Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 78
–M MAMMMMMMMMÃEMMAMMÃE. Saio da cabana e vejo Becky chegando desajeitada, com Poppy pendurada na perna, aos soluços. Becky para e pega Poppy no colo, montada com as pernas na cintura dela.
– É a Coelha Rosa – explica Becky, beijando a testa de Poppy, sem conseguir aplacar o desespero da menina. – Eu estava começando a relaxar de verdade nessas férias, mas perder a Coelha Rosa é uma catástrofe para a qual não tinha me preparado. Será que deixamos aqui?
– Acho que não – digo com simpatia, e Poppy começa a berrar.
Becky põe a filha sentada numa cadeira, vai para o lado da cabana e volta. Espia embaixo do banco, atrás da porta, embaixo das almofadas do nosso sofá e de novo atrás da porta.
– Alguém está procurando isso? – Natasha aparece na porta, segurando o brinquedo amado de Poppy.
– COELHINHA! – Poppy despenca da cadeira e corre para ela.
– Você deixou em cima da mesa no café da manhã, eu já ia levar de volta.
A tensão diminui visivelmente em Becky e ela seca a testa com as costas da mão.
– Tenho uma dívida eterna com você.
– Não tem problema. Ela estava só tirando umas férias, não é, Poppy?
– Você é uma boa menina, tia Natasha – declara Poppy, e Natasha fica surpreendentemente abalada com esse elogio.
– Oi, todo mundo.
Ben vem chegando no pátio, com o brilho do sol no cabelo claro e o perfume cítrico o acompanhando.
– Que tal darmos um passeio, Natasha?
– Ótimo – ela sorri.
Natasha e Ben vão para a floresta parecendo adolescentes e Becky segue os dois com o olhar.
– Uma pena que esses dois não possam dar certo.
– Humm. Parece que ele vai voltar para Londres e não contou para ela.
– Ah, é? – Ela fica tão surpresa quanto eu.
Faço que sim com a cabeça.
– Não consegui entender essa, e você? Fiquei pensando depois que descobri.
Olho para a mesa e vejo que chegou uma mensagem de texto para mim.
– Ah, meu Deus – gemo quando ligo o celular. – É do Charlie.
– O que ele diz? – Becky quer saber.
Dou uma lida rápida e sorrio ao mostrar para Becky.
Desculpe não ter me despedido, mas tomamos uma decisão inesperada de partir
e ficar com amigos em Carcassonne alguns dias antes de voltar para casa.
Gostei de conhecer você, Jess. Aproveite o resto da sua estada aí, Charlie bj
(p.s. joguei fora o cardigã!)
Ela devolve o celular, cobrindo a boca com a mão, e eu faço uma careta.
Mais tarde aquela noite, William saltita à nossa frente enquanto Natasha e eu caminhamos pela floresta indo para a casa de Becky e Seb. Ele carrega uma grande sacola de doces e balas e eu uma garrafa de champanhe que comprei mais cedo no supermercado. Até me vesti melhor para nossa última noite, mas só porque Natasha viu meu vestido amarelo bonitinho em cima da mala e insistiu para que eu usasse aquela noite.
E desde então, ela não parou mais de falar.
– Ben estava preocupado em contar para mim que ia voltar para Londres – ela diz animada, incapaz de esconder seu prazer. – Ele andou evitando o assunto porque achava que eu podia considerá-lo uma espécie de perseguidor, que eu acharia que ele resolveu me seguir depois do nosso namorico.
– Pelo que Adam diz, ele já planejava mudar para lá quando a temporada terminasse. Imagino que vocês combinaram de se encontrar quando voltarem, é isso?
– Vamos nos encontrar para um drinque, sim. – Um sorriso se espalha no rosto dela. – Ah, ainda acho que ele é jovem demais...
– Mas você gosta dele e ele gosta de você.
– Bem, sim – ela diz, meio tímida.
– Natasha, eu sei que você procura o Homem da Louça Habitat, mas você e Ben têm química, com ou sem diferença de idade. E nunca se sabe... talvez um dia vocês dois comprem pratos juntos.
– Um passo de cada vez, Jess.
Reprimo um sorriso.
– Tenho certeza de que essa fala é minha.
Nessa última noite curtimos um churrasco. Um final que combina com o verão, um jantar tranquilo como tantos outros que tivemos nas últimas duas semanas. Em que as crianças jogam Frisbee, os adultos jogam cartas e todos podemos relaxar na companhia de bons amigos. Amigos leais, engraçados, que podem discutir, mas que amo mesmo assim.
Ao chegar, encontramos o ar permeado pelo cheiro fumacento do churrasco, as brasas brilhantes esquentando o rosto de Seb, que conversa com Ben.
– Ah, droga, esqueci as linguiças – eu lembro e bato na testa.
Becky segura meu braço antes de eu dar meia-volta.
– Você não precisa das linguiças.
– Mas elas são artesanais – reclamo.
– Não importa.
– Importa sim... custaram uma baba. Estou convencida de que foram feitas com os porcos mais privilegiados da França.
Natasha passa o braço pelo meu ombro.
– Você não precisa das linguiças, nem do champanhe de supermercado, nem de nada. Não no lugar para onde está indo.
– Do que você está falando?
– Você vai embora – ela responde.
– Não vou.
– Acho que vai.
Então de repente Adam aparece na minha frente, com as chaves do carro na mão. Está de camisa preta com o primeiro botão desabotoado, calça preta de cintura baixa e o cabelo ainda despenteado do banho. Tem o tipo de beleza que faz você prender a respiração.
– O que está acontecendo? Isso é alguma conspiração?
– É! – exclama William, e percebo que não tenho a menor chance.
Sentada no banco do carona no carro de Adam, ainda não sei para onde vamos, nem por quê. Só penso que ele sempre teve a capacidade de me encantar, de me surpreender, de incendiar meu coração.
– Eu desisto. Para onde está me levando?
Ele olha de lado.
– Vamos explorar uma caverna.
– Espero que isso seja uma piada de mau gosto – comento.
Ele dá um sorriso luminoso.
– É uma piada de mau gosto.
Dou risada.
– Ainda bem.
O carro de Adam desliza pelo campo, eu desligo o ar-condicionado e abro a janela, fecho os olhos enquanto a brisa acaricia minha pele.
– Você está bem? – pergunta Adam.
Ele estende o braço para tocar na minha mão, mas para e não encosta em mim.
– Estou bem, obrigada.
– Chegamos – diz ele.