Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 54
B ecky reage à notícia de que dormi com Adam com a previsível discrição. – Você fez o quê? – ela engasga com o café.
Estamos do lado de fora da cabana dela e seus dois filhos mais velhos inventam formas originais de quebrar as pernas um do outro.
Vou responder, mas Seb grita de dentro da casa:
– BECKY! ISSO É UMA EMERGÊNCIA.
Ela suspira.
– Ele quer dizer que Poppy está com a fralda suja e ele está sem toalhinhas umedecidas – ela diz e corre para dentro.
Sai três minutos depois para separar Rufus e James, antes de voltar a conversar comigo.
– Por que será que os homens trocam fraldas como se executassem cirurgias de peito aberto? Você tem de ter à mão todo o equipamento para dar para ele quando o chefe está trabalhando. Mas e aí... Adam. Meu Jesus Cristinho.
– Não conte para ninguém, está bem?
– Para quem eu contaria?
– Para o Seb, por exemplo.
– Nós mal temos tempo para conversar sobre de quem é a vez de fazer o café ultimamente. Que loucura, Jess... – Então ela sorri. – E como foi?
– Terrível.
Ela fica consternada.
– Sério?
– Quero dizer que fazer isso foi terrível. O que eu tinha na cabeça? Não estava nem tão bêbada assim.
– Acho que estava. Jogando boules você quase decapitou Seb com a bola branca uma hora. Falando sério, foi horrível?
Mordo a bochecha.
– O que você acha?
O rosto dela se ilumina.
– Foi maravilhoso, não foi? Aposto que você teve meia dúzia de orgasmos. Aposto que você foi à lua e passeou nas nuvens e...
– É, está certo, foi bom – reconheço baixinho. – Aliás foi fantástico. Deve estar entre as dez melhores experiências da minha vida.
– Meu Deus. Você nadou com um golfinho uma vez, não foi?
– Eu sei – choramingo.
– Rá! Sensacional!
Um gemido baixo escapa dos meus lábios.
– Por que está preocupada com isso, Jess? Comparado com tudo em que você precisa pensar... como é que sexo ultragratificante pode prejudicar alguém?
Abro a boca para responder, mas ela continua:
– Eu daria qualquer coisa para sentir isso de novo. Não que Seb não seja bom de cama, ele é. A técnica dele não mudou, mas agora toda vez que ele transa comigo fico querendo que acabe logo porque tenho muita roupa para passar. Tenho certeza de que ele sente a mesma coisa.
– Duvido, Becky. Tem certeza de que está tudo bem com vocês?
– Ah, sim – ela diz com os olhos marejados, bebendo um gole de café. – A verdade é que não sei.
Becky larga a xícara.
– Pensei que umas férias fossem fazer a diferença. Mas está tudo na mesma. As crianças continuam brigando. Poppy, maravilhosa como é, não dá sossego. Seb e eu estamos exaustos com tudo isso e... acho que estamos descontando um no outro.
Quando ela olha para mim, vejo que está com os olhos vermelhos.
– Às vezes sinto que não sou muito boa nesse negócio de estar casada e ter três filhos. No fundo, ainda sinto o que sentia aos vinte e dois anos, mas tudo mudou em volta de mim. É como se não soubesse como tudo isso aconteceu comigo.
– Becky, muita gente se sente assim. Nós todas amamos nossos filhos, mas quem não acharia atraente a ideia de ser jovem e livre de qualquer responsabilidade? Aquele tempo era ótimo. E você transava todo fim de semana.
– Não estou falando isso para parecer dramática, Jess. Mas há momentos em que fico pensando se... se Seb e eu vamos acabar nos separando.
Tenho de admitir que fico chocada.
– É isso que você quer?
Ela franze a testa.
– Não, é claro que eu não quero. Mas também não quero sentir o que ando sentindo. Eu costumava ser boa companhia. Era engraçada, as pessoas gostavam de mim. Agora, olhe só para mim. Fisicamente sou um desastre, passo a vida toda gritando com as crianças, até briguei com Natasha outro dia sem que ela merecesse. Amo a minha família mais do que tudo. Mas às vezes eu não... curto tudo isso. – Ela fecha os olhos e funga. – Sinto que sou um fracasso completo e uma megera consumada, até por falar isso. Que tipo de mãe eu sou?
– Uma mãe cansada – eu respondo e aperto a mão dela. – Becky, você pode se sentir exausta e saturada de tudo às vezes. Tudo bem sentir que está tudo desmoronando em cima de você de vez em quando. Você é humana.
Ela respira fundo e meneia a cabeça.
– Mas a primeira coisa que você precisa fazer é aceitar ajuda. Deixe Natasha e eu tomando conta das crianças – continuo.
Ela geme.
– Nós já falamos disso. Vocês também estão de férias aqui.
– As crianças não são problema.
Ela bufa.
– Eu adoro os três, mas ninguém pode dizer isso deles.
– Ora, eu não me importo – insisto. – Vamos fazer isso. Sem discussão.
Ela hesita de novo e olha para mim desconfiada.
– Está bem, se você está realmente falando sério. Só espero que não pare de falar comigo depois.
Eu sorrio e pego minha xícara de café. Mas em vez de segurar a asa, minha mão escorrega, a xícara vira e derrama o líquido quente na mesa. Pulo na hora e começo a secar com lenços de papel que tenho na bolsa, enquanto Becky corre lá para dentro para pegar um pano de prato. Ela volta, estende o pano na mesa, seca tudo, eu afundo na cadeira, ergo a mão trêmula e não paro de olhar para ela, em desespero.
Às vezes sinto que, se olhar com bastante atenção, serei capaz de ver o que acontece por baixo da pele nas minhas articulações. De ver com meus próprios olhos se alguma coisa já está acontecendo no meu corpo, se a DH está me dominando.
– Você está bem? – sussurra Becky.
Faço que sim com a cabeça.
– Estou, tudo bem.
Mas continuo revirando a mão, analisando, buscando a resposta para a pergunta conhecida: esse acidente é do tipo que todo mundo tem, ou é alguma coisa além disso?
Olho para a pilha de lenços de papel encharcada de café frio e percebo que Becky está olhando para mim.
– Foi só um acidente, Jess. Não foi nada.
Meneio a cabeça muito tensa e pisco para afastar as lágrimas porque resolvi que não vou chorar, cerro os dentes e engulo as emoções que crescem dentro de mim. É claro que ela pode estar certa. Eu já derrubei coisas antes. Qualquer pessoa pode ser desajeitada.
Tive dúzias de sensações estranhas nos últimos dois anos: formigamento no rosto, pernas bambas como se não fossem minhas. Poucas semanas atrás parei o carro no Tesco, fiz compras e quando saí não lembrava onde havia deixado o carro. Levei cinco minutos para localizar e nesse tempo andei pelo estacionamento clicando minha chave eletrônica, procurando dar a impressão de que caminhava ali embaixo de chuva porque queria. Depois disso tive certeza: era isso. Exatamente o mesmo tipo de coisa que aconteceu com minha mãe no início, e que os pacientes com DH nos fóruns relatam como seus primeiros sintomas.
Então Becky insistiu que tinha feito a mesma coisa várias vezes nos últimos cinco anos, e uma vez ela até telefonou para Seb ir socorrê-la, convencida de que tinham roubado o carro. Ele passou pelo Ford Focus deles quando chegou, no lugar que ela deixou, perto das caixas de recicláveis.
A Dra. Inglis diz que atualmente ela acredita que esses incidentes não passam de ansiedade. Ela diz que não apresento nenhum sinal clínico de DH, minha última ressonância magnética confirmava isso e que, com ou sem gene mutante, estou saudável. Por enquanto.
O problema é quando o seu futuro envolve o que minha mãe tem enfrentado, isso não é fácil de ser ignorado. Então não deixo de fazer a mesma pergunta inúmeras vezes. Quando é que essa doença vai se espalhar embaixo da minha pele e tirar tudo que existe que me define? Meu modo de pensar. Como me movimento. Minha aparência. Todas as coisas que me fazem como sou.