Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 60
N o dia seguinte, perguntei para Becky: – Por que vocês voltaram para casa tão cedo? – Bem – ela se remexe –, eu fiquei preocupada com o que acontecia lá.
– Não aconteceu nada! Foi um passeio. As crianças foram maravilhosas.
– Ninguém deu piti?
– Não, a não ser que você conte a Natasha, quando não conseguiu encontrar o saca-rolha. Olha, a ideia era que você e Seb realmente se distraíssem e tivessem uma noite maravilhosa.
– Nós tivemos, mais ou menos – ela protesta, mas não me convence. – Mas preferia não ter comido aquela sobremesa enorme. Vou começar um regime amanhã.
– Não precisa, você está ótima desse jeito – responde Seb, aparecendo na porta.
– Obrigada, mas minha jeans velha não pensa assim.
Dou risada e ouço um berro agudo lá de fora, seguido por um grito: “MAMÃEEEEE!”
Becky olha cansada para Seb, que suspira e diz:
– Eu vou.
– Vamos deixá-la em paz – diz Becky para mim, segurando a mão de Poppy, à porta da cabana. – Tenho de contar que encontrei Adam quando estávamos saindo. Ele pareceu... meio esquisito.
– Esquisito como?
– Meio agitado. Por falar no diabo...
Adam está vindo na nossa direção. Meus ombros ficam tensos.
– Oi, Becky. Foi bom o programa ontem?
– Muito bom, obrigada – ela responde.
Adam sorri e me pego olhando para a boca dele.
– Bom, preciso ir ao supermercado para alimentar essa tropa, senão o mundo vem abaixo. Venha, Poppy, vamos pegar suas passas e ir ao shopping. Vejo vocês mais tarde.
Ela olha séria para mim antes de ir para o carro.
– Quer dar um passeio? – sugere Adam.
– William vai voltar para a cabana depois da partida de futebol e quero estar lá quando ele chegar.
– Que tal irmos para lá então?
Faço que sim, com a cabeça meio ressabiada.
– Tudo bem.
Vamos para a floresta e pegamos a trilha onde riscas de luz do sol salpicam o tapete de samambaias escuras. Olho para o chão e Adam revela que contou para Simone que ele não pode viajar.
– Eu disse que não queria me afastar de William por tanto tempo. E... que gostava de outra pessoa.
Eu me forço a olhar para frente.
– Ela perguntou quem era?
Sinto o olhar de Adam.
– Acho que nem precisava dizer.
Engulo em seco.
– E então, como foi que ela reagiu?
– Ela pediu demissão e disse que ia pegar um voo para voltar para a casa dos pais dela hoje à tarde. Então disse que o advogado do pai dela ia entrar em contato comigo para me processar por ter sido forçada a pedir demissão.
Respiro fundo.
– Deu tudo certo, então.
Chegamos à cabana, sentamos nas cadeiras do lado de fora e sinto um nó no estômago. Viro o rosto para cima e fecho os olhos em silêncio para sentir o calor forte do sol nas pálpebras enquanto fantasio por um segundo que seria capaz de fazer isso funcionar. Que poderia consertar os fragmentos partidos da nossa família, botar as peças do quebra-cabeça em seus lugares de novo.
Quem sabe seja por isso que sinto necessidade de falar uma coisa que talvez tenha chegado tarde demais, infelizmente.
– Eu sinto muito.
Ele fica confuso.
– Por quê? Você estava certa sobre Simone e a viagem.
– Não é isso... Estive pensando no que você disse. Que eu levei você a achar que não seria bom pai para o William. Sinto muito ter dito que ele ficaria melhor sem você. Isso foi um erro.
Registro a emoção no rosto de Adam.
– Isso não era verdade, e você provou desde que chegamos aqui. – Examino o rosto dele. – Ele adora você, Adam, muito mesmo. E desde que chegamos aqui, acho que você conquistou o amor dele. Você merece.
Ele aperta os olhos, constrangido com a própria reação.
– Jess – diz ele aflito –, agora pode dar certo, sabe? Pode mesmo. O que eu sinto por você... mudou. Não, não foi isso, apenas ficou muito claro.
Adam continua falando, como se participasse de um debate na escola, diz que faz sentido ficarmos juntos, tentar de novo.
Mas eu não consigo me concentrar nas palavras dele. Só no que eu ainda não disse. No que passei dez anos escondendo.
– Por que você está chorando?
Ele vira para mim e o olhar dele me dá um aperto no coração.
– Não vai funcionar, Adam. Nós não podemos ficar juntos.
Sei que preciso contar tudo. Devo isso a ele. Devia ter contado anos atrás.
– É que...
Mas minha voz some, não quer fazer parte dessa revelação. Como é possível contar uma coisa dessas para o homem que nunca desocupou meu coração? Se eu sei que vai modificar tudo que ele pensava de mim? Se sei que ele nunca mais vai poder olhar nos meus olhos e ver uma mulher que ele deseja, só alguém de quem sente pena? Abro a boca para tentar falar, mas ele se adianta.
– É aquele seu vizinho, não é?
Quase engasgo com o riso, chocada.
– O quê?
– Aquele cara, Charlie. É evidente que ele está louco por você.
Balanço a cabeça, incrédula.
– Não é ele. – Adam cruza os braços em posição defensiva. – Adam, eu nem gosto dele. É apenas um cara que conheci na viagem.
Os olhos dele se enchem de lágrimas.
– Eu entendo.
– Não entende não!
Quero encher os pulmões e gritar: não é aquele cara, o Charlie. Como poderia ser, com você aqui, fazendo com que eu me sinta viva quando estamos juntos? Provocando em mim um desejo insuportável toda vez que sinto o cheiro da sua pele?
Só que isso não ajudaria em nada. Então eu falo, fazendo graça:
– Adam, o cara usa cardigãs. Com gola. Garanto que não é ele.
Vejo Charlie olhando para mim com raiva, depois de ouvir tudo que eu tinha dito. Ele desvia o olhar, dá meia-volta e vai para sua cabana com passos largos, batendo a porta quando entra.