Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 70 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 69

 

O sorriso do meu pai parece mais fraco cada vez que o vejo esses dias. Costumava ocupar todo o seu rosto quando ria, e ele ria com frequência. Sinto saudade daquele som, quase tanto quanto da voz da minha mãe, uma voz que cantava canções de ninar quando eu era pequena e que acalmava meu filho quando ele caía e machucava o joelho.

Estou no escritório de Adam, cercada de papéis e conversando com meu pai no Skype. Ele procura me consolar dizendo que continua de queixo erguido. Natasha foi esquiar e William foi pescar no lago com Seb e os meninos.

– Gaynor esteve aqui mais cedo, e isso foi bom – diz papai.

Gaynor é uma das amigas mais antigas da minha mãe. Estudaram juntas e, apesar de ela morar em Pittsburgh hoje, ainda faz o esforço de visitar a cada dois meses.

– Ah, como está ela?

– Muito bem. Barry e ela acabaram de chegar de uma viagem ao Quênia. Fizeram um grande safári com a família toda. Disseram que foi maravilhoso.

– Que ótimo.

Os olhos dele vagueiam um pouco e eu sei o que está pensando. Mamãe teria adorado algo assim.

– Acho que Gaynor ficou chocada – diz ele.

– Com... com o estado de mamãe agora?

Papai não responde de pronto, mas acaba conseguindo menear a cabeça.

Ele está com ela todos os dias, por isso as mudanças em mamãe são quase imperceptíveis para nós. São muito lentas e sorrateiras, é como observar uma flor secando. Não se vê nada acontecendo quando fixamos o olhar nela. Só quando nos afastamos e voltamos é que vemos a flor mais murcha. E com mamãe não há nada mais perturbador do que a expressão devastada de amigos que não a veem há um tempo.

Em silêncio triste, assisto papai cobrir a boca com a mão trêmula, sem conseguir esconder a emoção de mim, sua determinação de se manter forte enquanto encolhe sob a pressão de uma tristeza arrasadora.

E com isso lembro que ele não é só meu pai, que ela não é só minha mãe.

São duas pessoas que se apoiaram mutuamente por trinta e cinco anos. O brilho do amor deles iluminou os maus momentos, os momentos lindos e os momentos que teriam destruído outros casais.

A decadência de mamãe tem sido longa e mais demorada do que devia. Apesar de saber que ela ainda não dá sinal de que vai nos deixar, quando acontecer será antes de qualquer um de nós estar preparado para enfrentar. Sinceramente não sei o que faremos sem ela.

– Vou voltar para casa, papai – resolvo.

Digo isso não só por ela, mas por ele. Papai não pode fazer isso sozinho. Quando uma enfermeira passa e ele se distrai, aproveito para mudar de assunto, antes que ele tente me dissuadir do que acabei de decidir.

– Ah, e Adam quer voltar para a Inglaterra.

Papai se espanta e endireita as costas.

– É mesmo?

– É, ele quer passar mais tempo com William.

O carinho que papai sente por Adam aparece nas rugas dos cantos dos olhos. Isso vai além de deixar mamãe feliz. Quando nós estávamos furiosas com Adam, papai nunca foi capaz de sentir isso.

– Ora, isso é ótimo, Jess. Só pode ser bom, para você e para o William.

– Sim. Mas só acredito vendo.

Papai desanima um pouco.

– Está dizendo que não acha que Adam vai se interessar quando voltar?

– Não, não estou dizendo isso...

Mas quando minha voz some, eu ainda estou tentando descobrir o que quero dizer.

Então descubro. Eu estou me defendendo. Não quero acreditar que Adam vai se transformar num superpai até poder ver isso acontecer na vida real. Não quando estamos aqui só em férias prolongadas.

– William e eu já nos decepcionamos bastante com Adam nesses anos todos e sabemos que isso pode acontecer de novo. Espero que não, mas preciso ser realista.

– Ele não vai decepcioná-los, Jess.

Sorrio para ele, curiosa.

– Sei que você sempre gostou dele, papai, mas ele nunca foi confiável. Provar que você pode ser um bom pai exige mais do que algumas semanas ao sol. Ele ainda é o homem que me abandonou para dormir com uma ex-namorada quando William nasceu.

Papai recosta na cadeira.

– Você achou que ele estava dormindo com a ex-namorada?

– Eu sei que ele estava dormindo com a ex-namorada.

Papai engole em seco.

– Sua mãe disse isso também, mas pensei que era só conclusão precipitada dela.

– Nada disso. Foi imperdoável.

– Mas... eu pensei que você tivesse gostado de ter sua mãe lá quando William nasceu.

Não consigo evitar de ficar irritada com aquela conversa.

– É, eu gostei, mas preferia que estivessem os dois lá – eu digo, exasperada. – Afinal de contas, Adam era o pai!

Ele faz que sim com a cabeça e desvia o olhar.

– Eu só... as coisas eram diferentes quando você era bebê. Ninguém dava a mínima se o pai não estivesse presente.

Então ele levanta o queixo e olha fixo para mim, sem respirar, mexendo a boca aflito.

– O que foi, papai?

– Jess, preciso contar uma coisa para você.