Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 71
E stou zonza quando saio do château e agarro a porta de ferro fundido que queima a palma da minha mão com seu calor. Não só as palavras da minha mãe me obrigam a me concentrar no que é importante agora, tem mais uma coisa: o que papai falou sobre Adam e a noite em que William nasceu.
As partes de que me lembro... as horas passando, o batom e a bebida na camisa de Adam... tenho certeza de que tudo isso aconteceu. Mas há muitas lacunas na minha versão dos acontecimentos, imaginando um quarto de hotel, as mãos de Adam no cabelo sedoso de Georgina, pernas compridas e ébrias se entrelaçando, enquanto eu estava abandonada e vulnerável.
Eu só podia pensar em uma explicação. Mas agora uma suspeita alternativa cresce dentro de mim quando começo a correr. Vejo Madame Blanchard colhendo flores perto da floresta e pergunto ofegante se ela sabe onde Adam está.
– Voltou para a cabana dele, Jess. Mas você tem de se apressar porque ele vai para Bergerac daqui a pouco.
Quando chego na cabana, meu coração está disparado. Adam abre a porta e parece tão preocupado que levo um tempo para me recompor.
– O que aconteceu? William de novo?
Balanço a cabeça.
– Não – eu bufo, recuperando o fôlego. – Ele está bem.
– Quer sentar? Parece que está prestes a cair.
– Estou bem.
– Olha, preciso estar numa reunião em Bergerac daqui a uma hora e tenho de ir agora. – Ele pega uma pilha de papéis na mesa de jantar. – Eu sinto muito, Jess, mas precisamos ser rápidos aqui.
Ele vira para enfiar os papéis na pasta.
– O que aconteceu realmente na noite em que William nasceu?
Ele fica imóvel um segundo e depois continua a arrumar as folhas de papel, ganhando tempo.
– Já tivemos essa conversa uma dúzia de vezes, Jess. Por que quer isso de novo agora?
– Você estava com papai, não estava?
Ele não olha para mim.
– Eu preciso ir. Mas teremos essa conversa depois – diz ele, sai da casa e gesticula para eu sair, fecha a porta e clica o controle das trancas do carro.
– Você estava em Manchester e encontrou papai, e alguma coisa aconteceu – continuo. – Por isso não conseguiu chegar em tempo.
Mas ele se recusa a conversar comigo e simplesmente abre a porta do carro.
– Adam, eu quero a verdade. Posso encarar isso. E não é justo... todos esses anos, se você carregou o peso de tudo isso e...
– Pare, Jess – ele diz com firmeza e levanta a mão. – Vou conversar sobre isso com você, sim. Mas preciso ir para Bergerac. Já estou atrasado.
Ele entra no carro e minha frustração aumenta. Não vou ficar ali indefesa enquanto ele vai embora e evita uma questão que esperei dez anos para resolver. Abro a outra porta e entro no carro.
– Eu vou com você. Pode me contar no caminho.
– Não seja ridícula. E quem está cuidando do William?
– Seb. Eles foram pescar.
Adam liga o motor.
– Desça por favor, Jess.
Ponho o cinto de segurança.
– Só quando você me contar o que aconteceu.
Ele olha para o para-brisa quando uma pétala azul esvoaça até o vidro. Desliza e voa dançando ao sol. Adam suspira e desliga o carro.
– Seu pai nunca me perdoaria.
– Perdoaria sim – tento tranquilizá-lo. – Aliás, ele vai perdoar, eu juro. Ele mesmo quase contou o que aconteceu, mas fomos interrompidos.
Adam balança a cabeça e uma gota de suor aparece em sua testa.
– Isso não está certo. Seria uma traição.
– Adam, você não está traindo ninguém além de você mesmo, a não ser que me conte a verdade.
Ele enche o peito respirando fundo e fecha os olhos antes de soltar o ar. E então começa a falar, revelando o que realmente aconteceu na noite que por tanto tempo foi o centro de tudo que nos separou.