Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 71 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 70

 

 

A porta ao lado do meu pai se abre e uma das enfermeiras inclina a cabeça na frente da webcam. Tem cerca de cinquenta anos, usa um crachá com um nome que não consigo ler e, como não a reconheço, só posso presumir que deve ser nova.

– Susan já saiu do banho, Martin – diz ela para papai.

– Ah, sim. Está bem.

Ele larga o tablet para abrir a porta. Vejo a tela fora de foco quando empurram a cadeira de rodas de mamãe para o quarto dela e duas enfermeiras ajudam-na a deitar na cama.

Quando ela está acomodada e papai segura a telinha para poder me ver, mamãe não parece nada confortável. Está toda dura e torcida, braços e pernas como galhos de árvore.

– Estou com Jess na linha, amor – ele diz para ela. – Você queria bater papo?

Ela responde com o som conhecido que sei que significa sim. Fora o fato de estar deitada, parece igual à última vez que a vi. É claro que igual à ultima vez não é muito bom.

– Como você está, mamãe?

Ela rola a cabeça e não responde.

– Estou...

Mas a voz dela some antes mesmo de começar a frase. Espero um pouco para ver se vai falar mais alguma coisa, mas ela não fala.

– Mamãe, vou voltar para casa mais cedo. Tudo correu muito bem com Adam e William e... acho que fiquei fora tempo demais – explico. – Teria ido para casa antes até, mas William quis ficar e foi ele que me persuadiu. Mas vou ter de conversar com ele de novo. Porque ele só tem dez anos e não cabe a ele decidir. Eu precisava ter voltado há muito tempo e...

– Não.

Paro de falar quando mamãe se contorce, depois da exclamação:

– Não faça isso.

– Não faça o quê? Voltar antes? Mas eu quero, mamãe.

Ela fica calada um tempo, abaixa a cabeça e abre a boca. Meu peito aperta quando ela tenta falar. Mas primeiro é só silêncio, meu estômago se enrosca descontrolado e a boca da minha mãe se recusa a obedecer aos seus desejos.

Então ela finalmente fala, o som rouco e baixo como tem sido esses dias, mas entendo muito bem:

– Lembre.

– De quê, mamãe?

– Do q... eu disse.

Papai estende as mãos e acaricia o braço dela, aperta de leve com as pontas dos dedos em sinal de apoio e carinho.

– O que quer dizer, amor?

Mas as lembranças já estão borbulhando em mim. Eu sei do que ela está falando. Não precisa dizer mais nenhuma palavra.

 

Comemoramos o aniversário de quarenta e oito anos de mamãe no Venice-Simplon Orient Express. Foi uma viagem de apenas um dia, mas mesmo assim quase me deixou falida – eu jamais conseguiria ir até Veneza sem ganhar na loteria.

Valeu cada centavo vê-la com seu vestido preferido de seda com bolinhas entrando naquele trem vintage charmoso. A experiência foi tudo que desejei: luxuosa e inesquecível, num ambiente que era a epítome da elegância, com cortinas de Damasco estalando de novas, painéis de madeira opulentos, toalhas de mesa mais brancas do que a neve. Enquanto o trem cortava os campos ingleses, jantamos lagostas bem temperadas e bebemos champanhe.

Sim, as pernas dela bambearam quando subiu os degraus, como se não conseguissem suportar o próprio peso. Sim, ela se contorceu e balançou e as pessoas ficaram olhando quando eu passei o champanhe da flûte de cristal antiga para seu copo de plástico para bebês.

Aquela altura ela já estava dominada pela doença... mas naquele dia não tinha importância.

A equipe de comissários foi maravilhosa. Eu tinha ligado antes de sairmos para informar o estado de mamãe e fizeram todo o possível para tornar seu dia muito especial.

Ela adorou cada segundo. O trem, a comida, estar comigo.

Mesmo assim, houve um momento quase no fim em que ela quis dizer uma coisa que eu precisava lembrar para sempre.

– Crie para você todos os momentos como esse que puder, Jess – ela disse para mim. – Quando a vida for dura, como será para todos nós, você terá uma obrigação para você mesma. Viver sem arrependimentos.

A emoção cresceu no meu peito, mas ela não queria que eu dissesse nada. Queria que eu apenas ouvisse.

– Você pode achar que eu devia ter muitos arrependimentos, Jess, mas não tenho nenhum. Casei com um homem que amo e tenho uma filha que adoro, e tenho a sorte de ter passado muitos anos com os dois. – Ela segurou a minha mão. – Eu não estou morrendo da doença de Huntington.

Levantei a cabeça de estalo.

– O que quer dizer?

– Estou vivendo com isso – ela disse. – Existe uma diferença. Estou vivendo como se cada dia fosse o último. E até as coisas ficarem realmente feias, é o que pretendo fazer. Penso em tudo de bom que existe à minha volta e não no que tenho pela frente. Faço tudo que gosto, só por fazer. Vou nadar no mar. Fazer bolos. Dançar mais.

Ela hesitou.

– Mas você precisa lembrar de hoje e do que estou falando agora. Não importa se as coisas ficarem muito ruins para mim – não importa o que acontecer com você – você ainda tem muita vida para viver. Lembre-se disso, Jess. Se quiser alguma coisa, vá atrás dela. Apenas faça.

 

Agora, olhando para a tela, lágrimas escorrem no meu rosto em riscos quentes e grossos, e faço que sim com a cabeça.

– Eu lembro, mamãe.

Espero o sorriso dela, sedenta de outro momento de conexão. Mas ela vira para o lado com os olhos vazios de novo e meu pai afasta as mechas macias de cabelo e beija o rosto dela com ternura.