Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 38
F ico nervosa de passar a tarde com Charlie, mas não consigo resolver se isso é uma coisa boa, ruim, ou só estranha. Não ajuda nada o fato da nossa sala ser um cenário de devastação quinze minutos antes dele vir me pegar.
– Ei, William, dá para tirar seu calção molhado do meio da sala?
Mas ele está no sofá, incrustado no iPad, por isso qualquer comunicação eficiente cessou algum tempo atrás.
– William?
– Um minuto, mamãe – ele resmunga. – Estou quase terminando esse nível.
Nesse meio-tempo, cometo o erro infantil de comentar que a pele de Natasha está linda, e ela reage pegando sua caixa de cosméticos para me submeter a um “contorno facial” enquanto fico sentada na beira do sofá. E quando olho no espelho, vejo que ela transformou meu rosto numa imitação louca de Picasso, com dois triângulos escuros embaixo dos olhos e círculos rosa forte nas bochechas.
– Você está brincando?
– Ainda não terminei.
– Natasha, ele vai chegar daqui a pouco.
Olho para o sofá.
– Anda, William... tire esse calção daí antes que alguém tropece nele e quebre o pescoço, por favor.
Batem à porta e ela se abre. Meu coração dá uma cambalhota antes de eu ver que é só o Adam. Ele faz cara de espanto, como se tivesse perdido o fio da meada de alguma piada.
– Tenho um nariz de palhaço e calça com suspensórios na cabana, se você quiser completar a fantasia.
– Ainda não terminamos aqui – Natasha explica para ele e corre até a pia para pegar água.
Na volta, a ponta da sandália dela prende no calção de William, ela tropeça e se equilibra de novo no último segundo.
Faço cara feia para meu filho, levanto e tiro o iPad dele com firmeza. Ele me olha chocado e franze o nariz.
– O que é? O que foi que eu fiz?
– Você devia ter pegado o calção.
Ele pisca sem a menor ideia do que estou falando.
– Faça isso agora, senão vou confiscar esse iPad.
Foi como se eu dissesse que ia estrangular seu cachorrinho preferido.
– Mas preciso completar esse nível. Estou quase lá!
– Já!
– ESTÁ BOM! – ele retruca desafiador e vai pegar o calção batendo os pés com força no chão.
Fico dividida entre não querer que ele saia dessa com desaforo e precisar desesperadamente me arrumar antes de Charlie chegar. Dou meia-volta e vejo Adam ali parado, só assistindo.
– Quem sabe você pode conversar com ele a respeito disso? – digo para ele.
Adam olha em volta da sala como se pensasse que eu estava falando com outra pessoa.
– Eu?
– É.
Ele pensa um pouco, depois sacode os ombros.
– Claro. Vá se arrumar que eu falo com ele.
– Tudo bem. Ótimo. Obrigada.
Vou para o quarto e começo a limpar a maquiagem do rosto. Natasha vem atrás e faz uma careta quando passo o lenço de papel na pintura.
– Não é para só... esmaecer?
– Não tenho tempo para esmaecimento. Além disso, qual o problema de uma base e um pouco de blush?
Meu rosto fica apresentável, vou pé ante pé até a porta e abro uma fresta. Adam está com o braço no ombro do filho e, apesar de não dar para ouvir a conversa, escuto algumas observações empáticas que culminam com “deixe para lá, cara”.
– Meu Deus, como é irritante – reclamo.
– O quê? – pergunta Natasha.
– Adam.
– Não se preocupe com ele. Seu namorado vai chegar daqui a... – Ela olha para o relógio e a porta abre com estrondo.
É William.
– Charlie chegou – ele diz.
Fico com a boca seca.
– Ok. Obrigada.
Ele fica parado na porta.
– Desculpe, mamãe.
Minha irritação se dissolve.
– Tudo bem. Venha me dar um abraço.
Ele me abraça e depois recua.
– Então você disse que ia conversar com Charlie sobre a sua aula de ginástica... isso é verdade?
Natasha tosse.
– Por que pergunta?
– Só pensei que podia ser... um namorado.
Fico imaginando como meu filho de dez anos ficou tão perspicaz.