Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 59
A questão de saber se eu podia ou devia marcar uma saída adiantada da França domina meus pensamentos o resto do dia. Mesmo estando distraída com a cabana cheia de crianças para tomar conta.
– E então, Poppy – diz Natasha, na ponta do sofá –, que tal uma história?
Poppy levanta a cabeça.
– Eu fome.
– Ah. Tudo bem, você quer uma banana?
Natasha pega uma do pote.
– Quero bala.
– Ai, não tenho nenhuma. Que tal isso então? Mmmm... delícia.
Natasha ajoelha e descasca a banana, depois dá para Poppy. Poppy olha para a fruta como se tivesse sido raspada na sola do sapato dela.
– NÃÃÃOOO! – Ela devolve para Natasha. – Põe de volta!
– Põe o que de volta?
– DE VOLTA DE VOLTA DE VOLTA!
Poppy se joga no chão.
– O que ela quer? – pergunta Natasha atônita.
James desvia o olhar da imagem que está colorindo.
– Ela quer que você ponha de volta a casca na banana.
Passam-se dez minutos até Poppy se acalmar e Natasha servir uma taça de vinho para cada uma de nós.
– Posso perguntar uma coisa? – digo quando ela me dá a taça e senta.
– Isso parece sério. – Ela sorri, mas não consigo retribuir.
– Como você se sentiria se William e eu voltássemos para casa mais cedo?
Natasha respira fundo e solta o ar como se aquilo não fosse surpresa.
– Eu me sentiria péssima, porque fui eu que a convenci de vir para cá – continuo –, mas você ainda teria Becky e Seb, e poderia se dar bem com Joshua sem a gente aqui para atrapalhar. A última coisa que eu quero é deixá-la para trás, mas...
Ela balança a cabeça.
– Você não vai me deixar para trás, Jess, eu sou bem crescidinha. Está preocupada com o que aconteceu com Adam? Ou será que quer voltar para perto da sua mãe?
– As duas coisas. Sei que mamãe tem papai lá com ela, mas mesmo assim... Além disso, é verdade: não acredito no que fiz com Adam, bêbada ou não. Está tudo muito complicado aqui.
Ela olha para as crianças e verifica que estão fora de alcance, então se inclina para mim.
– Entendo a sua preocupação, Jess. Adam troca de mulheres como eu de calcinhas, e você se preocupa que a mesma coisa possa acontecer com você, e que seria horrível para William. Mas...
– Mas o quê? – cochicho.
– Você não é qualquer mulher.
– Tecnicamente sou.
– Você sempre foi mais do que isso para ele.
Fico imaginando aonde ela quer chegar.
– E se a coisa funcionasse para vocês? – ela continua. – E se vocês conseguissem resolver as diferenças que levaram à separação...
– Não foram diferenças que nos separaram, Natasha. Foi o tesão incontrolável de Adam. Além do mais, não ia funcionar. É ridículo até pensar nisso.
Ela se recosta e desafia:
– Por quê?
– Por onde começo? O fato de não termos conseguido ficar juntos na primeira vez. O fato de Adam e eu transando por aí ferrar a cabeça do William.
– É, mas...
– E mais do que tudo isso junto... vezes um milhão – continuo convicta –, é que... estou encarando um futuro com uma doença fatal.
Ela afunda no sofá.
E em vez de reclamar, de tentar me convencer a entrar de cabeça porque não tenho nada a perder, ela entende que não pode fazer isso comigo. Outras amigas, sim. Mas não comigo. Quase consigo ver a cabeça dela cheia de pensamentos sobre o que a próxima década reserva para mim.
– Não é uma coisa que eu possa sequer contemplar, Natasha – continuo falando baixo.
A vontade de chorar parece crescer dentro dela, forte e rápida.
– Por isso acho que seria melhor para todos se eu fosse para casa.
Ela vira para a parede e bebe o vinho em silêncio.
– Não é justo, Jess.
Aperto os dedos dela, que ainda estão frios de segurar a taça.
– Não é não. Mas foi o que me deram.
Olho para as crianças e Natasha engole as lágrimas para se recompor antes de elas perceberem qualquer coisa.
– Tudo bem, eu entendi – ela continua. – Mas não fuja, Jess. Você vai acabar em casa, sozinha, sem mim e sem a Becky para dar apoio. E nós queremos fazer isso, você sabe. Foi por isso que viemos.
Olho para a luz faiscando na borda da minha taça.
– Além disso, William ficaria arrasado.
Sorrio para ela.
– Jogo baixo.
– Mas é verdade – ela argumenta.
– Você tem razão, mas ele supera.
Nós duas viramos para olhar para William, que agora brinca com Poppy, ensinando a ela como soletrar “GATO”.
– B-C-T-R-P-E-D-G – declara ela.
– Ah, muito bem! – diz William.
Natasha e eu damos risada, depois ficamos em silêncio. E aí ela fala uma coisa que deixa meu coração apertado:
– Você ainda ama o Adam, não ama?
Abro a boca, mas depois não digo palavra.
Porque nós duas já sabemos a resposta.