Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 72
A dam tinha estado em Manchester aquela noite, terminando o dia no Bush Bar. E Georgina também. – Eu não lhe contei que tinha combinado de encontrá-la porque sabia que você achava que havia alguma coisa entre nós – diz ele. Ainda mais porque ela tinha terminado o namoro recentemente... achei que você não ia entender. Mas essa é a verdade. Ela estava arrasada depois de terminar com Johnny. Não era só tristeza pelo fim do namoro, era mais do que isso. Ela estava seriamente deprimida... à beira de uma crise.
– Pensava que você tinha dito que ela estava melhor sem ele.
– Ah, estava sim, mas naquele momento ela não conseguia ver isso. Ele a traiu pelo menos duas vezes e tirou tudo que ela havia economizado. Por algum motivo louco, ela o queria de volta.
Adam me conta que Georgina telefonou para ele aquele dia, arrasada e determinada a implorar para o ex-namorado voltar. Adam a convenceu de encontrá-lo para um drinque no Bush Bar, onde sabia que estaria com os colegas de trabalho. Às dez horas, ela ainda não tinha aparecido e Adam estava desesperado para voltar para casa, mas ficou lá por ela, sóbrio e cercado de amigos com seis canecas de cerveja de dianteira.
Ele mandou uma mensagem de texto para mim, para saber se estava tudo bem, e eu disse que ia para a cama. Nas nossas últimas mensagens trocamos simples boas noites e eu te amo que interpretei anos a fio como atos mecânicos.
– Quando Georgina finalmente apareceu, ela estava caindo de bêbada – continua ele. – Estava com outras duas mulheres, amigas dela, que eu não conhecia. Elas tinham resolvido arrastá-la pelo Northern Quarter para afogar as mágoas com bebida e se jogar nos braços de qualquer cara que aparecesse no seu caminho.
Georgina chorou, agiu com vulgaridade e indiscrição e isso bastou para Adam concluir que, apesar de toda a valentia da boca para fora, a alma frágil da amiga tinha problemas sérios. Por isso ele não recuou horrorizado quando ela o abraçou e disse que só queria ser abraçada.
– Eu fiquei meio... paralisado. Só quando ela começou a beijar o meu pescoço é que tive de afastá-la. Não havia como ser sutil naquele momento.
Adam engoliu em seco.
– Ela ficou mortificada.
Georgina saiu noite adentro, ardendo de vergonha e um pouco menos bêbada do que precisaria estar para fingir que aquilo não tinha acontecido. Uma das amigas correu atrás dela e Adam viu da porta do bar quando as duas entraram em um táxi. Ele foi embora depois disso, exausto com a noitada e louco pelo calor da cama dele. Ele conta que andou pelas ruas encharcadas de chuva, a roupa toda molhada de água suja, e que acelerou para chegar ao estacionamento. Estava quase lá quando viu um homem sendo expulso do Northern Tap.
– Assim que vi, desviei dele – diz Adam. – Ele estava péssimo.
– Bêbado?
Adam faz que sim com a cabeça.
Imagino um homem que poderia ser qualquer velho de porre: agressivo, mas vulnerável, indignado com a agressão.
– Então ele caiu no chão e começou a fazer uns barulhos horríveis. Eu não podia deixá-lo lá. Então me abaixei para tentar ajudar. Pensei em ligar para uma ambulância, tentei rolá-lo de barriga para cima e foi aí que percebi que conhecia aquele casaco.
Meu coração dá uma cambalhota quando reinterpreto a frase dele.
– Você quer dizer que conhecia o homem.
Adam leva um segundo para menear a cabeça e confirmar o que eu já sabia. Que o velho bêbado rolando na chuva era meu pai.
Que não tinha tocado em bebida havia anos e cuja sobriedade foi – para mim e para minha mãe – fonte de muito orgulho e alívio.
– Tentei acordá-lo, mas ele começou a me empurrar. Ele não sabia que era eu. Ele estava... desorientado.
Adam escolhe as palavras com muito cuidado, mas nem é necessário. Consigo visualizar cada detalhe.
– Lembrei de todas as histórias que você contou, de como ele era quando você era pequena. Mas aquilo foi demais para mim. Nunca tinha visto seu pai daquele jeito.
Tinham expulsado papai do bar porque ele vomitou em cima do balcão. O mais preocupante é que tinha caído sobre o braço. Adam estava convencido de que tinha fraturado um osso.
Ele ficou em pânico, a mente acelerada, mas não ia mesmo ligar para a namorada em final de gravidez, que já estava na cama com o filho dele dentro da barriga.
Por isso ele correu de volta para o Bush Bar e agarrou Chris, o único colega vagamente sóbrio que tinha sobrado.
– Conseguimos enfiar seu pai no banco de trás do meu carro e levei-o para o hospital. Ele estava muito mal... Eu implorava para ele ficar acordado, berrava com ele e tentava fazer com que reagisse. Pensei que ele ia...
– Você achou que ele estava em coma alcoólico?
Ele faz que sim com a cabeça.
A equipe da emergência era profissional à exaustão. Já tinham visto tudo, todo sábado à noite.
Quando papai finalmente recuperou a consciência, ficou apavorado, quase histérico, agarrou a mão de Adam e implorou para ele não ir embora.
– E foi bem no meio disso tudo que percebi que meu celular tinha ficado sem bateria – ele conta, desolado. – Eu me esforcei para manter a calma. Fiquei pensando que, se havia alguma chance de você, Jess, entrar em trabalho de parto, teria dito alguma coisa na última mensagem de texto. Pensei em usar o celular do seu pai, mas para isso teria de explicar por que nós dois estávamos juntos. Eu já tinha imaginado que Martin não ia querer que ninguém soubesse disso. E o mais importante... eu não podia sequer imaginar como você ficaria se soubesse o que estava acontecendo.
Ele sabia que ia partir meu coração, era assim que eu ficaria.
– O braço do seu pai estava muito machucado, mas não quebrado. Quando finalmente saímos do hospital horas depois, o que ele mais precisava era de um lugar para tomar um banho. Então fui para a casa de Chris. Eu não podia levá-lo para casa com a sua mãe naquele estado, não sem antes torná-lo apresentável. Quando estávamos no carro, seu pai ficou... ele ficou perturbado. Começou a chorar copiosamente. Eu só dizia para ele: “Você vai ficar bem, Martin. Vai se sentir muito mal, mas vai sobreviver.”
Mas aquilo ia além de se sentir mal, e eles dois sabiam.
– Quando paramos na frente da casa de Chris, ele agarrou meu braço. E me fez jurar que jamais contaria para você. Nem para você nem para ninguém. Prometi que não contaria. Disse que ele não precisava se preocupar, que aquilo ficaria só entre nós para sempre.
Eram quase sete horas da manhã quando Adam enfiou papai no chuveiro. Então ele foi para a cozinha do Chris e carregou seu celular. E o aparelho ganhou vida pela primeira vez desde as dez horas da noite anterior.