabeça e vejo que Natasha estava vindo, mas fez um desvio, e agora está conversando com um cara sentado mais adiante no terraço.

– Você devia bater uma bola com seu pai – continuo, quando Delphine aparece com o suco. – Ele era bom no futebol. Talvez possa te dar algumas dicas.

– Ótimo. – William dá de ombros e bebe o suco.

Natasha vem na nossa direção, com o cara com quem conversava ao lado, ele segurando uma taça de vinho.

– Jess, esse é Joshua. Mora perto de mim em Islington. Somos praticamente vizinhos.

Ela fixa os olhos nos meus enfaticamente e percebo, com o poder da intuição feminina, ou talvez porque ela não poderia ser menos sutil se jogasse um tijolo na minha cabeça, que ela vê algum potencial nele.

– Ah, que bom. Venha sentar conosco. – Eu sorrio e puxo uma cadeira. – Esse é o William.

– É um prazer conhecê-los.

Os olhos de Joshua são azul-mar e ele tem um bronzeado obtido com esforço, que esconde o rosado das bochechas. É um pouco rechonchudo nos contornos e uns cinco anos mais velho do que Natasha. Mas tem um sorriso simpático e o tipo de cabelo cheio e bem cortado que faria minha avó considerá-lo boa-pinta.

– Vou para o balanço – anuncia William, e parte para se juntar às outras crianças que estão na área dos brinquedos.

– Eu estava tentando convencer Natasha de que ela se sentirá em casa no meu novo apartamento quando voltar a Londres – diz Joshua com um sorriso de orelha a orelha.

Franzo a testa, imaginando o que foi que eu perdi, mas Natasha dá risada.

– Eu trabalho numa empreiteira – ele explica, levantando uma sobrancelha bem desenhada.

– Ah.

– Só que estou muito feliz onde moro – Natasha diz a ele. – E levei muito tempo para encontrar esse apartamento. Não vou para lugar nenhum tão cedo.

Ele torce a boca para o lado.

– Que pena. Vou ter de inventar outra desculpa para poder te ver de novo.

Na meia hora seguinte, eles parecem se dar maravilhosamente bem. Isso apesar do, ou talvez devido ao fato de que Natasha parecia não perceber que o assunto predileto de Joshua é claramente... Joshua.

Depois de um tempo em que esgotamos tópicos que incluíam os dois carros dele, a casa dele, o negócio de antiguidades que o trouxe à Dordogne, seu handicap no golfe e sua viagem para Verbier mais cedo esse ano, para praticar snowboard, ele olha para o relógio.

– Bom, tenho de correr. Mas espero vê-la em breve.

Natasha ergue a mão, acena e ele sai com passadas largas.

– Você acha que ele gosta de mim? – ela cochicha.

– Acho sim. – Bebo um gole do meu suco. – O sentimento é mútuo?

– Bem, ele merece um tique em todos os quadradinhos. Inteligente. Tem liquidez. É bem-educado. Fala cinco idiomas. Cabelo lindo. Ah, lá está nosso vizinho de novo.

Vejo Charlie com os olhos fixos em nós. Parece um pouco constrangido por ter sido pego espiando, mas logo seu rosto se abre num largo sorriso.

Natasha abaixa os óculos escuros.

– Esse é definitivamente seu.

– Você vive me dizendo isso.

Ela sorri.

– E o que Adam tinha para dizer depois do fiasco do rafting?

Suspiro.

– Ele pediu desculpas, disse que é muito grato por tudo que eu faço como mãe, que ele ama William e que só foi para aquele hotel porque era aniversário da Simone e ela fez a reserva séculos atrás.

Natasha faz bico e solta um breve “hum”.

– Bom, espero que você não caia na lábia dele.

– É claro que não. Você acha que eu sou alguma idiota?