Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 78 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 77

 

 

N a nossa penúltima noite na França, William caminha ao lado do pai na estrada de terra e chegamos à colina baixa de um parreiral todo roxo de uvas maduras.

– Sabia que se comer o fígado de um urso polar você morre de overdose de vitamina A? – diz William.

– Todo mundo sabe disso – zomba Adam.

William abre a boca.

– Estou zoando. O que mais você sabe?

– Humm... Sei de onde vem a meleca.

Solto um grunhido.

– Está bom, o que você sabe? – William sorri de orelha a orelha para mim.

O céu promove um espetáculo essa noite, o horizonte banhado em rodopios de luz rosa e laranja, entremeados por fiapos brancos.

– Os pais de Shakespeare eram analfabetos – digo para ele. – Caracas é a capital da Venezuela. Humm... e eu sei abrir espacate.

– Então faz aí – sugere William.

– É melhor não. Porque estamos aqui e não quero escandalizar ninguém.

Chegamos à pequena aldeia e seguimos Adam até o bistrô. Ele reservou uma mesa do lado de fora com vista para um pátio de pedra coberto de madressilvas, entre uma igreja bizantina e belas casas. O restaurante já está bem movimentado. Adam puxa uma cadeira para mim e eu sento.

– Por que você fez isso? – pergunta William.

– Porque é o que se deve fazer para uma dama – responde Adam.

William parece perplexo, como se jamais tivesse passado pela cabeça dele que eu pertencesse a essa categoria. O garçom chega e anota nosso pedido de vinho e comida, depois pergunta se queremos mais alguma coisa.

– Je voudrais L’EAU, s’il vous plaît.

Ele faz que sim com a cabeça e escreve no seu bloco de pedidos. Olho para Adam atônita.

– Agora posso ir embora feliz.

– Você está quase fluente.

William pede licença para ir ao banheiro e fico um tempo a sós com Adam. Constrangida, como se não soubéssemos o que falar. Em parte, porque só temos um minuto até William voltar, e em parte porque nenhum de nós quer falar de qualquer coisa mais difícil agora. Já tivemos a nossa cota de coisas difíceis.

– Bem, Natasha certamente vai sentir falta daqui quando for embora.

– Todo mundo leva um tempo para se readaptar ao clima e à comida inglesa...

– E no caso de Natasha, tem o Ben.

O sorriso dele enruga os cantos dos olhos, um pouco mais do que antes.

– Tenho certeza de que ele vai entretê-la bastante em Londres.

– O que quer dizer?

– Imagino que vão se ver lá, não é?

– Mas Ben vai ficar aqui.

– O contrato dele termina em outubro, por isso ele volta para casa à procura de outro emprego – diz Adam.

Franzo a testa.

– Acho que ele não comentou isso com Natasha.

– Estranho. Talvez ele tenha esfriado com ela. Acontece, mesmo com os melhores.

Quando William reaparece e senta, Adam cutuca e despenteia o cabelo dele, que se esquiva, rindo.

– Vou sentir saudade, você sabe.

William olha para ele aflito.

– Você vai mesmo mudar para Manchester, não vai?

– Vou. Volto para casa daqui a três meses e nada vai me deter. Você vai enjoar de mim quando chegar o Natal.

– Quer dizer que vai poder passar o Natal conosco?

Nós nunca chegamos tão longe na conversa sobre coisas práticas.

– Falaremos disso quando chegar mais perto, está bem? – diz Adam.

– Mas tenho certeza de que faremos alguma coisa juntos – tranquilizo William. – E com vovó e vovô também, claro.

William abaixa a cabeça e olha para a toalha de mesa.

– Vovó ainda vai estar viva no Natal?

A pergunta arrepia meus pelos da nuca.

– Claro que vai. Vovó está doente, mas ela não vai... a lugar nenhum até o Natal – termino a frase com uma meia risada, como se até pensar nisso fosse ridículo.

– Está bem – William diz baixinho. – Mas o que ela tem vai matá-la, não vai?

– Espero que vovó fique conosco ainda um bom tempo – digo sem muita convicção.

William não responde logo.

– É síndrome de Huntings, não é? É isso que a vovó tem.

Ele olha diretamente para mim e pisca os olhos enquanto espera a resposta. Meu coração acelera.

– Doença de Huntington – corrijo. – Como soube disso?

– Estava na sua busca no iPad. Eu sei que é por isso que você anda tão preocupada ultimamente. Procurei no Google.

Sinto o sangue fugir do rosto. Isso era exatamente o que eu temia, mas tinha me convencido de que ia me safar dessa e que ele ainda não sabia de nada. Mal posso acreditar que depois de todos aqueles anos me preocupando com o tipo de coisa horrível que William poderia ver na internet, a pior que ele tinha encontrado talvez estivesse no site da New Scientist.

Adam parece tão despreparado para aquela conversa quanto eu. E ele ao menos tem uma desculpa. Acabou de saber disso, essa semana. Eu tive dez anos para preparar um discurso para William e fracassei completamente.

– Você também tem isso, mamãe?

Minha boca fica insensível quando tento formar as palavras.

– Eu não tenho, querido. No momento estou muito bem.

– Está bem.

– Mas... eu tenho o gene defeituoso que provoca isso – acrescento. – Por isso um dia eu terei isso, sim.

Vasculho o rosto dele à procura de qualquer sinal de reação.

– E eu posso ter também, não é?

Engulo em seco e me esforço para fazer minha boca funcionar direito de novo.

– O gene defeituoso? Sim, pode ter. Mas também pode não ter. E mesmo se tiver, a probabilidade é que não desenvolva Huntington por muitos e muitos anos.

– Eu sei. A idade média é quarenta anos. Muito velho. – Mordo a bochecha por dentro e ele continua: – Mas acho que não tenho.

Faço que sim com a cabeça e sinto lágrimas ardendo no fundo dos olhos.

– Por quê?

Ele sacode os ombros.

– Otimismo.

Sinto um aperto no peito, mas me recuso a deixar as lágrimas virem. Recuso-me a fazer qualquer coisa além de não desmoronar. Mantenha as comportas fechadas, Jess. Não deixe que abram.

– Eu realmente acho que você não precisa se preocupar, mamãe – William continua, tão animado que não sei se aguento olhar para o brilho nos olhos e para a pele lisinha das bochechas dele. – Os cientistas estão trabalhando numa cura. Devem descobrir logo alguma coisa. Fazem pesquisas em San Diego e em Londres e já testaram drogas em camundongos. Claro que deve ser muito ruim se você é um rato. Mas, em alguns casos, fizeram os animais doentes melhorar. Então se isso acabar funcionando em seres humanos também, valerá a pena.

Não consigo soltar o ar dos pulmões, por isso apenas meneio a cabeça.

– Eu posso me tornar cientista quando for mais velho e descobrir a cura para isso, se ainda não tiverem encontrado.

– Isso seria ótimo, William.

– Mas ainda posso querer ser modelo – ele completa, como se dissesse, não se encha de esperanças.

Adam olha para mim.

– Não estou com medo, mamãe – William prossegue.

Não sei se ele instintivamente sabe o que eu preciso ouvir, mas ele sabe.

– Ótimo. Eu também não – respondo com tanto esforço que, no breve intervalo antes de o garçom aparecer com nossos pratos, realmente acredito nisso. O que estou é morrendo de fome.

Pego minha faca e meu garfo e começo a cortar o peito de pato, concentrada no que tenho no prato e não em Adam. Sei que ele está implodindo em silêncio ouvindo aquilo, o filho e eu, falando da nossa maldição com os termos mais crus. Meu destino já está selado. Entre nós, só podemos rezar para que seja mais misericordioso com William.

– Mas papai – diz William –, você ainda não contou o que você sabe.

Adam acorda do transe.

– Ah. Ah, é, você tem razão. Está certo. – Ele pensa um pouco. – Eu sei que a fala “estou com um mau pressentimento sobre isso” aparece no filme Guerra nas Estrelas.

William fica impressionado.

– Eu sei que os papagaios-do-mar fazem parceiros para toda a vida.

Ele franze o nariz, menos impressionado.

– E eu sei também... – a voz de Adam falha e ele olha para mim. – Eu sei que você e sua mãe são as duas pessoas mais maravilhosas do mundo.