Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 37 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 36

 

–E stá tudo bem – papai diz, e eu tinha aprendido que é o que ele diria se estivesse no Titanic com violinistas em volta. – Levamos apenas um susto essa manhã.

Meu coração acelera.

– O que quer dizer?

– Não precisa entrar em pânico, mas hoje estivemos no hospital. Por precaução, e já estamos de volta. O que importa é que ela está bem.

Meu pescoço esquenta e meia dúzia de perguntas povoam meu cérebro. O que aconteceu? Por que foram para o hospital? Onde ela está agora?

– Sua mãe engasgou no café da manhã. – Ele olha para cima, mas rapidamente, como se evitasse ver minha reação. – Raheem estava aqui e conseguiu resolver tudo, cuidar dela. Ligaram para o meu trabalho e quando cheguei na emergência estava tudo sob controle. Ela está totalmente bem, de verdade. Um pouco deprimida, mas basicamente bem.

Não é a primeira vez que isso acontece. Antes de começarmos a amassar a comida da mamãe, eu vi com meus próprios olhos. A visão do rosto dela ficando cinza, os lábios azuis e ela se esforçando para respirar não é algo que eu queira ver de novo. O Dr. Gianopoulos acha que ela devia começar a se alimentar por um tubo, mas ela assinou um documento anos atrás, uma Decisão Adiantada de Recusar Tratamento, que significa que isso jamais vai acontecer.

– Está tudo bem, Jess – diz papai, preenchendo o silêncio. – Foi só uma dessas coisas. Temos de tomar cuidado daqui para frente, só isso.

– Acho que eu tenho de voltar para casa – decido naquele instante.

– Não. De jeito nenhum. – Ele balança a cabeça. – Está tudo bem agora. Eu nem ia contar para você, mas achei que você ia ficar furiosa se não contasse.

– Você pensou certo. Vou procurar um voo hoje à tarde.

Papai olha sério para mim.

– O que você acha que sua mãe diria se soubesse que você está pensando em fazer isso? – ele diz suavemente. – Ela já teve um dia ruim sem isso.

Solto o ar bufando e só então percebo que estava prendendo a respiração.

– Ela está aí agora?

– Espere um minuto.

Ele anda pelo corredor e abre a porta do quarto em que mamãe está sentada na cadeira de rodas, sem assistir à novela australiana na televisão.

Papai segura o iPad na frente dela e faço a habitual avaliação da aparência da minha mãe. Objetivamente, ela provavelmente não está melhor nem pior do que quando eu saí de lá. Mas isso não quer dizer grande coisa.

Braços e pernas estão em posições que parecem desconfortáveis, o lábio inferior pendendo um pouco, como se puxado para baixo por um peso invisível. A pele adere flácida aos ossos, o tipo de corpo que aparenta não ter energia suficiente nem para se mexer. Mas ela não para de virar o rosto para o céu.

– Papai contou o que aconteceu, mamãe. Você está bem?

Um segundo e vários espasmos passam antes dela responder com um grunhido.

– Merda de torrada.

Não consigo sorrir.

– Mingau de aveia da próxima vez – ela acrescenta.

– Sim, boa ideia.

Eu quero falar um monte de coisas para a minha mãe. Que eu a amo, que meu coração explode por ela, que faria qualquer coisa para ela ser a mulher feliz e saudável que seria se não fosse aquela doença horripilante.

Mas só de pensar nessas coisas minha garganta se fecha.

– Está... bom aí? – ela pergunta.

Cada palavra exige um esforço e mesmo assim não dá para saber como vai soar. O maxilar dela se move de um jeito diferente de antes, emitindo sons baixos e estranhos.

Procuro me recompor.

– Sim, está, mamãe. Adam fez um belo trabalho no lugar e William está curtindo demais o tempo que eles passam juntos.

Ela fica calada um tempo e olho para as saboneteiras dela, que apontam acima da gola da blusa azul-claro. Eu comprei essa blusa na Oasis para dar de presente de aniversário para ela mais de uma década atrás. Lembro que na época pensei que o tamanho 40 podia ficar pequeno. Agora ela some dentro da blusa, seus seios um dia volumosos são costelas visíveis torcidas em posições torturantes.

– William... aí?

– Não, ele está na piscina, mas posso chamá-lo.

– Não – ela balbucia. – Hoje não.

– Está bem. Então amanhã, talvez.

Mas ela não responde. Simplesmente se contorce na cadeira, os músculos faciais transformam suas feições em algo irreconhecível e exagerado. É uma visão que sei que vai retornar quando eu olhar para meu próprio rosto no espelho do banheiro, e sou assolada por um medo gelado.