Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 68
S abendo que o mundo não tinha acabado na outra vez, Becky concorda de novo em deixar os filhos comigo e com Natasha no dia seguinte.
– Mamãe e papai vão namorar de novo? – pergunta James.
– Eles vão é tirar uma soneca – responde Natasha.
– Por que iam querer isso? Dormir é chato.
– Os dois estão acordados desde quinze para as seis, por isso acho que não concordam com você – digo para ele.
Poppy reclama do desaparecimento dos pais com uma explosão de lágrimas que cessa no segundo em que eles desaparecem. Agora ela está com William, já completou quatro quebra-cabeças, leu duas histórias e soluçou de tanto rir com um episódio de Os Simpsons no iPad, como se não tivesse noção do que está acontecendo.
Os dois meninos mais velhos também estão bem, só que há uma certa confusão quando Rufus tenta contar para nós alguns detalhes da visita que fizeram a Domme ontem.
– Mamãe comeu uma creca – ele diz muito sério.
– Não comeu não – zomba James.
– Comeu sim! Uma bem grande e disse que gostou tanto que queria outra na mesma hora.
– Mentiroso – resmunga James.
– Não sou! Você também comeu uma, com sorvete de morango em cima.
– Você quer dizer... crêpe? – deduz Natasha.
– É. Uma creca. Estava uma delícia.
Depois de uma hora o azul brilhante do céu e o sol alto nos chamam para a piscina. O calor está menos sufocante do que ontem, o ar mais fresco e claro e permeado do perfume das pequenas flores verde-limão que cascateiam dos vasos ao longo das paredes do château.
William, sem tirar os óculos de natação embaçados, brinca na água com Rufus e James. Eles se divertem arremessando boias espaguete e apostando corrida para pegá-las.
Natasha, enquanto isso, está deitada de frente com seu biquíni amarrado no pescoço e os dedos dos pés pintados de vermelho sobre a espreguiçadeira, tomando chá com Poppy em um regador minúsculo e dois copinhos.
Quando Ben aparece para tirar os copos da nossa mesa, ela olha para ele e sorri. Os dois parecem quase tímidos na presença um do outro. É bonitinho e uma tortura de ver: os dois estão loucos para falar qualquer coisa.
Felizmente, William sai da piscina e chapinha até eles para acabar com aquele sofrimento, quebrando o silêncio.
– Vocês sabiam que o papagaio pode ver o que tem atrás dele sem mexer a cabeça?
Os dois dão risada.
– Eu sabia sim – Ben diz para ele.
– Você fez veterinária, não fez? – pergunto.
– Fiz. Mas não lembro de saber esse tipo de coisa na sua idade, William.
– William é muito inteligente – diz Natasha. – Ele está numa lista de Brilhantes e Talentosos de matemática.
– Dotados e Talentosos – corrijo, mas nenhum deles presta atenção e William já está voltando para a piscina.
Pego um copinho e pergunto se Poppy pode encher para mim, assim deixo Natasha livre para conversar com Ben.
– O que vocês vão fazer no resto dessa semana? – Ben pergunta.
– Estamos meio sem ideias – responde Natasha, sentando com as pernas cruzadas. – O que você faz nos seus dias de folga, alguma coisa que possa recomendar?
– Normalmente vou de carro até o Lac Du Causse. Dá para esquiar lá.
– Ah, eu adoro esquiar. Aprendi no Caribe uns dois anos atrás, mas não esquiei mais depois disso. Devo estar enferrujada agora.
– Eu aprendi no norte de Gales. Bem mais charmoso.
Eles batem papo até acabar o assunto e Ben simplesmente olha para ela e declara:
– Se estiver interessada, posso levá-la lá amanhã. É meu dia de folga.
Por um instante me convenço de que ela vai recusar, por todos os motivos que me deu assim que chegamos. Porque ele é jovem demais, porque vive na França, porque não pode levar ao capítulo significativo da vida que ela procura.
Mas quando a luz dourada do sol cobre a pele dele e uma brisa brinca com os cheiros do verão em volta de nós, há mágica demais naquele lugar para dar ouvidos à razão.
– Seria muito bom.
O sorriso dele ilumina o rosto todo.
– Ótimo. Pego você às dez.
Ele se afasta e ela suspira.
– Sou minha pior inimiga.
– Eu não me preocuparia com isso – respondo.
– Bem, mas eu me preocupo. Ele é uma graça, mas não vou acabar escolhendo porcelana da Habitat com ele.
– Quando chegar sua hora de se apaixonar, você encontrará seu cara da porcelana da Habitat, Natasha. Mas não pode forçar as coisas. Enquanto isso, se eu fosse você, simplesmente curtiria o esqui.
– Mamãe! – Poppy exclama, e vemos Becky e Seb vindo na nossa direção, de mãos dadas e dedos entrelaçados.
– Estou me sentindo uma nova mulher – Becky abre um sorriso largo e se abaixa para beijar Poppy. – Tinha esquecido o luxo que é tirar uma soneca à tarde.
– Agradeço demais isso, vocês duas. Foi um presentão. Nós estávamos quebrados – Seb acrescenta tirando a camisa para pular na piscina com os meninos.
As feições de Becky viram um bocejo, ela puxa uma espreguiçadeira devagar e mal termina de passar o filtro solar de amêndoas já está dormindo tão profundamente que suas pálpebras tremelicam e adejam com sonhos.
Natasha dá um tapinha na minha coxa e se debruça para cochichar:
– Becky desmaiou. Você acha que estavam mentindo quando disseram que passaram aquele tempo de folga dormindo?
Escondo um sorriso e cochicho de volta:
– Espero que sim.