Fundamentos de Física, Volume 3: Eletromagnetismo
Dielétricos e a Lei de Gauss
Tanto o campo produzido pelas cargas superficiais dos dipolos
induzidos nas moléculas apolares (Fig. 25-15c) como o campo elétrico
produzido pelos dipolos permanentes das moléculas polares (Fig. 25-14) apontam no sentido oposto ao do campo aplicado. Assim, tanto os dielétricos polares como os dielétricos apolares enfraquecem o campo elétrico na região onde se encontram, que pode ser o espaço entre as placas de um capacitor.
25-6 DIELÉTRICOS E A LEI DE GAUSS
Objetivos do Aprendizado
Depois de ler este módulo, você será capaz de ...
25.28 Saber a diferença entre carga livre e carga induzida em um capacitor com um dielétrico.
25.29 Em um capacitor em que o espaço entre as placas está ocupado total ou parcialmente por um
dielétrico, calcular a carga livre, a carga induzida, o campo elétrico na região entre as placas (se
a ocupação é parcial, o campo elétrico tem mais de um valor) e a diferença de potencial entre as
placas.
Ideias-Chave
• Quando um dielétrico é introduzido no espaço entre as placas de um capacitor, é induzida uma carga nas superfícies do dielétrico que reduz o campo elétrico na região entre as placas. • A carga induzida é menor que a carga livre das placas. • Na presença de um dielétrico, a lei de Gauss se torna em que q é a carga livre. O efeito da carga induzida é levado em conta pela inclusão da constante dielétrica κ no integrando.
Dielétricos e a Lei de Gauss
Em nossa discussão da lei de Gauss no Capítulo 23, supusemos que as cargas estavam no vácuo. Agora vamos modificar e generalizar a lei para que ela possa ser aplicada ao interior de materiais dielétricos como os da
Tabela 25-1. A Fig. 25-16 mostra um capacitor de placas paralelas com e sem um dielétrico no espaço entre as placas, cuja área é A. Vamos supor que a carga q das placas é a mesma nas duas situações. Observe que o campo elétrico entre as placas induz cargas nas superfícies do dielétrico por um dos mecanismos discutidos no Módulo 25-5.
Para a situação da Fig. 25-16a, na ausência de um dielétrico, podemos
calcular o campo elétrico entre as placas como fizemos na Fig. 25-5: Envolvemos a carga +q da placa superior com uma superfície gaussiana e aplicamos a lei de Gauss. Chamando de E o módulo do campo, obtemos 0
ou
Na Fig. 25-16b, com um dielétrico no espaço entre as placas, podemos calcular o campo elétrico entre as placas (e no interior do dielétrico) usando a mesma superfície gaussiana. Agora, porém, a superfície envolve dois tipos de cargas: a carga +q da placa superior do capacitor e a carga induzida −q′ da superfície superior do dielétrico. Dizemos que a carga da placa do capacitor é uma carga livre porque pode se mover sob a ação de um campo elétrico aplicado; a carga induzida na superfície do dielétrico não é uma carga livre, pois ela não pode deixar o local onde se encontra.
Como a carga total envolvida pela superfície gaussiana da Fig. 25-16b é q − q′, a lei de Gauss nos dá
ou
Como o efeito do dielétrico é dividir por κ o campo original E , podemos 0 escrever:
Comparando as Eqs. 25-33 e 25-34, temos
A Eq. 25-35 mostra corretamente que o valor absoluto q′ da carga induzida na superfície do dielétrico é menor que o da carga livre q e que é zero na
ausência de um dielétrico (caso em que κ = 1 na Eq. 25-35).
Figura 25-16 Capacitor de placas paralelas (a) sem e (b) com um dielétrico entre as placas. A carga q das placas é tomada como a mesma nos dois casos.
Substituindo q − q′ na Eq. 25-32 pelo seu valor, dado pela Eq. 25-35, podemos escrever a lei de Gauss na forma
Embora tenha sido demonstrada para o caso particular de um capacitor de
placas paralelas, a Eq. 25-36 é válida para todos os casos e constitui a forma mais geral da lei de Gauss. Observe o seguinte:
1. A integral de fluxo agora envolve o produto κ em vez de . (O
vetor ε κ recebe o nome de deslocamento elétrico e é representado 0
pelo símbolo ; assim, a Eq. 25-36 pode ser escrita na forma
)
2. A carga q envolvida pela superfície gaussiana agora é tomada como
apenas a carga livre. A carga induzida nas superfícies do dielétrico é
deliberadamente ignorada no lado direito da Eq. 25-36, pois seus
efeitos já foram levados em conta quando a constante dielétrica κ foi
introduzida no lado esquerdo.
3. A diferença entre a Eq. 25-36 e a Eq. 23-7, nossa versão original da
lei de Gauss, está apenas no fato de que, na Eq. 25-36, a constante ε0
foi substituída por κε . Mantemos κ no integrando da Eq. 25-36 para 0
incluir os casos em que κ não é a mesma em todos os pontos da
superfície gaussiana.
Exemplo 25.06 Dielétrico preenchendo
parcialmente o espaço entre as placas de um
capacitor
A Fig. 25-17 mostra um capacitor de placas paralelas em que a área
das placas é A e a distância entre as placas é d. Uma diferença de
potencial V é aplicada às placas por uma bateria. Em seguida, a 0
bateria é desligada e uma barra de dielétrico de espessura b e constante
dielétrica κ é introduzida entre as placas, da forma mostrada na figura.
Suponha que A = 115 cm2, d = 1,24 cm, V = 85,5 V, b = 0,780 cm e κ 0
= 2,61.
(a) Qual é a capacitância C antes da introdução do dielétrico? 0
Cálculo: De acordo com a Eq. 25-9, temos
(b) Qual é o valor da carga das placas?
Cálculo: De acordo com a Eq. 25-1, temos
Como a bateria usada para carregar o capacitor foi desligada antes da
introdução do dielétrico, a carga das placas não muda quando o
dielétrico é introduzido.
(c) Qual é o campo elétrico E nos espaços entre as placas do capacitor 0
e o dielétrico?
IDEIA-CHAVE
Podemos aplicar a lei de Gauss, na forma da Eq. 25-36, à superfície
gaussiana I da Fig. 25-17.
Cálculos: Como o campo é zero no interior da placa e é
perpendicular às faces laterais da superfície gaussiana, precisamos
considerar apenas o fluxo através da face inferior da superfície
gaussiana. Como o vetor área e o vetor campo apontam
verticalmente para baixo, o produto escalar da Eq. 25-36 se torna
Figura 25-17 Capacitor de placas paralelas com um dielétrico que
não ocupa totalmente o espaço entre as placas.
Nesse caso, a Eq. 25-36 se reduz a
A integração agora nos dá simplesmente a área A da placa. Assim,
temos
Devemos fazer κ = 1 porque a superfície gaussiana I não passa pelo
dielétrico. Assim, temos
Observe que o valor de E não varia quando o dielétrico é introduzido 0
porque a carga envolvida pela superfície gaussiana I da Fig. 25-17 não
varia.
(d) Qual é o campo elétrico E no interior do dielétrico? 1
IDEIA-CHAVE
Podemos aplicar a lei de Gauss na forma da Eq. 25-36 à superfície
gaussiana II da Fig. 25-17.
Cálculos: Essa superfície envolve a carga livre −q e a carga induzida
+q′, mas a segunda deve ser ignorada quando usamos a Eq. 25-36. O
resultado é o seguinte:
O primeiro sinal negativo da equação vem do produto escalar . na
face superior da superfície gaussiana, já que agora o vetor campo
aponta verticalmente para baixo e o vetor área (que, como sempre,
aponta para fora da superfície gaussiana) aponta verticalmente para
cima. Como os vetores fazem um ângulo de 180o, o produto escalar é
negativo. Dessa vez, a constante dielétrica é a do dielétrico (κ = 2,61).
Assim, a Eq. 25-37 nos dá
(e) Qual é a diferença de potencial V entre as placas depois da
introdução do dielétrico?
IDEIA-CHAVE
Podemos determinar V integrando de uma placa do capacitor até a
outra ao longo de uma trajetória retilínea perpendicular ao plano das
placas.
Cálculo: No interior do dielétrico, a distância percorrida é b e o
campo elétrico é E ; nos espaços vazios entre as placas do capacitor e a 1
superfície do dielétrico, a distância percorrida é d − b e o campo
elétrico é E . De acordo com a Eq. 25-6, temos 0
Esse valor é menor que a diferença de potencial original de 85,5 V.
(f) Qual é a capacitância com o dielétrico entre as placas do capacitor?
IDEIA-CHAVE
A capacitância C está relacionada à carga livre q e à diferença de
potencial V pela Eq. 25-1.