Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 44
N atasha abre a porta da cabana ao me ver chegando. – O temporal pegou você? – diz ela horrorizada. – Imaginei que fosse ficar no château até passar.
– Esse seria um plano melhor mesmo – resmungo e me sacudo toda, como um labrador molhado.
– Você pegou? – pergunta William humildemente, sentado no sofá.
– Peguei – respondo e lanço para ele um olhar de reprovação. – Mas preciso secar muito bem e verificar se sobreviveu à experiência antes de deixar que você ponha as mãos nele de novo. Só que primeiro vou tirar essa roupa molhada.
Vou para o quarto, seco rapidamente o iPad, deixo na cama e tiro minha blusa, com a pele toda arrepiada de frio. Ainda estou zonza com o que tinha acabado de acontecer. Pego uma calça jeans, uma camiseta e começo a secar o cabelo com uma toalha. Sento na beirada da cama e me concentro no tablet. Ligo e clico no navegador da internet para ver se está funcionando. Só que em vez de abrir uma página em branco, ele carrega a última coisa que eu vi on-line, como se tivesse esquecido de apagar o histórico do navegador.
“Teste genético da doença de Huntington.”
Chego a ficar sem ar ao reler aquelas palavras.
Estão entre as que mais pesquiso no Google, um assunto que, pelo bem da minha sanidade mental, eu devia parar de ler.
– Meu Deus... – falo baixinho e clico no link para lembrar exatamente o que o artigo diz.
A náusea sobe para meu peito quando vejo a página, uma lembrança violenta do problema singular que tem dominado minha vida ultimamente.
Um único gene anormal produz a doença de Huntington. Filhos de pacientes com DH só precisam de uma cópia desse gene do pai ou da mãe para desenvolver a doença.
Um teste genético pode diagnosticar ou confirmar
um diagnóstico de DH. Os filhos de alguém que tem DH podem fazer esse teste depois dos dezoito anos para ver se herdaram o gene defeituoso.
Caso tenham herdado, vão desenvolver a doença,
mas não é possível saber com que idade.
Usando uma amostra de sangue, é feita a análise
do DNA à procura da mutação da DH pela contagem das repetições CAG no gene “huntingtina”. Indivíduos que não têm DH em geral possuem 28 ou menos repetições. Indivíduos com DH costumam ter 40 ou mais repetições.
Pode ser difícil tomar a decisão de fazer o teste.
Um resultado negativo alivia a preocupação e a incerteza. Um teste positivo capacita os indivíduos a tomarem decisões sobre seu futuro.
Algumas pessoas dizem que preferem não saber
porque querem aproveitar a vida antes de começar a apresentar os sintomas, que geralmente aparecem na meia-idade.
O pânico me agarra pelo pescoço enquanto leio, o suor brota nas axilas. William podia ter visto isso e tirado suas conclusões.
E assim, tudo que escondi dele e de quase todas as pessoas que conheço nessa última década estaria ali para ele ler, preto no branco. Largo o iPad com o coração acelerado e corro para a porta, abro e espio pela fresta.
Meu filho está no sofá entretido com um livro, enfiando salgadinhos de frango na boca com a mão livre. Começa a rir de alguma coisa quando vira uma página. Digo a mim mesma que é melhor me tranquilizar.
Ele não sabe. Não pode saber.
E mesmo se viu o que andei lendo, não deve ter feito a conexão, juntado os pontinhos para criar a imagem que encaramos desde o dia em que diagnosticaram minha mãe com DH.
Descobri aquele teste genético logo depois do diagnóstico, mas no início tentei me convencer de que seria melhor não saber. A maioria dos filhos de pacientes com a doença de Huntington decide não saber, e isso não é surpresa nenhuma, se pensarmos bem.
Sim, a ideia de que podemos ter um resultado negativo para DH é uma perspectiva atraente. Ficaríamos livres da angústia sem fim. Livres para curtir a vida e esperar um futuro longo e saudável. Mas um resultado positivo é outra história, completamente diferente. Não há como “ignorar” a notícia de que herdamos esse monstro. Mesmo antes dos sintomas aparecerem, ele arruína qualquer fiapo de felicidade que talvez tivéssemos.
Algumas pessoas enfrentam muito bem o fato de não saberem se são positivas ou não. São capazes de seguir vivendo e de esperar o melhor enquanto se preparam para o pior. Mas, com o passar do tempo, eu comecei a me sentir muito mal por não saber. Eu tentei. Tentei durante anos.
Jamais consegui botar isso de lado na minha cabeça. Estava sempre lá, como um passageiro barulhento à minha frente no trem, cuja voz eu não podia abafar.
E ficou ainda mais ruidoso após ter tido meu primeiro relacionamento depois de Adam, mesmo não sendo tão sério.
Passei muito tempo evitando me envolver com alguém. Mas então conheci Toby alguns anos atrás, ele foi muito persistente, da melhor forma possível. E parecia um cara tão adorável e direto que isso bastou para me convencer de que meu longo martírio não era necessário. Por isso contei para ele logo no início que minha mãe tinha DH e que eu tinha cinquenta por cento de chance de herdar o gene defeituoso.
Ele foi maravilhoso. Deu apoio, simpatia e era sempre otimista. Bem, foi assim no início, pelo menos. O problema é que à medida que o que sentia por mim aumentava, ele passou a dar sinal de que queria se estabelecer e formar sua própria família.
Uma noite saímos para jantar num pequeno restaurante italiano em Didsbury, e ele abriu o coração.
– Eu te amo, Jess. Quero viver com você. Eu nos vejo como uma família... você, eu e uns dois filhos pequenos.
– E William – observei.
– Sim, é claro, William. – Ele estendeu a mão sobre a mesa e segurou meus dedos. – Mas precisamos saber em que pé estamos, não é? Sobre a DH, quero dizer.
A implicação era clara: eu estava no páreo para ser sua futura mulher e mãe dos filhos dele. Mas só se fizesse o teste genético e obtivesse o resultado certo.
Entendi então que o problema não era só que o que eu sentia por Toby não era tão forte quanto o que ele sentia por mim. O problema era que, o que eu decidisse, ou quando decidisse alguma coisa sobre o teste, essa decisão teria de ser minha. De ninguém mais.
Por isso quando Toby martelava que eu fizesse o teste, noite após noite, dizendo que iria comigo, levantei minha ponte levadiça. Eu não ia ser levada para uma clínica para fazer um exame de sangue por um homem que só então resolveria se ia ficar comigo ou me deixar.
Quanto mais ele pressionava, menos eu queria fazer.
De modo que ele me deixou e ficou por isso mesmo. Fiquei triste durante um tempo, mas, para ser sincera, foi um alívio voltar a ser solteira.
Mas os anos foram passando e o problema do teste não saía da minha cabeça. E quando o vento cortante do inverno começou a soprar no começo desse ano, eu chegava em Willow Bank todos os dias e sentia o sofrimento da piora do estado da minha mãe com mais intensidade ainda. Não saberia dizer se eu estava imaginando a aceleração do declínio dela, se o vento uivante de janeiro intensificava sua fala enrolada e a deformidade das mãos.
Só sei que uma tarde que estava com ela, segurando uma caneca de chá já frio, entendi que o que ela estava se tornando ia me rasgando por dentro lentamente.
Eu soube que tinha chegado a hora de finalmente conhecer meu próprio destino.
Por isso lancei os dados e fiz o teste.