Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 14 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 13

 

A reputação de Adam antes de começarmos a namorar era irrelevante, porque não existe lógica em se apaixonar. Quando o coração canta, a cabeça fica completamente à mercê dele.

Nós nos conhecemos em Edimburgo, onde ambos estudávamos literatura inglesa na universidade. A primeira vez que notei Adam foi em uma aula sobre o Iluminismo, uma semana depois do início do ano letivo. Não foi um momento como se um raio me atingisse, de não conseguir respirar por estar totalmente embevecida por ele. Mas, à medida que as semanas iam passando, toda vez que eu o avistava, mesmo do outro lado da sala de aula, meu corpo todo derretia.

Ele não era o cara mais bonito, mas tinha adquirido certa fama de provocar palpitações no nosso curso, alguém que fazia mulheres inteligentes em outras situações perderem a cabeça. Eu fui uma delas. Sim, durante todo o nosso primeiro ano eu sentei muito tensa na lateral do anfiteatro das aulas, invisível.

Nas férias de verão acabei confessando para Becky o que sentia por ele, quando viajávamos pela Tailândia. Nessa viagem, nadamos nuas no mar à meia-noite, fizemos trios na cama com dois barmen suecos e fumamos maconha no minuto em que acordávamos todas as manhãs, às onze horas. Pessoalmente eu preferia ficar com meu café àquela hora, ou enrolar a saia e bater papo num barquinho com uma mulher muito simpática de Dunstable que conhecemos, que sempre queria gozar depois de assistir a O rei e eu.

– Não sei por que você não vai lá e fala com ele – Becky sugeriu, como se fosse tão simples para mim como seria para ela.

Então, em vez disso, quando voltamos para o segundo ano na universidade embarquei num relacionamento de baixo nível de manutenção com um cara muito legal chamado Carl, que hoje em dia é um dos grandes em seguros. Só sei disso porque ele apareceu num programa da TV alguns anos atrás, comentando sobre uma mulher que gastou uma fortuna com uma unha encravada numa viagem de férias porque não tinha lido as letrinhas pequenas dos documentos da política de viagens. O namoro não durou muito e nos separamos logo depois do Natal. Nenhum de nós ficou especialmente arrasado.

Poucas semanas depois, nas horas finais de uma noite de janeiro, eu me vi na pista grudenta de uma boate com a música vibrando no meu esterno, escuridão e luzes piscando no cérebro. A língua de Becky estava quase pregada num cara com camiseta dos Sex Pistols, e eu andava pela beira da pista pensando se devia arrastá-la para casa.

Percebi que tinha alguém ao meu lado, olhei para cima e senti meu peito explodir. Adam não era um dançarino exibido, mas se movia com ritmo instintivo e sem fazer pose. O calor irradiava dele, eu prendi a respiração e tentei não olhar para seus olhos sonolentos, para sua boca carnuda, para a linha daqueles ombros largos que se moviam dentro de uma camiseta. Becky me empurrou para cima de Adam quando os primeiros acordes de “Common People” do Pulp começaram a soar nas caixas.

Depois ele sempre dizia que aquele momento foi a primeira vez que ele reparou em mim, que realmente me viu: sendo jogada para cima dele enquanto Jarvis Cocker cantava uma serenata para ele.

Não dissemos nada um para o outro. Nenhuma palavra. Ele simplesmente me pegou nos braços, meu corpo latejando com a música e com algo bem mais potente. Dançamos e nos beijamos o resto da noite. Tentamos conversar, mas não dava para ouvir uma palavra com aquele sistema de som, só depois que a boate nos expulsou e andamos de mãos dadas à procura de um táxi. A noite era fria e escura e eu pegava fogo.

– Estou fazendo literatura inglesa – ele disse, claramente convencido de que era novidade para mim.

Fiquei constrangida de ter de explicar.

– É, eu sei. Estou no mesmo curso.

Ele ficou surpreso, mas achei que também detectei um quê de preocupação por ter de me ver de novo. Sempre fui catastrofista no que diz respeito ao Adam.

Mas quando entrei na sala da nossa aula na segunda-feira, senti um tapinha no ombro e era ele, sorrindo para mim.

– Oi. Posso sentar ao seu lado? – pediu.

E foi assim que tudo começou.

 

Nos primeiros três anos juntos, eu fui realmente feliz. Dura, mas infinitamente feliz. Nós dois fomos.

Sem laços de família, Adam foi comigo para Manchester quando nos formamos, e mudamos para um apartamento pequeno, quase sem mobília, em Salford. Dava para o lugar onde hoje está Media City UK, a movimentada metrópole de última geração que abriga a BBC, a ITV e um conjunto de bares e restaurantes cintilantes. Na época era um estacionamento. Mas nós não precisávamos de vista nenhuma. Tínhamos um ao outro, e isso era mais do que suficiente.

Embarquei num curso de um ano para me qualificar como palestrante, e Adam, que tinha saído da faculdade com uma das notas mais elevadas do curso, foi estagiar em uma companhia de eletricidade. Tínhamos um círculo social ótimo. Além de resgatar antigas amizades de infância, eu conheci gente nova no meu curso. Enquanto isso Becky e seu namorado Seb, que imaginei que fossem ficar em Edimburgo, tiveram ofertas de trabalho em Manchester e mudaram para lá também.

Infelizmente o entusiasmo de Adam pelo trabalho não durou muito. Só reconheci isso depois. Na época, mal notei. Nem sei se ele percebeu. A vida naqueles dias girava em torno dele e de mim. Foi um tempo de tesão, eu acordava todo dia com uma xícara de chá recém-feita e com o calor da boca de Adam no meu pescoço.

– Por que não volta para a cama? – murmurei uma manhã de baixo das cobertas.

Ele tinha acabado de fazer a barba e estava pronto para ir trabalhar, animado e com um gosto sublime.

– Porque tenho de estar numa reunião de pessoal às 8h45.

– Ok – eu disse e forcei os braços a ficarem ao lado do corpo.

– Mas posso ser convencido a me atrasar – ele sussurrou e me beijou na boca.

– Não quero que você tenha problemas.

– Bem, os trens andam terríveis ultimamente. – Ele deu um sorriso largo, tirou o paletó e voltou para a cama, para os meus braços.

Ele nem saiu em disparada depois, recusou-se a correr e perder o papo pós-transa sonhador que sempre tínhamos entre beijos. Aquelas conversas em que Adam sempre queria falar do futuro. Quase nunca sobre o presente e certamente não sobre o passado, por motivos que só ficaram aparentes mais tarde.

– Onde vamos morar depois que você terminar seu curso?

– Ah, algum lugar charmoso... Burnley? – sugeri.

Ele deu risada.

– Mal posso esperar.

– Mas... Nova York também seria bom – acrescentei.

– Nossa, seria sim. Que tal a França? Ou Itália?

– São muito caras.

– É, mas podemos comprar juntos uma casa caindo aos pedaços e reformar. Em algum lugar negligenciado há séculos e que só precise de um pouco de amor e carinho. Eu adoraria isso. Você não?

– Adoraria, Adam – respondi sinceramente. – Mas eu sentiria saudade dos amigos.

– Ah, ficaremos bem em qualquer lugar, desde que tenhamos um ao outro – ele disse despreocupado.

– Seu velho romântico – murmurei de brincadeira, mas o fato é que achei que ele tinha falado sério.