Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 11 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 10

 

A vista matinal da janela da cozinha está enevoada e sem perspectiva de melhora, com o sol baixo escurecido pela bruma. Faço um café e levo lá para fora.

Quando sento, a porta do outro lado do pátio se abre e um homem sai com uma menina que parece ser sua filha. Ele deve ter a minha idade, talvez um pouco mais velho, e usa um short que revela pernas bronzeadas e musculosas. A camisa é bonita e bem passada. A menina tem cabelo preto comprido, um piercing no nariz e tanta maquiagem que podia ter doze ou vinte e cinco anos.

– Bom dia, mamãe!

Olho para lá e vejo William se espreguiçando na porta, olhos ainda sonolentos e a calça do pijama do avesso.

– Bom dia, querido, como você está?

– Morrendo de fome.

Ouço esse refrão pelo menos doze vezes por dia ultimamente, exceto, ao que parece, quando tem moela no cardápio.

– Podemos comer pains au chocolat?

– Está bem, vamos caminhando até o château – respondo. – Assim terei oportunidade de praticar o meu francês.

Aprendi a língua quando estava no ensino médio. E tem sido uma mão na roda esses anos todos, em todas as ocasiões em que tive de explicar que tinha catorze anos, que meus hobbies incluíam netball e ler os livros de Judy Blume. Mas recentemente baixei um curso de línguas em áudio, e espero que tenha pelo menos atualizado meu repertório de frases.

William e eu nos vestimos, e quando saímos a névoa está se desfazendo rapidamente. Está mais frio do que ontem à tarde, com nuvens bem altas no céu muito azul. Saímos da luz salpicada de baixo das árvores e vemos que há alguns casais no terraço, relaxando lendo jornais e tomando o café da manhã. Que explode com o cheiro delirante de pães recém-saídos do forno e café forte, enquanto vasos de flores molhadas que acabaram de regar promovem uma manifestação de cores cintilantes.

Portas duplas nos levam para uma sala fresca, com uma mesa antiga bem polida e um pote de figos grandes e maduros no centro. Um vaso alto de vidro cheio de agapantos enfeita o canto do outro lado. O lugar cheira a sabonete de grife, flores recém-cortadas e luxo.

– Bonjour, madame.

A senhora que nos recebe é algumas décadas mais velha do que alguns da equipe, mas tem sorriso aberto e pele que brilha cheia de vitalidade.

– Je peux vous aider? Vous avez l’air un peu perdu tous les deux.

A voz dela soa suave como uma canção de ninar e ela ri gentilmente do comentário final. Eu rio também, apesar de não ter a menor ideia do que ela disse.

– Vous désirez quelque chose? – pergunta ela, bem mais acelerada do que qualquer um do meu áudio virtual.

Pigarreio e resolvo manter tudo simples, começando com a bebida.

– Vous avez EAU?

Uma ruga de dúvida aparece acima do nariz dela.

– Eauuuu – repito.

Falo a palavra da forma mais clara possível, mas ela olha para mim como se eu estivesse pedindo algo tão misterioso que precisaria consultar no Google e depois encomendar numa pequena loja especializada, na periferia da Sibéria.

– OOOuuuuu? – Ela franze a testa devagar.

– Oui! – dou um largo sorriso, triunfante.

– Je ne comprends pas. Vous pouvez répéter? Si nous n’en avons pas, je peux en commander.

Fico terrivelmente vermelha.

– Você está bem, mamãe? – pergunta William.

– Sim, estou ótima – digo eu, e resolvo mostrar o que quero dizer.

Faço a mímica de destampar a garrafa e servir água em um copo, depois faço que bebo animada.

– Ahh! – exclama ela finalmente, e nos convida a sentar lá fora, depois desaparece no château e volta com a lista de vinhos.

– Posso ajudar? – Adam aparece na porta de calça cinza e camisa azul-clara aberta no pescoço.

– Tudo sob controle – eu insisto, então ela fala com ele em francês muito rápido, ele responde em francês muito rápido e eu só meneio a cabeça, para dar a impressão de que estou acompanhando todo aquele diálogo.

– O que vocês querem pedir? – pergunta Adam. – Claudine acha que querem algum anticongelante para o carro, mas imaginei que não podia ser isso.

– Eu só quero um pouco de água – resmungo. – Só isso.

– Ahhh, água! – exclama Claudine.

– Sim, água – sorrio, perdida. – Eau. Apenas eau. Ah, e dois pains au chocolat e um café au lait, se for possível.

– Bien sûr – responde ela, e desaparece pela porta dupla.

Adam e William olham para mim e trocam um olhar de riso.

Não era esse tipo de elo que eu tinha em mente para os dois.