Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 20 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 19

 

 

W illiam chega saltitando no meu quarto na manhã seguinte como se fosse Natal. – Mamãe, que horas são?

Consulto meu celular com olhos sonolentos.

– Ugh... sete – resmungo, e ele vai para a cozinha.

Já vou chamá-lo para perguntar por que acordou tão cedo, mas consigo me lembrar sozinha. O rafting que eu quase esqueci até ir cobri-lo na cama ontem à noite e descobrir que ele estava dormindo de calção de banho. Ele abriu os olhos um instante e explicou que ia economizar tempo ir para a cama assim.

Afasto o lençol de algodão e esfrego os olhos quando saio da cama para abrir as venezianas e deixar a luz chegar ao armário antigo e aquecer as vigas de carvalho do teto. É um quarto gostoso para acordar. Com a simplicidade despretensiosa do piso de cerâmica, um tapete simpático e uma cama forte de ferro fundido.

Com sono, ainda prendo o cabelo com elástico e sigo William até a cozinha.

– Que horas seu pai disse que vinha buscar você? Eu devia ter pedido mais detalhes para ele ontem à noite.

– Acho que às oito e meia – ele diz.

– Você acha?

Volto para o quarto para pegar o celular e enviar uma mensagem de texto para Adam, mas não tem sinal, como de hábito.

Não tenho ideia do que William vai precisar para esse programa, por isso começo a separar duas mudas de roupa, uma toalha extra, tênis, protetor solar fator 50, repelente para insetos, sandálias de borracha, uma garrafa de água e bastante salgadinho sabor frango – William tinha adquirido um estranho vício por esses salgadinhos – para alimentar uma família de cinco.

– Você acha que vou ter chance de usar isso? – ele pergunta, saindo do quarto de pé de pato.

– Acho que não, querido.

William pega meu iPad e bota na mochila.

– E também não pode levar isso.

– Mas eu quero fazer um vídeo.

– E onde vai guardar quando estiver no barco inflável?

– Ah.

Verifico de novo meu celular e vejo um lampejo de sinal. Desde a nossa chegada ali, encontrar um sinal com intensidade suficiente para enviar pelo menos uma mensagem de texto tem sido um eterno desafio. Quando as estrelas se alinham e você fica num pé só, segurando o celular um metro acima da torradeira, parece ter sido o que funcionou melhor até agora.

Preciso preparar um almoço para essa viagem de rafting, ou você vai

providenciar? E vem às 8h30? Ele não se aguenta de tanta empolgação :)

Assim que apertei enviar, eu me xinguei por ter acrescentado o emoticon sorrindo. A carinha sorridente e Adam não são uma combinação apropriada.

Observo William que senta lá fora às 8h20 para esperar o pai, sirvo uma xícara de café e vou me juntar a ele ao sol com névoa do início da manhã. O pátio está tranquilo e quieto, o único barulho é o zumbido de abelhas em volta da buganvília e os passarinhos voando em círculos no alto, piando baixo e anunciando um novo dia. William não fala nada, mas começa a bater o pé na mesa.

Desconfio que não é exatamente o rafting a fonte daquela animação toda. Trata-se do pai dele. William mal aguenta esperar para estar com ele. Sinto a garganta apertar e minha cabeça dá voltas com uma emoção inesperada. Eu nem sei por que esse fato especificamente provocou isso.

– O que foi? – pergunta William.

Pisco para afastar a ardência das lágrimas.

– Nada. Acho que deve ser alergia a alguma coisa. Talvez o protetor solar.

Mas ele não está interessado de verdade. Olha para o estacionamento à procura de Adam.

– Que horas são?

Verifico o meu relógio.

– Oito e trinta e dois.

– Ele devia ter chegado há dois minutos.

– Tenha paciência. Vou preparar um café da manhã para mim. Você tomou alguma coisa essa manhã?

– ELE CHEGOU!

Logo vejo que é só um carro preto, parecido com o de Adam, só que de outra marca e outro modelo.

– Não é ele, querido. Mas não se preocupe, ele vem.

Quinze minutos depois continuamos lá fora. Até agora já disse para William não se preocupar aproximadamente uma dúzia de vezes, tantas que ele parece não estar mais preocupado. Quanto a mim, não posso dizer o mesmo. Olho para o celular, mas não há resposta para a mensagem que enviei. Penso em irmos a pé até o château e procurar por ele, mas, se não formos pela estrada, que leva mais tempo do que a trilha, ele poderá estar a caminho e vamos acabar nos desencontrando. Tento digitar o número dele, mas vai direto para a mensagem de voz na caixa de recados.

– Posso fazer um quiz enquanto esperamos? – pergunta William.

– Ahn?

– Um quiz.

– Ah, tudo bem.

William adora esses questionários, pelo menos quando acerta todas as perguntas. Ele ainda não tem idade para dominar uma cara de bom perdedor.

– Qual é a capital da Espanha?

– Madri. – Ele faz tsc-tsc-tsc. – Você já sabia que eu sei essa.

Começo a andar de um lado para outro.

– Qual é o rio mais comprido do mundo?

– Essa é outra de geografia.

– E daí?

– E daí que você já fez uma de geografia. Pode ser outra coisa?

– Quer dizer que você não sabe a resposta?

– Sei, sim. É o Amazonas. Pode perguntar outra coisa agora?

Olho para o meu relógio e resolvo que se às nove horas Adam ainda não tiver aparecido, vou acordar Natasha para ela ficar com William e vou procurar Adam.

– É... Está bem. Soletre hidroclorídrico.

– Ah, soletrar não... – ele geme. – Que tal cinema?

– Certo – suspiro. – Qual era o nome do pai do Super-Homem?

– Jor-El.

– Muito bem.

Natasha aparece na porta com uma camiseta maior do que ela e espreguiça languidamente.

– Que bom que acordou. Pode ficar aqui com William caso Adam apareça?

Ela esfrega os olhos.

– Não vou a lugar nenhum. William e eu podemos ficar aqui sentados e conversar sobre... sobre o que você quer conversar, William?

– Você pode fazer um questionário sobre cinema?

– Ótima ideia! – diz Natasha. – Certo: nome de um dos atores principais na versão de 1966 de Os pássaros, de Hitchcock?