Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 37
S aio do château depois da ligação pelo Skype e está muito quente lá fora, aquele calor que queima a sola dos pés e deixa a pele grudenta. A piscina está movimentada, com crianças espirrando água enquanto seus pais tomam conta, abrigados sob guarda-sóis.
Natasha está sentada a uma mesa embaixo de uma copa de flores minúsculas cor-de-rosa e conversando com Ben, de pé ao lado dela. Ele não sabe que tem um rival do afeto dela em Joshua, ou então não se importa. Pelo jeito que olha para ela agora, é o próprio perdedor.
William, James e Rufus estão do outro lado da mesa esperando o almoço chegar. Junto-me a eles no meio de uma conversa sobre o esôfago humano.
– Eu vi num episódio de Operation Ouch! – diz William animado. – Foi brilhante. Um garoto tinha arrancado a unha mordendo e engoliu. Só que era uma unha bem grande e tiveram de fazer raios X para verificar se não tinha furado o pulmão dele ou provocado alguma hemorragia arterial séria.
A luz do sol faísca na piscina quando puxo uma cadeira e uma garçonete sai do château com uma bandeja de comida: saladas regadas a óleo de noz, queijos perfumados e carnes salgadas, pães com miolo fofo e casca dura, capaz de deslocar uma obturação.
– Adorei o esmalte da sua unha, Natasha – James diz alegremente.
Ela olha para as mãos.
– Ah, obrigada, James. É novo.
– Fica bem em você – ele acrescenta e ela sorri para mim.
– Olha, vou deixar vocês com seu almoço. – Ben sorri e volta relutante para o trabalho.
Natasha o segue com o olhar por um tempinho.
– Onde está Becky? – pergunto.
Natasha aponta para a piscina.
Becky tentava nadar algumas voltas na piscina e Seb, de pé, estava a postos para pegar Poppy toda vez que a menina mergulhava, puxava para a superfície e ela piscava para tirar o cloro dos olhos.
– OUTRA VEZ! – ela ri.
Então vejo Natasha olhando fixo para o meu rosto.
– Está tudo bem?
Antes que ela responda, a voz de Seb ecoa no pátio.
– Venha cá, filha! Papai está falando sério. POPPY!
Ninguém sabe o que fez Poppy começar a correr. Eu só sei que as perninhas dela aceleraram em volta da piscina e o pobre Seb ficou rodando na água, tentando chamá-la.
– POPPY, PARE COM ISSO!
Ela para um segundo, mas depois dispara na direção das árvores. Seb e Becky sobem na borda da piscina e correm atrás da filha, que ri e se recusa a olhar para trás. E apesar de ganharem terreno, a velocidade daquelas pernas de meio metro é alarmante.
Então James grita e salva o dia.
– POPPY, PODE FICAR COM AS MINHAS BALAS!
Ela para e verifica se foi apressada, e Becky aproveita para pegá-la no colo. Quando volta com a filha para perto de nós, dá para ver o estresse marcando suas feições. Ela senta ao meu lado, seca Poppy com uma toalha e Seb chega um segundo depois.
– Não era óbvio que isso ia acontecer? – pergunta Becky, furiosa.
Seb franze a testa.
– O quê?
– Que Poppy ia sair correndo se você a pusesse na beira da piscina.
– Não, não era. Ela pulou nos meus braços várias vezes antes de fazer isso.
– Você devia ter pensado que, se ela saísse correndo, você ficaria preso dentro da piscina, impotente para pegá-la.
– Impotente não.
– Sim, impotente! Não adianta nada pular para fora como a merda do homem biônico que você é se estiver atrasado para alcançá-la.
A expressão desafiadora aparece numa ruga sobre o nariz de Seb.
– Se achava que ela corria esse perigo mortal, por que não disse nada quando a viu fazer isso na primeira vez?
– Porque você teria me acusado de interferir!
Seb bufa, olha para Natasha e para mim.
– Dá para deixar essa conversa para depois?
– Acho melhor não.
A veia latejando no pescoço de Seb é bem visível. Ele levanta, pensa no que vai fazer e finalmente leva os meninos para jogar Frisbee.
Becky para de secar Poppy e vira para nós com olhos semicerrados.
– Desculpem. Não é sempre assim.
– Claro que não – procuro acalmá-la.
– Mas filhos nos fazem mudar mesmo, não é? – Becky suspira.
– É – concordo. – Percebi isso no dia em que você publicou uma citação inspiradora da Peppa Pig no Facebook.
Becky faz uma careta.
– Como foi a conversa com sua mãe e seu pai?
Olho para a névoa sobre a piscina.
– Mamãe foi parar no hospital essa manhã.
Natasha abaixa o copo.
– Ah, não. Ela está bem?
– Agora sim, mas ela engasgou com alguma coisa.
A frase soa fria, mas sinto as unhas enfiadas na palma das mãos.
– Então ela já saiu do hospital? Você precisa voltar para casa? – pergunta Becky.
– Já. E não. Eles não querem que eu volte. Insistem que não há nada com que me preocupar.
Ela olha para minha boca e me dou conta de que estou mordendo o lábio.
– Parece que você não se convenceu.
E ela está certa. Não me convenci.